quarta-feira, 23 de agosto de 2017

terça-feira, 22 de agosto de 2017

El doble

Pintura de Suyeon Na



Hay un problema entre nosotros: tú
sonríes a los gatos por la calle,
mientras yo cruzo los dedos y les temo
su memoria salvaje.

Pasan rostros anónimos y tú
les vas poniendo nombres y señales,
yo en cambio me descuido entre las nubes
y silbo si me place.

Hay un problema entre nosotros: tú
vives dentro de mí y eso es muy grave.
Alberto Vega


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Amor à paisana




suba e desça uma paisagem inteira
componha versos à beira d'água
mergulhe cinzas num balde de
almas

enlouqueça as ideias mais estáveis

e
antes de descansar
meça a intensidade
do rosto que ficou
e da força que te puxa
para o centro do mundo
Dora Ribeiro


sábado, 19 de agosto de 2017

Pussy*

* Parte II — sequela deste post de há uma semana



I wanna see your pussy - everybody says it's nice
Can I come and visit - I'll be at your house tonight
They tell me it's soft to touch and really smooth
I can hardly wait to feel that pussy too
You wanna play with pussy all the time
To hide that kinda pussy is a crime
You say your pussy's clever and so slick
But I think that your pussy's kinda sick

I wanna bet your pussy ain't as pretty as mine
I don't hide my pussy like you do all the time
My pussy's just the sweetest thing that you've ever seen
Compared to mine your pussy's really ugly and mean
I bring my pussy everywhere I go
To watch my little pussy is a show
You say your pussy's clever and so slick
But I think that your pussy's really thick
She turns into a tiger when she's ready to eat
My pussy's always hungry for a big chunk of meat
So lay your little pussy right next to mine
You can bring her over round dinnertime
My pussy is the hippest thing around
She's always been the talk of the town
You say your pussy's clever and so slick
But I think that your pussy's mighty thick (miauw, baby)

I wanna see your pussy show it to me
Let me see your pussy show it to me
Show me your pussy show it to me
I wanna pet your pussy show it to me

Lords Of Acid  
Jade 4 U (Nikkie van Lierop), Oliver Adams 
& Praga Khan (Joseph Francois Engelen)




"And Now For Something Completely Different" (#157)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

As listas*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Já são conhecidos todos os candidatos à presidência das câmaras municipais do distrito de Viseu: oitenta homens e doze mulheres vão dar a cara por oito partidos e cinco movimentos independentes.

Só há dois partidos a concorrerem a todos os vinte e quatro municípios — o PSD e a CDU. O PS falha este pleno: não concorre em S. João da Pesqueira e no Sátão.

Na luta surda entre os dois partidos mais à esquerda da geringonça, a CDU impressionou com as suas vinte e quatro candidaturas, enquanto o Bloco surpreendeu pela negativa, ao concorrer só em Viseu e Lamego.

Há quatro concelhos que vão ter de certeza novos presidentes da câmara, já que os que estão em exercício não vão a votos: em Lamego, Oliveira de Frades e Sátão, por limite de mandatos dos titulares, e em S. João da Pesqueira porque o actual presidente não concorre.

Como os eleitorados costumam reconduzir os candidatos incumbentes, na noite de 1 de Outubro haverá no máximo meia dúzia de caras novas.

2. As câmaras estão cada vez mais nas mãos dos presidentes, que resistem até a uma maioria hostil de vereadores, como se viu nos últimos anos em Lamego e Nelas.

Esse poder dos presidentes vê-se também na feitura das listas — eles vão buscar quem querem para a vereação sem ligarem peva aos seus partidos.

O caso da inclusão de Jorge Sobrado na lista de Almeida Henriques ilustra bem esta ideia. O mesmo aconteceu em Tondela: José António Jesus convidou Miguel Torres, um homem de esquerda, pela sua competência na área da cultura, e esteve-se nas tintas para os laranjinhas locais.

3. O “dinossauro” da câmara do Sátão, Alexandre Vaz, aproveitou uma imperfeição da lei da limitação de mandatos para se encaixar na lista. Como não pode ser o número um, vai como número dois.

