terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Boo, Forever

Daqui



Spinning like a ghost
on the bottom of a
top,
I'm haunted by all
the space that I
will live without
you.
Richard Brautigan


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Por este rio acima

Rio Douro
Gif Olho de Gato


Continuando nosso caminho por este rio acima, tudo quanto a vista alcançava era embarcações com toldos de seda e muitos estandartes, guiões e bandeiras e varandas pintadas de diversas pinturas. 

Ali se trocam e oferecem todas as sortes de caças e carnes quantas se criam na terra, que nós andávamos como pasmados como requeria tão espantosa e quase incrível maravilha. Noutras embarcações vêm grande soma de amas para crianças enjeitadas e outras, pelo tempo que cada um quiser, mulheres velhas que servem de parteiras dando mezinhas para botarem crianças, e fazerem parir ou não parir. 

Noutros barcos há homens honrados que servem de correctores de casamentos e consolam mulheres enlutadas por morte de maridos e filhos e outras coisas desta maneira. Em barcaças de muitas cores, com invenções de muitos perfumes e cheiros muito suaves vêm homens e mulheres tangendo em vários instrumentos para darem música a quem os quiser ouvir. 

Na terra do labirinto das trinta e duas leis, nesta terra toda lavrada de rios, a China, há uma tamanha observância da justiça e um governo tão igual e tão excelente, que todas as outras, por mais grandiosas que sejam, ficam escuras e sem lustro.
Fernão Mendes Pinto
Peregrinação



domingo, 4 de dezembro de 2016

Bolas novas

Uma lei da vida: bolas novas ocupam o lugar das bolas velhas.
Fotografia Olho de Gato


O barco vai de saída

Fotografia Olho de Gato



Me socedeo hum caso que me pos a vida em tanto risco, que para a poder saluar me foy forçado sairme naquella mesma ora de casa, fugindo cõ a mayor pressa que pude, & indo eu assi tão desatinado co grande medo que leuaua, que não sabia por onde hia, como quẽ vira a morte diãte dos olhos, & a cada passo cuidaua que a tinha comigo, fuy ter ao cayz da pedra onde achey hũa carauella d'Alfama, que hia com cauallos & fato de hum fidalgo para Setuual, onde naquelle tempo estaua el Rey dõ Ioão o terceiro que santa gloria aja cõ toda a corte, por causa da peste que então auia em muytos lugares do Reyno: nesta carauella me embarquei eu, & ella se partio logo, & ao outro dia pella menhã sendo nos tãto auante como Cezimbra nos cometeo hum Frances cossairo, & abalroando com nosco, nos lãçou dentro quinze ou vinte homẽs, os quais sem resistencia, nẽ contradição dos nossos, se senhorearão do nauio, & despois que odespojarão de tudo quãto acharão nelle, que valia mais de seis mil cruzados, o meterão no fundo, & dezasete que escapamos cõ vida, atados de pès & de mãos nos meterão no seu nauio, cõ fundamento de nos leuarem a vender a Larache, para onde se dizia que hião carregados de armas que de veniaga leuauão aos Mouros.
Fernão Mendes Pinto
Peregrinação



sábado, 3 de dezembro de 2016

Volta até mim no silêncio da noite

Daqui


Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré cheia da manhã com que
todos os náufragos sonharam.
Nuno Júdice

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Idadismo*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Edviges Antunes Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português, acaba de ter os seus cinco minutos de fama, ao declarar à Lusa que aceitava uma “revisão ligeira” (sic) do Acordo Ortográfico.

A stora avisa logo que não quer o regresso das consoantes mudas porque, para os alunos, “é muito mais simples escrever conforme falamos do que estarem a perceber ou a decorar, principalmente depois de ter abolido e estar a escrever de uma determinada forma, estar a voltar atrás” (sic). Tentemos perceber esta ideia enrodilhada — a stora quer que os alunos espetem “espetadores” nas frases porque agora seria difícil a eles, que são novos, “voltar atrás”.

Logo a seguir, Edviges derrama: “o nível etário das pessoas é bastante elevado, em média, o que significa que há sempre aquelas vozes, que são os ‘Velhos do Restelo’, que tudo que seja mudança, não a vêem com bons olhos” (sic). Esta “sociologia” da stora tem também, infelizmente, problemas de gramática e de lógica. Tentemos desnevoar a coisa: a mulher acha que os velhadas são mais que muitos e uns imobilistas.

