quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Anúncio publicitário

De Alexey Lobur (daqui)



Procura-se companheira/o
para relacionamento poético sério.
Apenas se exige que saiba dizer
que o surrealismo é coisa para
ter morrido no século XX.
David Teles Pereira




quarta-feira, 18 de outubro de 2017

"Há que cerrar fileiras, este país tem FUTURO!" — diz JB

* Comentário de JB ao post Dois casamentos e uma renovação de votos

Renovação de votos?
Não, Obrigado!
Não casei (votei) com Costa, nem com Marcelo!

Mas, há coisas que não podemos “abafar” dentro de nós…

Desde domingo (15 Outubro) que todos, todos mesmo (até porque somos um país de primos), ouvimos, contactámos ou tomámos café com amigos de Nelas, Carregal do Sal, familiares de Tondela ou Vouzela ou conhecidos de Oliveira de Frades. TODOS contam estórias de pânico, rapidez das chamas e destruição.
Os que se deslocavam na A25; os que iam na camioneta do Sr Eduardo, no IP3; os que perderam o emprego; os que tiveram que fugir de casa; os que quase ficaram presos na A25; os que….

Face a este (2º) dilúvio de fogo o desamparado e confuso povo, que respostas políticas teve?
Um Costa tecnocrático, distante e político.
Um Marcelo afectuoso, acutilante e manhoso.

Não renovo os meus votos com ambos, pois ambos têm agendas, projectos muito diferentes das que gostaria de ver implementadas.
Mas constatamos que a Geringonça faz mesmo comichão! O vómito de ódio à diferença, que passa nas tv´s, é incontornável. Portugal só pode ser governado à direita, pela direita ou por quem inequivocamente faça uma política de direita. Quem defender outras soluções, não pode governar!
Desligo o aparelho!

Costa gere a situação muito mal. Há um certo ar de “auto-convencimento”…

Marcelo sabe que os argumentos emocionais podem resultar. Distante de ambos, não posso deixar de dizer que Marcelo foi o “chefe político” que o povo gostaria de ter ouvido. Acutilante com a classe política (como se ele fosse distante…), com o governo e prometendo mudanças (eleições antecipadas?). Eu sei que é sempre de má política elogiar alguém da direita, seja o que for que esse alguém tenha feito, porque breve virá o dia em que esse elogio fica desmentido pelo comportamento do elogiado.

Marcelo é manhoso ao dar apoio e força a uma direita, que se reorganiza, tentando projectá-la para um patamar político que ela não está em condições de alcançar.
O “menino” cresceu e o “Guerreiro Adolescente” apresenta-se com apoio de Marcelo?

No fim, não posso deixar de recomendar este site/entrevista com Viriato Soromenho Marques, que muito tem escrito e meditado sobre a CIDADANIA!
"Aparente apatia" dos portugueses pode transformar-se numa "revolta eloquente"


Há que cerrar fileiras, este país tem FUTURO!





A sua coragem salvou muitas vidas de jovens do concelho de Viseu.
Bem-Haja!



JB

Dois casamentos e uma renovação de votos

Aviso à navegação:
isto não é o Mistério das Vozes Búlgaras a invadir o plateau de um filme de Peter Greenaway




Depois de dois anos de preparação, em 23 e 24 de Maio de 2011, Sarah Small apresentou este quadro vivo com 120 participantes no Skylight One Hanson (Brooklyn, NY).

Partindo das suas raízes na fotografia, Sarah explora aqui um fenómeno social específico: o ritual do casamento, a celebração pública da união mais íntima entre dois indivíduos. 


Sarah Small celebra dois casamentos e uma renovação de votos.


