quarta-feira, 22 de março de 2017

A mais estreita linha

Fotografia de Ren Hang


Da terra não,
da terra não poderia falar,
apenas da estreita linha
em que o meu vestido passa
por demais perto do chão

dessa linha
um pouco suja
e tão mais do que eu real
onde o tecido arrasta
e guarda o rasto do passar

dessa leve coincidência
entre o que está
e o que passa
entre o que ondula
e o que estaca

entre uma coisa e outra
passa levíssima a aragem
e eu passo
e nada se abre nem fecha
nessa estrada

disso —
de um saber sem perguntar
— talvez um dia

nem da terra nem de mim
— dessa linha tão precisa
que imagino eu
há-de ter por nome
uma palavra como perto
Rosa Maria Martelo


terça-feira, 21 de março de 2017

Mujer de azul

Fotografia de Parker Day


Busco una mujer
entre todas ellas
capaz de ver belleza
en el grito de un naufragio,
la belleza
de las innumerables tragedias cotidianas
o del maullido moribundo
del gato del tejado.

Quiero que sea capaz de romper
el destino de un mordisco
de convertir el miedo en migajas
dibujar un mantel
y pegarse un festín.
Una mujer a la que le hagan cosquillas las religiones
que sepa desde siempre
que vamos a encontrarnos
pero que en lo único en lo que crea
sea en el azar.

Quiero que sea a la vez
un sueño y un recuerdo
que llegue con la sonrisa en punto
del mediodía
y con la alegría
imprecisa de un jilguero
-que sepa, como se sabe en los libros-
que el amor romántico es una mentira
sobre un castillo de naipes
-pero que intuya, como se intuye en los sueños-
que juntos podemos ser sencillamente felices.

Una mujer de viento y espada
de beso y hoguera
que cuanto mas la aten
mas se aleje
una mujer de hacha de guerra
de yesca y alumbre
que cure las heridas con sal.

Una mujer con la que todo se peleé
pero nada se rompa
que tras cada tropiezo
se gire en el aire y se ponga a bailar
que invente palancas
con las que mover los otoños
que su lengua sea un río de lava
y su saliva espuma de mar.

Una mujer cuyas piernas inspiren los dogmas
y sus pisadas los aplasten uno tras otro.

Una mujer cuyos labios fabriquen las nubes
y sus besos no paren de llover.

Una mujer cuyas manos sean de arcilla
y sus caricias de agua

o simplemente una mujer sencilla
tal vez, una mujer de azul.

Busco una mujer, para empezar,
— y esto es lo único innegociable —
que sea capaz de mirar de frente
estos versos
y no les tenga miedo.

Una mujer así o nada.

No pienso conformarme con menos.
Cysko Muñoz


segunda-feira, 20 de março de 2017

Pas de deux



A flor e o vento começam o seu pas-de-deux intemporal
Felizes um com o outro e sem sentirem a falta de nada
Enquanto o nosso mundo mortal embarca ainda e outra vez num novo dia
Kalikiano Kalei



Pas de deux, de Norman McClaren (1967), from National Film Board of Canada on Vimeo.


«Para mim, na verdade, num filme abstracto as formas mais agradáveis são aquelas que mais se aproximam da música.
Deve haver equivalência visual.»
Norman McLaren

domingo, 19 de março de 2017

Hasta los huesos — de René Castillo

Es la historia de un hombre y su llegada al mundo de los muertos, donde es recibido por un gusano, calacas sonrientes y la mismísima Catrina.

Poco a poco nuestro personaje descubre que, salvo algunos inconvenientes, estar muerto no es tan malo.



4'45" aos 7'40" — "La Llorona", por Eugenia León

O charme discreto da blogomania

Gif Olho de Gato


presa nesta aritmética
do dia-a-dia
consulto a estatística
como quem dedilha uma sonata
num teclado incerto
conheço todos os atalhos
que me levam às notas mais agudas
e entro e saio
abro e fecho páginas
para viciar o Stats for December:
faço contas plos dedos
impróprios
e aplico a prova dos nove
pra verificar o resultado
– que já sei
Ana Paula Inácio




sábado, 18 de março de 2017

Le Mépris (O Desprezo) - Jean-Luc Godard

Le Mépris (O Desprezo) - Jean-Luc Godard  (1963)


Le cinéma substitue à notre regard un monde qui s'accorde à nos désirs.
Le Mépris est l'histoire de ce monde.
André Bazin





"And Now For Something Completely Different" (#135)

American porn

Yayoi Kusama —  Infinity Mirror Rooms 


The first time I saw a woman in a porn with nipples as small as mine
          I thought: Thank god.

I must have been about 10 at the time because I remember trying to
dodge the babysitter and still tune the satellite TV to channels 85, 98, or 99
while always keeping one finger on the pre-programmed "Nickelodeon" button.
I lost my virginity to that flickering image and nearly muted sound.

I grew up in Van Nuys, California (the un-official porn capital of the United States)
So I had a vague notion of what to expect when, in 9th grade,
I brought home the first boy with a mowhawk.
As we sat with out backs up against the white picket fence in my front yard,
waiting for his mother to pick him up, he slipped two painted finger
up into someplace I didn't know I had. I thought:
          I know this. I've seen this before.

In 10th grade I smiled familiar at the stoner who went down on me for the first time,
(As the family dog looked on)
Smiled, because the view down my bare belly looked just like it did in the movies.
And in 11th grade, I knew all the right things to moan for the girl with the goldilocks
who bit like whiskey and broke me like promises.
We were crossing things off a list. Any beauty in this was accidental.
There was no magic. Only small favors.