Conclusão: os novos “veem com bons olhos” o espetanço de “espetadores” ou o lúbrico “arquitetas” nas frases, porque foi assim que os acordistas os ensinaram, e eles não podem mudar; já os “velhos do Restelo” que “vÊem com bons olhos” espeCtadores e arquiteCtas nas frases, porque foi assim que lhes ensinaram, são uns atrasos de vida.

2. “Velho-do-Restelo” e “peste-grisalha” são anátemas etários muito usados.


Daqui
É conhecido o infame caso do deputado Carlos Peixoto, do PSD, que chamou “peste grisalha” aos reformados e, depois, exigiu uma indemnização em tribunal por ter sido criticado por isso num jornal.

Já “idadista” é coisa nova. Durante a discussão do orçamento, quem se atreveu nas redes sociais a criticar Mariana Mortágua, para além do trivial carimbo de “machista”, levou também com o de “idadista”.

“Idadismo” equivale, em bloquês, ao direitolas “peste grisalha”.

Los sofistas

Fotografia de Bruce Davidson


La sinfónica nada:
ensayos leves sobre la idea del placer.
Datos del texto en las estrías de la arena,
la "mano de dios" apoyada
sobre este futuro.
Poetas, alienados, dictadores,
antiguos amigos con sus botellas,
jamás dejan de reír su pena
en ocasión de la penumbra.
Los sofistas sabían
que la verdad era una cuestión de poder,
no de filosofía.
Cristian Aliaga




quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A Hipocrisia é repugnante* — um texto de JB

A Hipocrisia é repugnante.

A Hipocrisia é repugnante. A Hipocrisia na política é um vómito.

Manter o “estratagema do extraordinário (e a norma travão com retoques) na vinculação dos contratados aos quais se exigem 20 (VINTE!) anos se serviço, continuando as condições a ser mais do que discutíveis. A proposta do MEC para os concursos de 2017 já anda por aí (proposta-mec-concursos-2017) e a portaria anunciada tem alguma porcaria pelo meio, como aumentar o número de 6 para 8 horas para um docente não ficar em horário-zero.” — Paulo Guinote.
Palavras acertadas. Mudam as pessoas mas a linha condutora, o fio ideológico, o traço de atacar o professores é comum.

Editado a partir daqui
Um governo de “esquerda” ter a ousadia de apresentar um aumento para 8 horas para um docente não ficar em horário-zero? Inimaginável!
Um governo de “esquerda” amaciar a norma travão? Inimaginável!
Um governo de “esquerda” manter o execrável horário ao minuto? Inimaginável!
Um governo de “esquerda” não mexer na gestão, carreiras e… ...

In dreams… “Go to sleep, everything is alright”,  já cantava o Roy Orbison.






Honestamente a frase de Don Fabrizio, príncipe de Salina – “É preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma”, no romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa – “O Leopardo”, tem sido muito ajustada para caracterizar o sistema educativo, na última década.

Os professores não mereciam continuar a receber humilhações, disparates e parvoíces. É triste, redutor e cansativo. E pouco sério.
Não mereciam!
JB

Príncipe no roseiral

Fotografia de Jean Dieuzaide


Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os noctívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.
Matilde Campilho

Também ando a aspirina — texto de JB*

* Comentário de JB ao post "Num monumento à aspirina":

Este post tem “pinta”, mas o gajo deve ser tótó. Poema à Aspirina??

Também ando a Aspirina…. Apanhei uma constipação, pois estive na fila à espera para ver o concerto do Justin Bieber. Estive à chuva e ao frio, mas valeu a pena. O miúdo é o máximo e ouvir (e cantar) músicas como "Fuck you, you stupid bastard" ou o "I don´t know how to sing because I´am an imbecil"... deixam qualquer pessoa em delírio!
E ouvi dizer que houve gente que comprou um andar no Parque das Nações para estar logo ali à espera!!!

No regresso ouvi o último disco dos Underworld. Ainda não consegui foi entender a mensagem (terá mensagem?) do álbum: “Barbara Barbara, we face a shining future”. Será para mim?

Daqui


Na estação de serviço vi, na tv, o Marcelo a fazer xim xim com o ar!!! No more lonely nights, uma “gaja” para o Marcelo, já!

Where the fuck am I?
Bom, a azia é uma coisa tramada!
JB



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Num monumento à aspirina

Daqui



Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.
João Cabral de Melo Neto


terça-feira, 29 de novembro de 2016

Acordar na rua do mundo

Daqui



madrugada, passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme
da joalharia, os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam

o azul dos azulejos, assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou

e duma varanda um pingo cai
de um vaso salpicando o fato do bancário
Luiza Neto Jorge



Dance Me to the End of Love from dilek demirbas on Vimeo.