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Esse quieto vapor do mundo

Fotografia de Mario Cravo Neto

Estar demasiado
suspenso
sobre a luz
dos objectos
e cravar
no próprio pescoço
os dedos insuficientes
para juntar
uma concha
e trazer à boca
abundante
esse quieto vapor
do mundo.
Vasco Gato


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Animais domésticos

Pintura de Njideka Akunyili Crosby


Não cedas ao quarto com ela. Não
dês nome ao
perfume. Deixa-a cuidar sozinha da
íntima
idade dela. Vai tu
encantar a mais nova. Conta
um conto à miúda. Acata a
meia hora como
se fosse um instante.
Hoje é
a própria noite que
apela ao murmúrio. Conheces
como ela tarda no desvelo
de te ter. Mas
não
lhe meças tu
sedas. Não acertes tu o lume. Quando
menos estás à espera a
maçã que já trincaste vai
saber de
novo a
sumo.
João Luís Barreto Guimarães


domingo, 15 de outubro de 2017

Diário

Fotografia de Brett Walker

A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.
Ana Salomé


sábado, 14 de outubro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#165)

Claudia Cardinale,
Gina Lollobrigida,
Rita Hayworth,
Audrey Hepburn,
Sophia Loren,
Marilyn Monroe,
Lana Turner,
Grace Kelly,
Catherine Zeta-Jones,
Kelly LeBrock,
Elizabeth Taylor,
Vivian Leigh,
Gene Tierney,
Ava Gardner,
(...)

Carta de marear

Ilustração de Miranda Tacchia

Não há corpo igual. Não há cheiro nenhum no mundo que colmate o meu vício por ti. Não há tragédia igual. Drama incorruptível.
O tamanho de tudo, encaixe perfeito, a dimensão do conjunto e a distância entre opostos.
O que aporto eu? Flores. Mecanismos para deliciar. Sorrisos repartidos ao pôr-da-lua. Fazer ver a leveza do mundo, afinal. São flores que eu aporto. A minha caneta, o meu lápis, a tua vida no meu caderno-para-sempre. Votos de mar a vida inteira.
Leva-me. Está a ficar escuro. Tenho tudo tão pertinho.
Há uma pornografia íntima nisto nosso. Dá água na boca.
Segura-me. Musa.
Porque a pele.
Porque o rosto e as minhas mãos descendo.
Porque nós.
Não fiques, mas não vás. Avião outra vez. Porque tu.
O meu anel está a arder.
Tudo tão muito e eu a tremer como sempre.
A minha esperança é azul. Propagação. Níveis do Inferno.
Flores de Jacarandá no chão.
Gostava de me decifrar. Perdi o relógio, perdi a caneta, não perdi o anel. Ele arde-me.
Era isso! A faísca. No caos, a faísca. Tu. Não esquecer.
Fazer ver a leveza da tempestade. Até doerem os dedos. Até chorar. Até rir. Até dormir descansada no teu peito azul.
Comer-te.
Orgasmo.
Não esquecer.
Patrícia Baltazar


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Fêmeas e machos*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

Catarina Gomes e Luísa Pinto
(daqui)

A primeira vez que ouvi o termo microglia foi numa entrevista às investigadoras Catarina Gomes, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, e Luísa Pinto, do Instituto de Ciências da Vida e da Saúde da Universidade do Minho. Com o que ouvi delas e o que li no verbete da Wikipédia tornei-me um “especialista instantâneo” no assunto, pronto a brilhar no Facebook.

Estou a ironizar, como é lógico. Sei muito pouco sobre a microglia, o conjunto de “células especializadas do sistema imunitário” que defende o “normal funcionamento” do nosso cérebro e medula, o conjunto de células guardiãs dos nossos preciosos neurónios.

Quem sabe muito daquelas células são aquelas investigadoras e as suas equipas que acabam de ver um seu trabalho sobre a ansiedade crónica publicado na Molecular Psychiatry, uma publicação de referência mundial.

Elas apuraram, em experiências feitas com animais, que a alteração do sistema imunitário da grávida produzia alterações permanentes na microglia dos filhos, que essa anomalia era diferente no sexo feminino e no sexo masculino, que essa diferença persistia até na idade adulta, e que terapias desenhadas para o combate à ansiedade tinham muito piores resultados nas fêmeas do que nos machos.

