segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Inés Arrimadas — 21-D



Inés Arrimadas foi declarada "persona non grata" pelos nacionalistas do Ayuntamiento de Llavaneres.

Gente tóxica que faz proscrições aos seus adversários políticos.

Gente tóxica que nunca será declarada "non grata" por Inés Arrimadas se os Catalães a puserem na presidência da Generalitat da Catalunha.

E isso distingue quem é democrata de quem não o é.

Realismo

Fotografia de Maxim Chelak

Tinhas a mesma vontade que eu
de louvar a imperfeição
de chamar as coisas pelos nomes

mesmo as que nem chamar se chamam
e o desatino do extremo cansaço.
É por isso que a nossa felicidade,
a que nem sabemos se é
(mas podemos fingir)
está na tristeza que aclamo, logo ao despontar do dia
e na rotina que me despejas, por vezes,
ao fechar da noite.
A minha fé está na dedicação
com que arrumas a loiça lavada
e a tua,
está na emoção com que ajeito os lençóis
antes de fechar os olhos.

Não existe mais nada para além deste querer
Querer sentar-me contigo
e contar-te o desnorte amargo das
minhas palavras
querer
continuar a adorar-te, apesar da dor de estômago.

Não te escondo que já me doeram todas as coisas
a vida, a não vida,
a voz, os cabelos, o pão
mas ao saber-te sentado no momento em
que abrir a porta
deus da secretária de madeira
pai-nosso, amor-meu!
tão existente quanto despojado das
grandes coisas
não há mundo nem ponta de estômago por
mais inflamada que esteja

que me impeçam
de não-doer.
Cláudia R. Sampaio


domingo, 17 de dezembro de 2017

Depois de jantar

Daqui


Depois de jantar
saio
e passeio o meu coração
acenando cabeça cúmplice
aos vizinhos
que vivem também este peso
de passear os seus bichos à trela
André Tecedeiro


sábado, 16 de dezembro de 2017

Moeda ao ar para decidir o serão deste sábado



Teatro Viriato ou Acert?

Viseu ou Tondela?

Cristina Branco ou Samuel Úria?





"And Now For Something Completely Different" (#173)

Cena apagada do filme Mistery Man, de Kinka Usher (1999)

«Do you like something sweet?... go ahead...»

Elegia do amor

Fotografia de Nobuyoshi Araki 



Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti…
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória…
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.

Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos…
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim…
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste… Ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor.
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,

Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos…
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia…
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve — sim!
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.

Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
— Que incêndio! — E eu, a rir,
Disse-te — É a lua cheia!…
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo,
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.
Teixeira de Pascoaes


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Consanguinidade*

* Hoje no Jornal do Cemtro


1. Onde pára a lista dos grandes devedores da CGD? Para quem foram as centenas de milhões de euros que a caixa emprestou sem juros?

Infelizmente, a comissão parlamentar de inquérito à CGD foi sabotada pela geringonça e não serviu para se saber nada. Os deputados fizeram o triste papel de múmias paralíticas.

Neste ano, cada português entrou com 250 euros para o resgate do banco do estado. E, como não chegou para tapar o buraco, para o ano que vem logo se há-de ver. Não há ninguém preso. Nem vai haver.

2. Pedro Santana Lopes, antes do seu mergulho no rio laranja, ainda teve tempo para avançar no dossier da entrada da santa casa da misericórdia de Lisboa no capital do Montepio. Já há números: vão ser duzentos milhões de euros de dinheiro dos pobres por 10% do Montepio. As máquinas de calcular do menino guerreiro e do governo acham que aquela banqueta vale 2 mil milhões. Compare-se com o valor em bolsa do BPI: 1,65 mil milhões.

No governo, o pé de Centeno e o pé de Vieira da Silva vão carregando, à vez, no acelerador desta operação “raríssima”. Ninguém põe travão nisto?

3. A economia social já representa mais de 6% do emprego do país. Em muitos concelhos do interior é quase o único canal para obter um trabalho pago.

Há aqui um poder imenso que precisa de ser escrutinado. Foi o que fez este jornal, na última edição, ao descrever as recentes mordomias do provedor da misericórdia de Resende. Foi o que fez a TVI ao descrever as incursões da ex-presidente da Raríssimas ao El Corte Inglés.




4. Ficou a saber-se, naquela reportagem de Ana Leal, que o ministro Vieira da Silva, além de ter uma filha a secretária de estado, tem a mulher a deputada.

Pois é: o familismo que vai em crescendo no PS-Viseu não é uma originalidade local.

Uma coisa é certa: o PS, que se diz republicano, ou contraria esta dinâmica ou corre severos riscos de consanguinidade. E esta, como se sabe, costuma avariar os genes.

