sexta-feira, 5 de junho de 2015

Terror na auto-estrada*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Fotografia Olho de Gato

1. Desde que o fisco se substitui aos concessionários na cobrança das portagens, passámos a ter verdadeiras histórias de terror. Lembro duas lidas no Jornal do Centro:

— uma senhora de S. Pedro do Sul recebeu uma intimação para pagar umas passagens debaixo de pórticos da A25. Já as tinha pago mas, se tivesse deitado fora os comprovativos do pagamento feito nos correios, tinha dissabores;

— um empresário do Sátão recebeu, num só dia, oitocentas cartas das finanças, referentes a portagens. O homem precisou de um saco para as acartar. Oitocentas cartas ridículas. Ridículas como Fernando Pessoa disse de todas as cartas de amor. Ridículas cartas do amor desmedido dos nossos governos pelos rentistas das auto-estradas.

Um azar, um recibo deitado ao lixo, uma via verde avariada, uma notificação perdida, e o “fascismo fiscal” em que vivemos penhora-nos o salário ou a pensão ou a casa. 

O sr. Paulo Campos, o homem que instalou a ladroagem dos pórticos, é um Rutger Hauer, o vilão do excelente filme que correu em Portugal com o mesmo título desta crónica.


2. António Almeida Henriques está entusiasmado por António-Pedro Vasconcelos vir filmar em Viseu. Na sua crónica desta semana no Correio da Manhã, o presidente da câmara escreveu que esta rodagem faz “contracorrente” ao “centralismo” e aos “custos (e as loucuras) da 'capitalidade'”.

Ora, esta “contracorrente” de filmagens em Viseu já é antiga. Lembro “Amor de Perdição” de Manoel de Oliveira, “Aqui na Terra” de João Botelho, um filme austríaco com acção na segunda guerra mundial, a telenovela “Remédio Santo”, ...

Pena foi, há quarenta e cinco anos, Viseu ter perdido a filmagem de Tristana, a obra-prima de Luis Buñuel. O mestre considerou essa hipótese mas acabou por ir para Toledo.

Espera-se que, agora, esta “contracorrente” da câmara de Viseu — que tanto entusiasma o seu presidente — não vire uma “conta-corrente” a imitar, e cito-o: “os custos (e as loucuras) da 'capitalidade'”.

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