sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Cedo demais*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. A sinergia, conceito de gestão criado em 1965 por Igor Ansoff, deu um pretexto maravilhoso para os gestores tornarem maiores as suas empresas. É que, afiançava-se, a sinergia obtida na agregação ou fusão de empresas, facilmente fazia que dois mais dois fossem cinco. Ou mais.

Repare-se: enquanto há meio século a malta desengravatada se entretinha com a “paz e amor” de Jim Morrison e Janis Joplin, a malta da gestão começou a tripar com este “alucinogénio” que usou durante décadas — é assim que o livro “Funky business, o capital dança ao som do talento” goza com a sinergia.

Mal o li há dez anos, devia ter logo malhado aqui nos “sinérgicos”: é que conglomerar empresas, bastas vezes, em vez de dois mais dois cinco, dá, mas é, três e meio, quando não muito menos.

Entretanto, a malta que estava sempre com o paleio da sinergia na boca deixou-se disso e vende agora, com o mesmo entusiasmo, “start-ups” e “empreendedorismo”. Já não vale a pena malhar-lhes. É “tarde demais”.

2. António, o genial cartoonista do Expresso, tem uma exposição dos seus desenhos na Biblioteca Municipal de Viseu, até 8 de Outubro. A não perder.

Ele contou a este jornal que, mal começou a perestroika de Mikhail Gorbachev, o desenhou com um mapa-mundo na cabeça, tirando partido visual da sua mancha na testa.

O problema é que, então, as agências estavam a apresentar fotografias retocadas de Gorbie, com a cabeça limpa. António teve que esperar por meses de aparições televisivas do líder soviético até os leitores se familiarizarem com a mancha e poderem perceber. Foi um desenho feito "cedo demais".

3. Depois da demissão de Assunção Cristas — que não vai conseguir ser eleita vereadora em Lisboa —, é elevada a probabilidade de, à direita, o CDS começar a imitar o populismo eurocéptico do bloco e o nacionalismo eurofóbico do PCP.

Bem sei: fazer uma previsão destas é capaz de ser “cedo de mais”.

como se atira o dardo com o corpo todo

Fotograma de "As Mil e Uma Noites", de Pier Paolo Pasolini (1974)


como se atira o dardo com o corpo todo,
com a eternidade em não mais que nada,
e depois a abolição do tempo,
e então o que respira no corpo passa à vara,
e o que respira na vara passa depois à ponta,
tu não, tu já respiraste tudo pelo dardo fora,
mudo e cego e surdo,
e és um só ponto do alvo onde respiras todo,
e tudo respira nesse ponto,
em ti, veia da terra, oh
sangue sensível
Herberto Helder

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Árvores*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 29 de Setembro de 2006


1. Em poucos anos, Marzovelos transformou-se num dos maiores núcleos urbanos de Viseu, onde habitam milhares de pessoas.

Muitas delas não sabem que, mesmo no meio da rua principal de Marzovelos, havia um grande pinheiro que era o orgulho da terra.

Quando começou o “boom” da construção, a “pinheira” (era assim que era conhecida) caiu sobre um prédio em obras. O Restaurante “A Pinheira”, junto ao Parque Infantil, é a única referência que ainda resta no bairro a essa árvore magnífica.

Depois de milhões e milhões de euros de investimento público e privado, ainda não apareceu em Marzovelos nada tão bonito como era aquela “pinheira”.


Fotografia Oho de Gato
2. Sempre que venho do Sul, na N2, passadas as bombas de gasolina da GALP de Vila Chã de Sá, procuro-o com os olhos no fundo da recta. Quer venha de longe, quer venha de perto, só sinto que estou quase a chegar a casa quando vejo aquele cedro alto que parece um cão de orelhas espetadas e boca aberta. 

Aquele cedro curioso está em perigo porque a estrada está a ser duplicada. Não haverá forma de o preservar?

3. O Secretário de Estado da Educação, Valter Lemos, acaba de determinar em Despacho: “Os tempos mínimos para a leccionação do programa do 1º Ciclo são: Língua Portuguesa – 8 horas lectivas de trabalho semanal, incluindo uma hora diária para a leitura.”

Para além de terem de ouvir a professora a “capuchinhar” até ficar de garganta seca, os meninos do 1º ano vão, para já, passar uma hora por dia a lerem “a tia tapa o pote”. Mais para o Natal, todos os meninos de seis anos, do Minho ao Algarve, quando souberem mais umas letritas, vão ler em coro: “já lemos graças ao Lemos”.
Lerão uma hora. Se for mais, não faz mal. Menos é que nem um segundo. Ordens são ordens. Mesmo que pensadas com os pés.