Depois deste estudo, estas cientistas ficaram com uma certeza — para tratar a ansiedade crónica, um dos principais gatilhos da depressão e outras doenças psiquiátricas, são necessários “fármacos que tenham por alvo outras células que não os neurónios” e esses fármacos têm que ser “diferenciados para homens e mulheres.”

Para chatear a CIG (a comissão para a igualdade de género) e o ministro Eduardo Cabrita que, em Agosto, meteram a pata na poça no caso dos livrinhos para meninas e meninos, sintetizo assim as conclusões desta investigação: para um tratamento eficaz da ansiedade crónica, a indústria farmacêutica vai ter que arranjar pílulas cor-de-rosa e pílulas azuis.

Hoy disolví un amor

Gif de Mattis Dovier

Hoy disolví un amor.

Algunos signos se vieron desplazados.

Algunos otros
quedaron en el aire.

Podría pensarse que es un día distinto.

Lo único cierto es que empezó el invierno.
Carina Sedevich



quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Sinais*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 12 de Outubro de 2007


Luís Filipe Meneses, 
presidente do PSD de 12-10.2007 a 20.6.2008
1. Luís Filipe Menezes é o novo líder do PSD. Os “de baixo” disseram o que pensavam dos “de cima”. É para isso que servem os votos em democracia – para que haja mudança de “quem manda” sem derramamentos de sangue.

Agora Luís Filipe Menezes não vai dizer nada de substantivo até ao Congresso. Todo o farfalhar até lá é conversa de pardais atrás de milho; o primeiro pardal a abrir o bico foi Santana Lopes, o “menino guerreiro”, e o segundo foi Isaltino, o tio do taxista mais rico da Suíça. Com estes pássaros Luís Filipe Menezes não vai longe.

Alguns sectores do PS encarniçaram-se muito contra Marques Mendes. Deu para ver a preferência. A vitória de Luís Filipe Menezes pô-los a tocar as trompetas. “A maioria absoluta em 2009 está no papo”, pensam eles, a deitarem contas aos “rabos de palha” e irrequietude “populista” de Luís Filipe Menezes.

Ora, ainda está tudo em aberto para 2009. Os resultados eleitorais para a Câmara de Lisboa, o desemprego e a performance económica do país desaconselham triunfalismos.

Para começar, João Cravinho devia ser mais ouvido. É lamentável que o PS esteja a ser a muleta de Isaltino Morais na Câmara de Oeiras. Há coisas que cheiram mal. E que, em 2009, podem custar caro…

2. Durante mais de um mês, teve-se que aguentar o pára-arranca dos semáforos de Moselos enquanto, trezentos metros ao lado, prontas, as quatro faixas da nova variante acumulavam pó.

Aborrecidas com o desrespeito, as pessoas de Moselos não quiseram saber das gravatas e dos emplastros inaugurativos; foram lá, retiraram as barreiras e resolveram o problema. Foi um sinal dos tempos. O mesmo sinal da eleição de Menezes.

Abriu no colchão as valas possíveis

Fotografia Olho de Gato


Abriu no colchão as valas possíveis
e enterrou por ordem alfabética
cada parte do corpo: os pêlos
os pântanos as unhas encravadas
e as unhas que outros cravaram pelas coxas.
Estudou cuidadosamente as ondas as horas
para que não restassem dúvidas
sobre os caminhos marítimos
para a noite. Por fim
podou as janelas do quarto,
bebeu o vinho;
roeu a carne do quarto
até não sobrar nenhum coração.
Catarina Nunes de Almeida


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Arte poética

Fotografia Olho de Gato
Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.
Jorge Luis Borges

terça-feira, 10 de outubro de 2017

You got me hotter’n Georgia asphalt*




SAILOR

Are you going to provide me with an

opportunity to prove my love to my
girl? Or are you gonna save
youself some trouble and step up
like a gentleman and apologize to her?