Esta alapação...
... diz tudo de quem a faz e deixa à mostra a falta de princípios de quem a deixa fazer. É uma vergonha, Pedro Alves. É uma vergonha, Pedro Passos Coelho.

Lição de política




Eles olham para a direita e ... pisca, pisca...
Eles olham para a esquerda e ... pisca, pisca...


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Coisas boas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Agosto de 2007


1. “Aquecimento global”? Nada disso! Este Verão é mais “arrefecimento global”. Vêm dois dias de calor e, logo a seguir, vêm quatro frescos. Verão bom! As casas de persianas para cima. Sem abafação. Sem incêndios, nem sirenes de bombeiros. Pelo menos até agora…

2. É bom ver a ecopista cheia de pessoas, em grupo ou sozinhas. A pedalarem em bicicletas high-tech ou em pasteleiras. 
Daqui

Em marcha acelerada ou a passear. De ténis ou de chanatos. De patins em linha, à procura da linha. De cá para lá, de lá para cá. A fazerem quilómetros. Bom, bom, as pessoas a dizerem «Olá!» e «Boa noite!» aos conhecidos. E aos desconhecidos.


3. Bom é o comboio turístico às voltas em Viseu. Podia ter uma pintura mais bonita, lá isso podia. Não importa. Caiu no goto. Anda sempre cheio. De miúdos e graúdos. A olharem para a cidade um olhar amável.

4. Muita gente, no centro histórico, nas Noites Brancas organizadas pela Associação Comercial. E nas outras noites também.

Foi bom ver os comerciantes a rasparem a ferrugem das rotinas: em vez de carpirem contra, a fazerem por.

5. Bom é termos gasóleo a 99 cêntimos. Ainda há dois meses era tudo pela tabela máxima. Finalmente há alguma concorrência. É precisa mais. Quando abrem as bombas do Retail Park?

6. É bom andar nas “nossas” auto-estradas. Para norte, na A24. Para este ou para a oeste, na A25.

Quanto à estrada para o sul, para Coimbra, é melhor não dizer nada. Este Olho de Gato é só para falar de coisas boas.

Biombos indiscretos

Daqui


Dunas, são como divãs,
Biombos indiscretos de alcatrão sujo
Rasgados por cactos e hortelãs


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Daily Mail



Quem lê este pasquim só pode usar velcro nos sapatos, pois não tem capacidade mental para para dar um nó aos atacadores.
Amanda Palmer

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Laurindinha

Fotografia Olho de Gato


Laurindinha já não sai
perdeu a voz, entristeceu
Rio acima nunca mais
nem arraiais lá em Viseu


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Cosas que me sacan de quicio

Daqui



Que en el supermercado sea yo la única
que se ponga guantes para coger los tomates
y la fruta.
Las espabiladas que intentan colarse.
Que el gilipollas de turno me pregunte si me ha gustado.
Tener que depilarme las axilas.
Ir a ducharme y que no haya agua.
Haberlo organizado todo y que mi jefe
me desbarate los planes en un minuto.
Que algún imbécil me suelte lo de lo nuestro
no puede ser porque eres mucha mujer para
mí y tú te mereces algo mejor.
La regla (cuando viene).
La regla (cuando no viene).
Estar continuamente a dieta y que ni se note.
Los pelos en la bañera.
Los pelos en la cama.
Los pelos.
Seguir viviendo con mis padres.
Que un tío en la discoteca me pregunte la edad que tengo.
La cara que pone cuando se la digo.
Quemarme la lengua con el café.
El pestazo a tabaco en la ropa.
La resaca de los domingos por la mañana.
No acordarme de nada de lo que hice la noche anterior.
La talla de mis pantalones
Que todavía me salgan granos.
Mirarme al espejo y preguntarme para qué coño voy al gimnasio.
Salir siempre en las fotos con los ojos cerrados.
Estas tetazas que tengo.
Que los novios de mis amigas me las miren cuando ellas van al servicio.
Mi nombre.
Los cereales con fibra.
Los cereales bajos en calorías.
Que mi madre me repita cada dos por tres que, como me descuide,
se me va a pasar el arroz.
Saber que encima tiene razón.
Las oposiciones.
Los anuncios de cremas contra la celulitis.
Cumplir años.
Ser incapaz de dejar de echar de menos al cabrón de Miguel.
José María Cumbreño