Sem palavras nem coisas

Fotografia de Nino Oshkhereli



Entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar
as árvores: mas aquilo que amaste perdura
junto da água morna os animais aguardam o ruído
vegetal da noite, e as luzes bocejam
a mansidão das pernas esticadas: o amor
não tem tempo, e dura no que amaste.
Dura de repente nos olhos abertos e
a água que respira no flanco dos animais
bocejando devagar a chegada da noite e das
redes e os passos mornos dos caçadores,
e as luzes escancaradas do silêncio. Dura
esticado nas árvores, dura mansamente sem
palavras nem coisas, sem tempo para
aguardar as mãos do caçador e as redes
mornas respirando sobre a água: aquilo
que amaste perdura.
António Franco Alexandre







quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Judas

Calvário, de Grão Vasco
Óleo sobre madeira — 1535-1540
Museu Grão Vasco, Viseu

Este quadro magnificente é a obra maior de Grão Vasco. Mesmo que seja só para o ver, vale a pena visitar Viseu e o seu museu.

Nas horas e horas de contemplação que levo deste quadro, é em Judas, na sua silhueta, que acabo por focar sempre o olhar, naqueles trinta dinheiros pendurados, a oscilar ao vento, de onde se evola um espectro.

É mesmo isto que Grão Vasco quis, que nos fixemos em Judas, o trágico Judas, o espectral Judas a cumprir o seu destino até ao final dos tempos.

 Judas teve que seguir o guião que Cristo lhe predestinou, e só depois de lhe ter dado o beijo que O entregou, quando tudo o que era importante já estava consumado, é que Judas pôde recuperar o livre arbítrio e então, e só então, abjurar o que tinha feito, pendurando-se numa figueira.

 Desde então, Judas, o menos livre de todos os homens, passou a ser sinónimo da ignomínia da traição.




Neste episódio, Bob Dylan é apupado. Acontecia muito naquela altura em que muitos dos seus fãs, adeptos do cânone acústico do folk, se sentiam atraiçoados por ele ter começado a usar guitarras eléctricas.  

Durante a pausa entre duas canções, alguém da audiência grita alto: "Judas!" e Bob Dylan responde-lhe: "I don't believe you, you're a liar", e diz à banda "Play it fucking loud!" enquanto iniciava "Like a Rolling Stone".


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Le jardin

Fotografia de Henri Cartier-Bresson



Des milliers et des milliers d'années
Ne saurait suffire
Pour dire
La petite seconde d'éternité
Où tu m'as embrassé
Où je t'ai embrassée
Un matin dans la lumière de l'hiver
Au parc Montsouris à Paris
À Paris
Sur la terre
La terre qui est un astre
Jacques Prévert


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Síndrome de Tourette de esquerda

Fotografia de Rodrigo Cabrita
Lisboa, Junho de 2005, manif de extrema-direita


Palavrão

Não, não se fala mal
português em portugal
não se diz caralho
a torto e a direito
ou vai sempre a direito
ou só se diz quando
a coisa dá para o torto
não, não se fala mal
o português no Porto
e se um filho da puta
chama a um lisboeta
cabrão
é porque os dois o são
e por isso não é palavrão
não, não se fala mal
português em portugal
e se alguém só pensa
não diz que se foda
é porque você ouviu mal
Joaquim Castro Caldas




domingo, 25 de setembro de 2016

Uvas




Se amanhã, cedinho, nos metermos ao caminho,
poderemos encontrar nessas colinas, no meio das vinhas,
uma rapariga de pele morena, tisnada pelo sol,
e, talvez, metendo conversa, comer-lhe algumas uvas.
Cesare Pavese


sábado, 24 de setembro de 2016

Fire and ice*


Mapa completo do Inferno, Stradanus (1523 - 1605)


Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.
Robert Frost




* Wiki:
“Fire and Ice” is one of Robert Frost's most popular poems, published in December 1920 in Harper's Magazine


According to one of Frost's biographers, "Fire and Ice" was inspired by a passage in Canto 32 of Dante's Inferno, in which the worst offenders of hell, the traitors, are submerged, while in a fiery hell, up to their necks in ice: "a lake so bound with ice, / It did not look like water, but like a glass ... right clear / I saw, where sinners are preserved in ice."