IDIOT PUNK
Don’t fuck with me, man. You look
like a clown in that stupid jacket.

SAILOR
This is a snakeskin jacket, and for
me it’s a symbol of my individuality
and my belief in personal freedom.

IDIOT PUNK
...Asshole.

SAILOR
Come here.

LULA
Sailor, honey...


SAILOR
I’m sorry to do this to ya here
in front of a crowd, but I want ya
to stand up and make a nice apology
to my girl.

IDIOT PUNK
I’m sorry.

LULA
Hell, you just rubbed up against
the wrong girl is all.

SAILOR
That’s good... Now go get yourself
a beer.





LULA
(howls)
Jesus, honey! You more’n sorta
got what you come for... You
better rum me back to the hotel,
baby... You got me hotter’n
Georgia asphalt.

SAILOR
Say no more... But go easy on me,
sweetheart... Tomorrow we got alotta
drivin’ to do.
(he takes out a cigarette and laughs)
Hotter’n Georgia asphalt?



Reedição

Anúnciame

Fotografia de Isabel Muñoz


Anúnciame
Espanta las sombras que ladran a mi paso
y los ojos curiosos que desde los resquicios
me ven andar a tientas
desandando

Alláname el camino
que tropiezo
porque no estaba escrito que volviera

(el polvo sacudido de mi cuerpo
se levanta de nuevo y se me pega)

Anticípame
Nada quiero dejarle a la sorpresa
Salí de mí huyendo de este grito
pero el grito me alcanzaba adonde fuera
América Martínez Ferrer


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Projecto


(...)
Todavia o seu projecto principal era o de mudar o mundo.
Ao que eu lhe disse que o meu grande projecto
foi sempre o de que o mundo não me mudasse a mim.
Daniel Maia-Pinto Rodrigues


domingo, 8 de outubro de 2017

El valor de la palavra

Fotografia de Lorenzo Castore


El otro día me pagaron
por recitar media docena de poemas, algunos
contra el propio sistema bancario.
Es la primera vez que cobro por las miles de horas extra
sin contrato ni derecho a subsidio por desempleo que llevo
desde que me inscribí en el gremio de artesanos del vaho
en esta profesión de vendedores de melancolía

en la que tanto se padece la siniestralidad
–hay versos cojos, poemas que se estrellan contra el cielo–

en la que sufrimos la flexibilidad laboral más dura
–quién no ha tenido que escribir en el autobús, camino del alba–

en la que somos víctimas del acoso moral de uno mismo en el trabajo
–cuántos suicidios ejemplares de los que se tiene constancia.

Así que voy a practicar un poco el absentismo
antes de volver a emplear el tiempo
jugándome la vida
a cuatro euros el poema.
Juanjo Barral


sábado, 7 de outubro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#164)

Vive le français parlé au Québec!

Amanhã vou comprar umas calças vermelhas

Fotografia de Eric Wong


Amanhã vou comprar umas calças vermelhas
porque não tenho rigorosamente nada a perder:
contei, um a um, todos os degraus
sei quantas voltas dei à chave,
sublinhei as frases importantes,
aparei os cedros,
fechei em código toda a escrita.

Amanhã comprarei calças vermelhas
fixarei o calendário agrícola
afiarei as facas
ensaiarei um número
abrirei o livro na mesma página
descobrirei alguma pista.
Ana Paula Inácio


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Metáforas avariadas*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. As eleições autárquicas destaparam um elefante que estava escondido na sala de estar da geringonça — o acordo de incidência parlamentar que sustenta o governo é bom para o PS mas é mau para o PCP.

Este acaba de perder dez câmaras, nove delas directamente para os socialistas. Só restaram vinte e quatro municípios comunistas, é o menor número de sempre.