domingo, 13 de agosto de 2017

O poema

Fotografia de Terry Richardson

As árvores têm o nome de árvores
e a pedra é pedra. Mas a mulher é árvore
e no pátio um sopro: uma lagartixa sem nome.
A mão desliza nos caminhos minúsculos.
A caneta escreve com a saliva das lâmpadas.
Alegria do sono numa virilha obscura.
Alguém escreve na erva e a erva é a sua camisa.
Tudo se traduz: músculos, nervos, papéis.
Come-se a epiderme frágil de um fantasma.
Quem ouve agora a voz cheia de areia?
As palavras agitam-se entre silhuetas esguias.
Dedos acariciam pedras e folhas, ventres.
Fibras e tendões produzem suor e tinta.
O alento das árvores invade os pequenos vocábulos.
Sem língua e sem dedos o poema caminha
num verde corredor para um arbusto de água.
António Ramos Rosa


sábado, 12 de agosto de 2017

Os decibéis da Feira de S. Mateus

Daqui


Depois de já ter estado no Carmo'81, Vasco Ribeiro Casais regressou a Viseu ontem e subiu ao palco grande da Feira de S. Mateus para um concerto "fora de catálogo" (pelo menos, não o tinha visto noticiado e ele disse que tinha sido convidado já esta semana).





Foi interessante a transgeracionalidade e a mistura tecnológica do que foi dado a "ouver". O problema é que ver os vídeos era bom e engraçado, mas era impossível de ouvir durante muito tempo. O som estava tão alto que causava incómodo físico.

Espera-se que haja juízo nos próximos concertos.

Caro Jorge Sobrado, não deixe que os decibéis estraguem o bom trabalho que está a fazer na Feira de S. Mateus, não contribua para a surdez geral dos viseenses.

"And Now For Something Completely Different" (#156)

«expectation leads to disappointment
if we don't expect something big, huge, and exciting
usually»


My girl's pussy

Daqui


There's one pet I like to pet, and every evening we get set.
I stroke it every chance I get, it's my girl's pussy.
Seldom plays and never purrs, and I love the thoughts it stirs.
But I don't mind because it's hers, it's my girl's pussy.
Often it goes out at night, returns at break of dawn.
No matter what the weather's like, it's always nice and warm.
It's never dirty, always clean. In giving thrills, never mean.
But it's the best I've ever seen, it's my girl's pussy.

There's one pet I like to pet, and every evening we get wet.
I stroke it every chance I get, it's my girl's pussy.
Seldom plays, never purrs, and I love thoughts it stirs.
But I don't mind because it's hers, it's my girl's pussy.
So often it goes out at night, and returns at break of dawn, break of dawn.
No matter what the weather's like, it's always dry and warm.
I bring tidbits that it loves, we spoon like two turtledoves.
I take care to remove my gloves, when stroking my girl's pussy.
Harry Roy

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Espírito artesanal*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Mark Mitchell precisou de sete mil horas para retirar a rocha que envolvia o fóssil de 110 milhões de anos de um nodossauro. Este técnico do museu Royal Tyrrell, depois de um trabalho meticuloso, deixou à mostra um herbívoro impressionante, de cinco metros e meio de comprimento, extremamente bem conservado.

Credit: Courtesy of the Royal Tyrrell Museum of Palaeontology,
Drumheller, Canada
Este fóssil, achado numa mina de Alberta, e depois intervencionado no museu de paleontologia daquela província canadiana, tinha até pigmentos da pele e das escamas. O título da notícia da New Atlas — “Fóssil de dinossauro 'a dormir' tão bem preservado que ainda tem pele e escamas” — diz tudo acerca da qualidade daquela “estátua” que vai ser uma estrela daquele museu.

Esta espécie de dinossauro não era conhecida e foi baptizada de Borealopelta markmitchelli em homenagem à dedicação e ao trabalho incansável de Mark Mitchel.