In an anecdote he recounted in 1960 in a "Science and the Arts" presentation, prominent astronomer Harlow Shapley claims to have inspired "Fire and Ice".

Shapley describes an encounter he had with Robert Frost a year before the poem was published in which Frost, noting that Shapley was the astronomer of his day, asks him how the world will end. Shapley responded that either the sun will explode and incinerate the Earth, or the Earth will somehow escape this fate only to end up slowly freezing in deep space. 
Shapley was surprised at seeing "Fire and Ice" in print a year later, and referred to it as an example of how science can influence the creation of art, or clarify its meaning.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Mudar de pele*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A geringonça está a mudar a pele do PS e isso causa desorientação e confusão no partido do governo.

No último fim-de-semana, em Coimbra, uma sala de socialistas perdeu a vergonha, como lhe solicitou Mariana Mortágua, e aplaudiu o ataque da deputada bloquista a quem “acumula dinheiro”. Hoje, na universidade de verão do PS-Lisboa, será a vez de botar faladura José Sócrates, esse desacumulador do dinheiro “vivo” proveniente de Carlos Santos Silva. Dinheiro “vivo” porque, como explicou um advogado de defesa de José Sócrates, “se calhar, não confia no sistema bancário”.

Já só falta o PS promover uma conferência de Armando Vara intitulada: “A CGD e a confiança no sistema bancário".


2. Eis as “fases” vividas pelas autarquias do distrito de Viseu no mandato 2013-2017:

Fotografia editada a partir daqui
(i) “fase da pesada e da leve herança”: foi a determinação estóica de Leonel Gouveia a recuperar da falência o município de Santa Comba Dão e foram os 25 milhões de euros deixados por Fernando Ruas a António Almeida Henriques que tanto têm feito pela amizade entre ambos;

(ii) “fase da metapolítica”: foi a logomaquia paralítica dos conselhos de estratégia, de igualdade, de juventude, e afins, e foi a estreia dos orçamentos participativos; não houve ainda referendos locais, lá chegará o tempo;

(iii) “fase do colapso”: já foram tratadas aqui as maldades e os sarilhos em Nelas e em Lamego; o colapso, na câmara de Viseu, primeiro da oposição centrista e depois da oposição socialista talvez mereça autópsia em futuro texto;

(iv) “fase do nervoso miudinho”: começa agora e irá em crescendo até ao dia das eleições; maiores dores-de-cabeça dos líderes distritais: o social-democrata Pedro Alves vai ter pesadelos terríveis com Lamego e o socialista António Borges, insónias com o periclitante presidente que pôs à frente da “sua” Resende.

História do homem que perdeu a alma num café

Daqui


Como de costume, José Augusto vai até ao café depois de sair do trabalho. Bebe uma ou duas cervejas. Vá lá, três. Até aqui, tudo bem. Pega no jornal e passa os olhos pelas gordas. Nada de particularmente importante. Depois, levanta-se e, de mãos nos bolsos, volta para casa a assobiar.

Em casa, repara que se esqueceu da alma no café. José Augusto fica aborrecido porque já tinha calçado as pantufas e porque a mulher lhe enche os ouvidos com censuras. A mulher está convencida de que a alma esquecida no café não passa de um pretexto para ele passar a noite fora a beber cerveja e até, quem sabe, a envolver-se noutras coisas.

De qualquer maneira, José Augusto volta ao café. Procura a alma na mesa onde estivera a beber. Mas a mesa e as cadeiras estão vazias. Os empregados dizem que se a alma tivesse ficado ali esquecida, eles teriam reparado. Afinal de contas, não é fácil uma alma passar despercebida. Seja como for, não deixam de lhe notar que nos tempos que correm não se pode confiar em ninguém e que é possível que outro cliente a tenha levado com segundas intenções.

José Augusto resigna-se à sua sorte e, com grande abundância de suspiros e ais, regressa a casa sem a alma. E embora fosse natural e até aconselhável, decide não apresentar queixa às autoridades.

Isto já se passou há bastante tempo. Mas ainda hoje José Augusto sente uma dor muito fina no local onde deveria estar a alma. Em especial durante a época de caça ao faisão. Ou será à perdiz? Não, é ao faisão.
Rui Manuel Amaral




quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Súmula

Fotografia Olho de Gato

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

— Era uma casa - como direi? - absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.




As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.
Herberto Helder