A propósito desta hecatombe, tem sido recordado o “abraço de urso” de François Mitterrand aos comunistas franceses, coligou-se com eles em 1981 e levou-os ao desaparecimento. O eleitorado comunista, depois, foi cair nas mãos da Frente Nacional do clã Le Pen, mas isso são contas de outro rosário.

Em vez da metáfora do “abraço de urso”, no Facebook descrevi o caso assim: “Jerónimo de Sousa foi a panela de barro e António Costa a panela de ferro.”

Daqui
Aludi a uma fábula de La Fontaine mas receio que o sentido dela escape às gerações mais novas. Aliás, cada vez é mais difícil encontrar uma metáfora que tenha um funcionamento universal, que seja entendida por toda a gente.

Lembrar que não são bons os chegamentos das panelas de barro às panelas de ferro tem pelo menos uma vantagem: imita muito bem a maneira simpática e expressiva como o líder comunista costuma descrever aos seus camaradas as encruzilhadas e as dificuldades da política.

2. Cada vez há mais metáforas avariadas. Por exemplo, dizer “vira o disco e toca o mesmo” já não funciona, a música agora já não é gravada nos dois lados de uma bolacha negra a rodar a trinta e três rotações por minuto.

Dizer que alguém “é um disco riscado” também não resulta, só os muito cotas é que sabem que esse alguém é um chato que está sempre a dizer o mesmo.

A mesma dificuldade se lembrarmos que a CIG tentou “usar o lápis azul” nos livrinhos azuis e cor-de-rosa da Porto Editora. É que cada vez menos gente sabe que os coronéis da censura salazarista cortavam os textos a azul.

A reconciliação autárquica*

* Análise às eleições autárquicas publicada hoje no Jornal do Centro


1. As nossas eleições autárquicas de domingo fizeram um enorme contraste com a insensatez na Catalunha. Por cá, o eleitorado, depois da zanga dos tempos da troika, parece reconciliado com a república.

Tendo como termo de comparação as autárquicas de 2013, desta vez foi mais gente às assembleias de voto e houve menos votos brancos e nulos. Resultaram destes fluxos virtuosos quase mais 282 mil votos nas candidaturas, tenham sido elas de partidos ou de independentes. Estas estabeleceram um novo recorde: já há 17 câmaras não ligadas a partidos.

Depois de terem trazido para a área do poder os partidos de protesto de esquerda, num arranjo governamental inédito, estes tempos geringôncicos estilhaçaram agora mais uma nossa tradição política: era costume a meio de um mandato governamental o eleitorado castigar o partido que estava de turno em S. Bento. Foi assim em 1982, 1989, 1993, 1997, 2001 e 2013. Desta vez, pelo contrário, o primeiro-ministro António Costa conseguiu o maior número de sempre de câmaras socialistas — 157. Quase que alcançava as 159 do apogeu do PSD, obtidas em 2001, aquando da maré laranja que levou à demissão do então primeiro-ministro António Guterres.

2. Olhemos agora um pouco para o distrito de Viseu. A sua hemorragia humana prossegue: em quatro anos perdeu 18,5 mil eleitores, o que levou à perda global de seis vereadores.

O PS distrital não acompanhou o crescimento do PS nacional. Perdeu Castro Daire, ganhou Lamego. Tinha onze câmaras, com onze ficou. Tinha setenta mandatos municipais, agora tem sessenta e seis. O líder federativo, António Borges, caminhou sem sair do sítio nestas autárquicas, apesar do contexto positivo que permitiu aos socialistas varrerem o país.

Já Pedro Alves, o líder distrital do PSD, fez pior ainda: andou para trás. É certo que ganhou Castro Daire aos socialistas mas perdeu para eles Lamego, e perdeu ainda S. João da Pesqueira e Oliveira de Frades para independentes. Oliveira de Frades é um caso de estudo: os laranjas, depois de duas eleições acima de 70 por cento, apesar de terem tido um adversário socialista que ficou abaixo de sete por cento, mesmo assim conseguiram perder aquele seu baluarte lafonense.