The only conversation my mother and I ever had about masturbation
Occurred after she caught me in the act. It went like this:
          What the hell do you think you're doing? You look like a dog.
We never spoke of it again, but for the next 10 years I would run the shine
into this newly-minted shame, taking solace only in the porn,
at least I knew I wasn't the only one disappointing their mother.

So I watched.
I studied.
It was my addiction.
It was my permission.

I lost my virginity to American Porn.
Those naked cocks and tan lines, the thick-necked boys and breakable girls,
the absences of time, hesitation and lube, the forbidden ubiquity,
the empty passion, the adulthood shaved bare, but at least this sex, this
imitation of sex, when pounded from our bored, frightened bodies
smelled honest.

Honest?
I lost my virginity
On the 4th of July
In the back of a Chevy suburban
In parked traffic.

When it was all over I walked two blocks to the Marriot, locked myself
in a bathroom stall and stared down at the burning between my legs,
sure that I would see my aborted uterus floating in a pink bath,
Convinced he must have broken something.
I used some wet paper towel to cool down
the nothing that had apparently happened.

We slept that night in an empty parking lot next to where the boy scouts
were selling off the last of their fireworks. He kissed me on the mouth
so thick I choked on his gratitude. Coughed up my shame.
And that was like nothing I had ever seen before.
Emily Kagan Trenchard


sexta-feira, 17 de março de 2017

Tempos amáveis*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A prensa tipográfica com caracteres móveis foi inventada por Gutenberg em 1445 e em poucas décadas espalhou-se pela Europa.

No poderoso império otomano é que aquela modernice não entrou. Em 1485, o sultão Bayezid II proibiu a impressão, proibição só levantada em 1727 quando Ahmed III autorizou Ibrahim Müteferrika a montar uma prensa, mas tudo sujeito ao assentimento prévio de três estudiosos da religião, os cádis. A família Müteferrika, em setenta anos, só foi autorizada a imprimir vinte e quatro livros e acabou por desistir do negócio.

O medo das elites de que o saber e o novo possam pôr em causa o seu poder sempre foi uma desgraça para os povos. Tayyip Erdoğan não tem feito menos mal ao conhecimento turco do que fizeram os sultões otomanos. Desde 15 de Julho, o autocrata já fechou mais de duas mil escolas e universidades, demitiu 7316 académicos, fechou 149 órgãos de comunicação social e prendeu 162 jornalistas.

Erdoğan tentou fazer comícios na Holanda. Com isso, o “sultão” turco quis beneficiar o islamófobo e putinista Geert Wilders. A ajuizar pelas sondagens, pode ter-lhe saído o tiro pela culatra. Oxalá!

2. Vivem-se tempos amáveis e distendidos no Portugal político. Até a crispação dos rebanhos partidários nas redes sociais anda mais branda.

A geringonça lá vai cumprindo com brio o seu “não-há-vida-para-além-do-défice”. Depois de, em 2009 e 2010, termos tido dois buracos sucessivos de uns loucos vinte mil milhões de euros, o país tem vindo a diminuir o défice público ano após ano. Em 2016, ficou abaixo dos quatro mil milhões de euros. Há que continuar este esforço.

A seguir ao “para-além-da-troika” de Passos, temos agora o “para-além-do-tratado-orçamental” de Costa. 


Daqui
O sr. Moscovici e o sr. Dijsselbloem estão contentes com as cativações de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. E assistem, com bonomia, à retórica anti-europeia, para consumo interno, das lideranças bloquistas e comunistas .

Digo rostro de arena

Fotografia de Robert Doisneau


Digo rostro de arena
y digo labios
y párpados de arena.
Digo dolor de arena
y digo manos
y caricias
de amor, de arena.
Y digo viento.
Dulce Chacón


quinta-feira, 16 de março de 2017

Cantar na rua*

*Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 16 de Março de 2007


1. Na sexta-feira passada, na Antena 1, no programa do Provedor do Ouvinte, foi lida uma carta a “dar nas orelhas” de Ana Sá Lopes. Pelos modos, num programa de debate político, aquela jornalista disse que: «A Câmara de Lisboa não tem dinheiro nem para mandar cantar um cego». Um ouvinte da RDP não gostou. A sua fúria nada teve a ver com a secura dos cofres do município lisboeta (inevitável depois dos anos Santana / Carmona). O ouvinte não gostou foi da parte do “nem para mandar cantar um cego” e fê-lo saber numa prosa violenta.

O problema deve ter ficado resolvido já que, para “não bater mais no ceguinho”, Ana Sá Lopes acabou por pedir desculpa ao reclamante.

Foi pena. Os aforismos populares são “politicamente incorrectos”. Metem “sal” na linguagem. Esse “sal” é bom mesmo que cause “hipertensão” a algumas almas mais sensíveis.




2. Rosa Francelina Dias Martins ficou cega aos 4 anos, começou a pedir aos 9, a vender lotaria aos 21 e a cantar na rua aos 30. No Verão de 1999 foi descoberta por Andrea Heller, produtor de World Music, tendo cantado em toda a Europa e editado um CD chamado “Dona Rosa”. O CD inclui um muito instrutivo texto de Nuno Pacheco sobre a tradição dos “cegos andantes” ou “cegos papelistas” (assim eram conhecidos no século XIX).

No Natal de 2002, Dona Rosa queixou-se dos altifalantes que Santana Lopes semeara nesse ano pela baixa de Lisboa. Dona Rosa ficou cheia de dores de cabeça e de garganta. «Como se não bastasse o frio e o vento, ainda tive de levar com a música concorrente» - desabafou ela ao Expresso.




Como se vê, Ana Sá Lopes não devia ter abjurado a sua ideia. Ela tinha intuído bem. Há bastante tempo que a Câmara de Lisboa não se dá bem com o cantar dos cegos.

A bela do bairro

Red Light District — Amsterdam 


Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque

ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor
Fernando Assis Pacheco