Há aqui uma linha de tempo verdadeiramente excepcional — a uma fossilização hiper-rápida do animal, seguiram-se milhões e milhões de anos de sossego tectónico que o deixou intacto. Depois, a intervenção humana foi, toda ela, virtuosa: em 2011, um operador de máquinas consciencioso sabia o que andava a fazer no fundo de uma mina, e, a seguir, um competente Mark Mitchell dedicou cinco anos e meio da sua vida a este trabalho.

2. Como explica Richard Sennett, em “A Cultura do Novo Capitalismo”, só há uma maneira de tentar resistir ao “espectro da inutilidade” decorrente da gestão mundial da mão-de-obra, do envelhecimento e da automação: é através do “espírito artesanal”, é através do singelo e tão humano “fazer as coisas bem feitas pelo prazer de fazer as coisas bem feitas.”

Nunca nenhum robô fará o trabalho de Mark Mitchell, ou, para dar um exemplo local, nunca nenhum robô fará algo como o magnífico tapete perfumado que Rosi Avelar e Maria João Castro instalaram nos Jardins Efémeros deste ano.

Aperrear



Serás rainha
Serás cruel, talvez
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre mais feliz



Fiquei sabendo da música pela leitura de posts de mulheres no Facebook – posts, vejam vocês, de mulheres reclamando da letra da canção.
Acho que foi a primeira vez na vida que vi mulheres fazendo restrições a Chico Buarque.
(...)
Como falar mal de Chico é tabu, muitas mulheres empoderadas estão vivendo um dilema difícil de resolver, porque engolir a letra de “Tua cantiga” é de lascar.
E haja malabarismo retórico para continuar idolatrando Chico, apesar dele mesmo: “Eu queria gostar. Eu tentei. Não deu”, escreveu uma mulher no Facebook. 

Luciano Trigo,


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor



I
Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.
Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.


II
Tacteio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.
Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.
Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.
(...)
Hilda Hist




quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Male anxieties

Warning:
hearing that homemade instrument is 
«the musical equivalent of a prostate examination»



terça-feira, 8 de agosto de 2017

Remember

Pintura de Nat Meade 


Remember me when I am gone away,
Gone far away into the silent land;
When you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
You tell me of our future that you plann'd:
Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
And afterwards remember, do not grieve:
For if the darkness and corruption leave
A vestige of the thoughts that once I had,
Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.
Christina Rossetti


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Bebe-a

À Beira do Abismo — The Big Sleep, Howard Hawks (1946)


Diz coisas lindas à tua amada, assim como:
“Tens um corpo de relógio de areia
e a alma como um filme de Hawks”.
Diz-lho baixinho, chegando-lhe os lábios
ao ouvido sem que ninguém
possa ouvir o que lhe digas
(a saber, que suas pernas são foguetes
dirigidos ao centro da terra,
ou que os seis são morada
de um caranguejo marinho, ou que
as suas costas são assim como prata viva).
E quando ela acreditar
e começar a derreter-se nos teus braços
não hesites nem um segundo:
bebe-a.
Luis Alberto de Cuenca


sábado, 5 de agosto de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#155)









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Adenda em 6.8.2017
Sugestões de amigos no FB:



Parte poética

Fotografia de Sally Gall

Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.
José Miguel Silva


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Autárquicas 2017 (#4)*

* Hoje no Jornal do Centro


1. As autárquicas, coitadas, chatinhas como nunca, estão agora nas afinações finais das listas.

A nível nacional não vai acontecer nada de especial. A eventual queda de Pedro Passos Coelho não faz ninguém interromper o bronze. Depois vê-se. De qualquer forma, mesmo que o ex-primeiro-ministro caia, Luís Montenegro será uma pedra pontiaguda no caminho que Rui Rio julgava fácil, e tratará de continuar o passismo sem Passos.

2. Em Setembro do ano passado escrevi aqui o seguinte: “o social-democrata Pedro Alves vai ter pesadelos terríveis com Lamego e o socialista António Borges, insónias com o periclitante presidente que pôs à frente da 'sua' Resende.” Passaram dez longos meses, muita água correu debaixo das pontes do rio Douro, pontes corrupiadas para cá e para lá pelos insones líderes distritais do PSD e do PS.