Paulo Robalo Ferreira, o novo presidente da câmara de Oliveira de Frades, eleito numa “barriga de aluguer” chamada Nós Cidadãos, foi a surpresa da noite. Ele e Manuel Cordeiro, novo presidente da câmara de S. João da Pesqueira, acabaram com décadas de exclusividade rosa-laranja.
Armando Mourisco

Na capital do distrito, António Almeida Henriques elegeu mais um vereador ao obter mais quase 3400 votos. Dois mil chegaram-lhe do CDS, os outros de algum eleitorado do dr. Ruas que, desta vez, não se absteve nem votou branco ou nulo. A candidata socialista, apesar das suas prestações confrangedoras no debate eleitoral, acabou por conseguir um resultado em linha com o de José Junqueiro (a sua queda é inferior a meio ponto percentual).

Resta referir os campeões destas autárquicas: Carlos Santiago (PSD) foi reeleito com 71,92% em Sernancelhe e Armando Mourisco (PS) arrecadou a medalha de ouro com uns superlativos 75,36% em Cinfães.

Desejos

Fotografia de Bea De Giacomo


Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)
David Mourão-Ferreira


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blue

Fotografia Olho de Gato


Veré nuevos rostros
Veré nuevos días
Seré olvidado
Tendré recuerdos
Veré salir el sol cuando sale el sol
Veré caer la lluvia cuando llueve
Me pasearé sin asunto
De un lado a otro
Aburriré a medio mundo
Contando la misma historia
Me sentaré a escribir una carta
Que no me interesa enviar
O a mirar los niños
En los parques de juego.

Siempre llegaré al mismo puente
A mirar el mismo rio
Iré a ver películas tontas
Abriré los brazos para abrazar el vacío
Tomaré vino si me ofrecen vino
Tomaré agua si me ofrecen agua
Y me engañaré diciendo:
“vendrán nuevos rostros
Vendrán nuevos días”.
Jorge Teillier




quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Nunca te disse

Fotografia de Lois Greenfield

Habito as distâncias
vivo dentro das distâncias

as tuas mãos, o teu rosto,
a claridade, que pelos teus olhos…
o mundo, que pelos teus olhos…
povoam as minhas distâncias.
Sabias?

Não. Ninguém sabe de ninguém os mundos
que cada um habita.

Falo-te. Nunca te disse.
em longas falas digo-te coisas tão particulares
de cada um de nós
de tudo em volta.
Das pequenas misérias diárias
dos pequenos nadas
do livro que se leu.
Do que se sente
do que se pressente
do que dói.
Das coisas diárias…

Do reparar nas coisas. A beleza das coisas.
Da harmonia do silêncio. A harmonia.
Das raízes sinuosas do afecto os inexplicáveis elos.

Tudo fica entre mim.
É quasi perfeito como diálogo, o nosso.
Que me responderias?
Que me poderias responder melhor
do que aquilo que te atribuo como resposta?

Na minha distância espero-te
sabendo que não sabendo tu que te espero
nunca virás.
É isso essencialmente a distância.
Aí preparo em cada dia especiais momentos
para a tua inexplicável chegada.
Maria Keil


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Sofás compridos

Fotografia de Norman Parkinson



como lobos em período de seca
crescemos por toda a parte
amamos a chuva
amamos o outono
um dia até pensamos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separamo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela
Muhammad al-Maghut
Tradução Adalberto Alves


segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Parabéns, António Almeida Henriques (#2)

Presidente da Câmara Municipal de Viseu

(#1)

Myth

Francesca Woodman, Providence, Rhode Island, 1975-76


Long afterward, Oedipus, old and blinded, walked the
roads.          He smelled a familiar smell.          It was
the Sphinx.            Oedipus said, "I want to ask one question.
Why didn't I recognize my mother?"            "You gave the
wrong answer," said the Sphinx.            "But that was what
made everything possible," said Oedipus.            "No," she said.
"When I asked, What walks on four legs in the morning,
two at noon, and three in the evening, you answered,
Man.            You didn't say anything about woman."
"When you say Man," said Oedipus, "you include women
too.            Everyone knows that."            She said, "That's what
you think."
Muriel Rukeyser


domingo, 1 de outubro de 2017

Violência urbana (#30)


Ó S. Pedro, porquê tamanha judiação?