Um responsável laranja, em declarações a este jornal, já assumiu a derrota em Lamego e pôs-se fora do filme judicial que se adivinha: “seremos oposição e vamos denunciar muitas das coisas que Francisco Lopes fez.”

Derrotado em Lamego, Pedro Alves, agora, já só pode equilibrar as coisas se conseguir tirar Resende a António Borges. Não lhe vai ser fácil, Resende tem sido fiel ao PS e a direita vai a votos dividida. Mas, como Borges arranjou um sucessor que não acerta uma, os laranjas estão a apostar forte.

O último “inconseguimento” do actual presidente da câmara de Resende foi em Caldas de Aregos. António Borges, no seu tempo, prescindiu de milhões das eólicas para apostar forte naquelas termas, o seu sucessor, a seguir, não saiu do sítio, ficou parado à espera de um investidor privado chamado Godot.

3. Já nem em Lamego há reuniões para fazer listas como a que descreveu um “dirigente partidário com responsabilidades nacionais e distritais” a este jornal — uma reunião com pistolas em cima da mesa.

Daqui
A política, agora, tem défice de adrenalina.

Arte poética

Fintan Magee (+ aqui)

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.
Jorge Luis Borges

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Nível*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 3 de Agosto de 2007


1. Transcrevo aqui, no Olho de Gato, o último parágrafo da crónica da semana passada de José Junqueiro. Repare-se no nível:

“É o caso do cronista Joaquim Alexandre que entrou no Congresso Distrital do PS mudo e saiu calado, que se esconde atrás das costas da última cadeira nas assembleias do PS e nada diz, que paralisa em frente da ministra da Educação, na sessão pública de Junho num hotel da cidade, e não solta uma palavra, que não foi escolhido para deputado, como desejava, e vive amargurado, que não foi nomeado Governador Civil, como tanto pediu, e ficou ressabiado! Assim se percebe o frenesim do moço sempre que arranha na coluna do tareco!”

Estamos, como se vê, em plena silly season.

2. Lembro dois episódios de pequena política:

(i) Em Janeiro de 2005, o então Ministro Morais Sarmento fez uma visita a São Tomé e Príncipe que incluiu mergulho submarino; Junqueiro mergulhou de cabeça na história;

(ii) já neste Verão, Marques Mendes levou com uma história de remunerações em Oeiras; coisa malcheirosa; Junqueiro apareceu logo a meter o bedelho.

Daqui
Ora, nenhum político com nível chafurda neste lodo.

É uma pena o sempiterno líder do PS-Viseu prestar-se a fazer esta “figura do costume”. Assim chamei a este padrão de conduta no último Olho de Gato: “figura do costume”. A reacção de Junqueiro foi aquele fogo de artilharia patético acima transcrito.

Liderei a oposição a Fernando Ruas na Câmara Municipal de Viseu, de 2002 a 2005, e não me escondi nunca atrás de cadeiras. Naqueles tempos, bem mais difíceis para os socialistas que os de agora, se alguém teve medo, não fui eu. E por aqui me fico.

É sempre bom relembrar o que disse Millôr Fernandes:“É impressionante a altura que uma pessoa atinge só não descendo de nível.”

I bought me a cat






I bought me a cat
my cat pleased me
I fed my cat under yonder tree
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a duck
my duck pleased me
I fed my duck under yonder tree
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a goose
My goose pleased me
I fed my goose under yonder tree
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a hen
My henn pleased me
I fed my hen under yonder tree
My hen says "Shinny shack, shimmy shack"
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a pig
My pig pleased me
I fed my pig under yonder tree
My pig says "Griffey, griffey"
My hen says "Shinny shack, shimmy shack"
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a cow
My cow pleased me
I fed my cow under yonder tree
My cow says "Baw, baw"
My pig says "Griffey, griffey"
My hen says "Shinny shack, shimmy shack"
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a horse
My horse pleased me
I fed my horse under yonder tree
My horse says "Neigh, Neigh"
My cow says "Baw, baw"
My pig says "Griffey, griffey"
My hen says "Shinny shack, shimmy shack"
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.

I bought me a wife
My wife pleased me
I fed my wife under yonder tree
My wife says "Honey, honey"
My horse says "Neigh, Neigh"
My cow says "Baw, baw"
My pig says "Griffey, griffey"
My hen says "Shinny shack, shimmy shack"
My goose says "Quaw, quaw"
My duck says "Quaa, quaa"
My cat says fiddle eye fee.





terça-feira, 1 de agosto de 2017

Pequenos crimes entre amigos — por JB*

* Comentário de JB ao post de anteontem "Pequenos crimes entre amigos"


Silly Season / Silly texto


Em tempos recentes escrevi aqui um texto lamentando a falta de apetência de Viseu para o circuito musical. 
O Sr Gato considerou (com brilhante ironia) que eu padecia do complexo de abandono* (ou algo do género, honestamente não recordo bem o termo). Pois continua a minha moléstia…. Ora tomem nota dos meus recentes sintomas:

29 de Julho – Matosinhos

Espectáculo oferecido pela CM de Matosinhos, praça Guilhermina Suggia, com Gregory Porter e a Orquestra da Casa da Música.
Acompanhado com o grupo base, agora acrescentado de um jovem músico que tira um brilhante som do órgão Hammond, Gregory Porter encantou com a sua voz e presença em palco.

Excelente! Muito bom!

2 de Setembro – Figueira da Foz

No Parque Municipal actuará Paulo Furtado – The Legendary Tigerman.

Obviamente, imperdível!

13 de Outubro – Guarda

No Teatro Municipal da Guarda o músico sueco Jay-Jay Johanson assinalará os 20 anos da edição do álbum – “Whiskey”.

Sem comentários!

Enquanto isto, Viseu leva o tratamento do complexo de abandono com injecções de Agir!!!


Alguém que gostaria de ver por cá, em breve:




JB
-------------------------------
* Nota da "redacção":
JB, devo ter dito "pôr a funcionar a máquina de infelicidade", expressão que costumo usar em situações análogas

Óculos de sol

Daqui


Ver-te-ei com certeza
Mas eu peço à tristeza
Um pouco de controle
E pelo sim pelo não
Eu vou ter sempre à mão os meus óculos de sol

Vou chorar
Uuuuh uh
Vou sofrer
Uuuuh uh
Vou chorar
Uuuuh uh

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Violência urbana (#28)

Fotografia Olho de Gato

se uma mulher incomoda muita gente

Fotografia de Lauren Greenfield



se uma mulher incomoda muita gente,

uma mulher incomoda
é interditada
levada para o depósito
das mulheres que incomodam

loucas louquinhas
tantãs da cabeça
ataduras banhos frios
descargas elétricas

são porcas permanentes
mas como descobrem os maridos
enriquecidos subitamente
as porcas loucas trancafiadas
são muito convenientes

interna, enterra
Angélica Freitas


domingo, 30 de julho de 2017

O senhor Maduro e o "professor" Boaventura

Fotografia Olho de Gato

1. 
Senhor Nicolás Maduro, a eleição da Assembleia Constituinte que promove hoje é uma palhaçada anti-democrática e mais um passo a caminho do abismo.

2.
"Professor" Boaventura Sousa Santos, o sr. é professor exactamente de quê?* 

"Professor" Boaventura Sousa Santos, o sr. ainda defende o regime autoritário que levou a Venezuela à hiperinflação e que bate e prende eleitos

"Professor" Boaventura Sousa Santos, o sr. ainda defende o regime que derreteu, durante os anos que leva de poder, US$ 2 000 000 000 000 de proventos petrolíferos 
(o equivalente a 30 bancarrotas socráticas) e tem o povo com fome?

* Créditos a Joaquim Vieira

Violência urbana (#27)

Fotografia Olho de Gato

Pequenos crimes entre amigos

Desenho de Panteha Abareshi

Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.

Podes até queimá-lo -
com cuidado, por favor -
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.
Inês Dias