Daqui


Quando olhei a terra ardendo
Igual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornalha
Nem um pé de plantação
Por falta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
(...)
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira






























sábado, 30 de setembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#163)

A day like any other

Escultura de Lorien Stern


Such insignificance: a glance

at your record on the doctor's desk

or a letter not meant for you.

How could you have known? It's not true

that your life passes before you

in rapid motion, but your watch

suddenly ticks like an amplified heart,

the hands freezing against a white

that is a judgment. Otherwise nothing.
The face in the mirror is still yours.
Two men pass on the sidewalk

and do not stare at your window.

Your room is silent, the plants

locked inside their mysterious lives

as always. The queen-of-the-night

refuses to bloom, does not
accept
 your definition. It makes no sense,
your scanning the street for a traffic snarl,

a new crack in the pavement,

a flag at half-mast -- signs

of some disturbance in the world

because your friend, the morning sun,

has turned its dark side toward you.
Lisel Mueller


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Bonança*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. O nosso actual optimismo económico tem três causas directas: o crescimento em toda a “Europa”, o turismo de “escapadinhas” e a forma como a geringonça se “cativou” pelos lindos olhos do tratado orçamental.

Daqui
Este tripé é, todo ele, magnífico:
— é bom a “Europa” estar a crescer e a criar emprego, isso tem um impacto positivo na vida das pessoas e retira oxigénio aos soberanismos populistas de esquerda e direita;
— é excelente termos as nossas cidades cada vez mais cosmopolitas, e haver gente a ganhar dinheiro e a criar empregos no turismo;
— é uma ironia e um alívio termos um governo apoiado pelo bloco e pelo PCP a esforçar-se por um défice ainda mais “eurogrupista” do que pedia o eurogrupo.

Será que aprendemos com o trauma da última bancarrota? Será que nunca mais vamos ter os credores a mandar neste desgraçado país?

Como a preparação para as tempestades deve ser feita na bonança, agora devíamos aplicar a folga orçamental na diminuição da dívida pública. Devemos isso ao futuro dos nossos filhos e dos nossos netos. Este assunto ficará para outra crónica.

2. Esta campanha das autárquicas decorreu num clima social muito diferente do de há quatro anos. Então as pessoas estavam zangadas com os partidos e, onde puderam, votaram em independentes, umas vezes bem como no Porto, outras vezes mal como em Oeiras (onde a asneira, desgraçadamente, parece que se vai repetir).

Além daquele voto massivo em candidaturas independentes, nunca houve tantos brancos e nulos como em 2013. Estes votos de protesto duplicaram nos vinte e quatro concelhos do distrito de Viseu, tendo crescido ainda mais nas freguesias urbanas. Nas freguesias mais citadinas de Viseu, por exemplo, a soma dos nulos com os brancos chegou aos 12%, dava à vontade para eleger um vereador.

Na campanha que acaba hoje, nenhuma candidatura se preocupou com esta multidão que estava zangada em 2013. Onde irá votar este eleitorado quatro anos depois?

É preciso que algo mude...




quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Caçadeira*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, de 28 de Setembro de 2007


1. Na Assembleia Municipal de Fevereiro, António Neves, Presidente da Junta de Freguesia de Boaldeia, sintetizou assim a “doutrina” da Carta Educativa de Viseu: «Posso admitir a concentração dos alunos numa escola por freguesia, não posso é aceitar uma freguesia sem escola.»

António Neves tem defendido com energia a “sua” escola. Só que, infelizmente, na Boaldeia há apenas 12 alunos. Não há escala para poder haver uma boa escola.

Quando foi eleito, há seis anos, António Borges, Presidente da Câmara de Resende, percebeu que o insucesso escolar no seu concelho tinha uma causa primeira: as micro-escolas do 1º ciclo. Começou logo a tratar de fazer Centros Escolares. Com Durão Barroso o dossier empancou. Com Sócrates as obras puderam avançar. Já está em funcionamento o excelente Centro Escolar de S. Martinho de Mouros. Se houvesse um de igual qualidade na zona oeste do concelho de Viseu, com refeitório, mediateca, auditório, quadros interactivos, ..., o Presidente da Junta de Boaldeia e as famílias eram os primeiros a quererem lá as suas crianças.

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2. Enquanto ouvia a Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, no programa Prós e Contras da RTP1, fria como um icebergue, incapaz de mostrar um sorriso ou de dizer uma palavra de ânimo para quem ensina ou quem aprende, lembrei-me das palavras de Daniel Faria:

(…) o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda.

Espero que, em 2008, nas nossas escolas, as asas feridas se comecem a curar e, claro!, que José Sócrates chegue junto da ministra e lhe tire a “caçadeira” das mãos.

Notas da campanha (antes que esqueça…) — um texto de JB*

* Comentário de JB deixado ontem no post "Não há guarda-chuva contra o amor":

"Não há guarda-chuva" ou faltaram as prendas dos guarda-chuvas nas autárquicas. Ora bolas!


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Tivemos no palco um Almeida Henriques (PSD) que não ganhou os debates, mas soube gerir bem o tempo, as intervenções, as simpatias e as “ferroadas”.

Fernando Figueiredo (BE) que começou titubeante, ganhou força e embalagem e demonstrou ser um bom reforço.

Filomena Pires (CDU) que tem a difícil missão de acrescentar os 2.500 votos necessários (à votação de 2013) para ser vereadora, revelou estar técnica e politicamente bem preparada. 
Acutilante no que vou recordar desta campanha: a denúncia de “2017 – ano oficial para visitar Viseu” e não haver um parque de campismo ou de auto-caravanas !!! E ainda a proposta de Vale de Cavalos – muito bonito – para instalar esses equipamentos.

Paula Amaral (CDS) começou nervosa e pouco assertiva, melhorou no debate da rádio e ficou por aí. 
Houve uma nítida picardia com Almeida Henriques e a candidata do PS, o que lhe retirou espaço na apresentação de propostas (apoio ao pequeno e médio comerciante, por exemplo).

Lúcia Silva (PS), a candidata com a difícil tarefa de fazer subir a votação do PS, sem o apoio dos peso-pesados de Viseu (que não apareceram na campanha), procurou apresentar uma equipa “certinha” e de segundas linhas. 
Nos debates revelou erros — por exemplo, o ataque a “eventuais problemas” na carreira empresarial do candidato Almeida Henriques criou um momento constrangedor e escusado. Há alguma pena judicial? Não! Então, julgamentos na praça pública nunca! 
Não teve a acutilância para explorar as fragilidades do poder – por exemplo, a questão do preço dos terrenos nas zonas industriais. Pouco clara no explanar das suas ideias e propostas, e no tanto que havia para explorar de um poder festivaleiro.

Do PAN (Carolina Almeida) ficou a ideia de quer ser feliz!

No fim:
Factor comum a quase todos: foram incapazes de referir propostas que os seus partidos tenham apresentado (durante quatro anos) na Câmara ou na Assembleia Municipal. Revelador de falta de ligação ou preparação nos debates?

A excepção foi a CDU, que encontrou em Filomena Pires uma “Voz do Povo”, pois várias vezes referiu que “apresentou a proposta da srª X; o problema do sr. Y ou fez o requerimento Z”.

Ainda que continue deslumbrado, e "prognósticos só no fim do jogo", ...


... o candidato Almeida Henriques bem pode comprar o champanhe para o dia 1 de Outubro.
JB