Na feira de Alfândega da Fé

Fotografias Olho de Gato


Na feira de Alfândega da Fé foi um cigano.
Eu tinha uma saia encarnada.
Olhei-o enquanto ele gritava agitando cuecas ao parapeito.
Olhos negros busto contra a minha visita.
Peguei em três cuequinhas ao preço de uma e deitei-me na carrinha sobre um monte.
Experimentei-as, uma por cima da outra, uma e outra e outra sobre as minhas eram quatro em cima de cinquenta embalagens seladas.
Ele deslaçou o cinto às soltas braguilhas e deu-me de joelhos a parte que me tocava.
Amparava-me o credo de costas sustida em lacostes.
A saia enrodilhava ao forte da ganga genuflexa.
O cigano pôs-se em sua alma.
Lá fora chorava a criancinha ranhosa que tinha feito à prima que não cortava o cabelo desde que lhe morrera o paizinho.
A banda tocava ao altifalante.
Uma esganiçada berra, Oh Tó-Zé! Abre a porta!
Ele, mete a mão e arreda-me as quatro.
Não alinhava, largava as quatro, pegava na alma, as quatro fechavam, arredava as quatro e alma fugia.
"Oh Tó-Zé! Abre a porta cabrão!"
Rosalina Marshall


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Microproblema

Fotografia de Marianna Vysotskaya 



Si le sumo mi soledad a la tuya
qué es lo que obtengo a cambio
¿Dos soledades o ninguna?
Ajo





quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O segredo da púrpura

Daqui


Acabei agora de comer
um campo de tulipas
Não sei o que fazer
com tanta beleza nas tripas
Jorge Sousa Braga


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A sandália nova branca com dedos

Fotografia de Megan Doherty

a sandália nova branca com dedos
que se refestelam do lado de fora
como crianças que sabem o verão que vem
de repente a chuva mingua os planos
da calça jeans com sandália de dedos
uma combinação entre-estações
para não se sentir nem tão lá nem tão
cá os dedos curvados corcundas
como crianças tristes que sabem
o toró que se aproxima as unhas recém-cortadas
que planejaram se mostrar sobre a cadeira de rodinhas
que nada a água inundou a sexta
da janela os bambus se movem muito
chegam a parecer desesperados
as folhas penduradas são cabelos colados
que gritam novas rugas onde nada havia
Alice Sant'Anna



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Violência urbana (#32)

No excepcional Carmo'81

Fotografia Olho de Gato

O vento

Fotografia Olho de Gato


Eu já estou morto, mas tu vives,
Vives ainda, e vem o vento,
Que geme e chora, balouçar
Todas as árvores da floresta,
Todas as árvores a um tempo,
Todo o infinito da lonjura,
Como aos veleiros ancorados
Nas águas calmas da baía,
E não é pura diversão,
Nem por furor nem por capricho,
Mas para dar ao teu desgosto
Essa canção de que precisas.
Boris Pasternak
Trad.: David Mourão-Ferreira


domingo, 10 de dezembro de 2017

Declaración



Pero de nada sirvieron, ya ves,
amor mío, estos años tan largos
de propósitos serios y tercas promesas,
si vienes tú ahora y te metes en casa
y ocupas el tiempo como
si hubieras estado aquí desde siempre.
Bien sé que por ello
tendré que pagar a los hombres
el tributo que sólo a los dioses se paga.
Berta Piñán



sábado, 9 de dezembro de 2017

Não há almoços grátis — por JB*

* Comentário de ontem de JB no post "Familismo, boyismo"



Editada a partir daqui
Muito me custa escrever estas linhas.

Mas a perspectiva republicana da “causa pública” é treta.
Não há almoços grátis e tudo é negócio!
Triste realidade.

E como não hão-de os cidadãos olhar de soslaio os políticos? Como não há-de aumentar o número de abstencionistas? Nada que me deixe deleitado, pelo contrário, pois sem participação não há democracia.

Mas, quando este negócio tem a chancela da transparente, imaculada e cândida Helena Roseta, como querem que eu acredite nos políticos?

Pins, pah!




JB

"And Now For Something Completely Different" (#172)

Dabke (em árabe دبکة) é uma dança popular do Oriente Médio. 
O dabke é a dança folclórica da Palestina, do Líbano e Síria.

Uma das expressões artísticas mais importantes entre os árabes é a dança, na qual o dabke é o mais característico. Isso é acompanhado de coreografias complexas, danças de grupo, pisadas de pés (ou dabke), aplausos e gritos. Ela é tradicionalmente dançada durante a primavera, estação chuvosa e em casamentos na época da colheita. O dabke é uma dança jovem que requer energia e força, que assume a forma de um semicírculo, geralmente entre 6 e 15 dançarinos. Às vezes, há um líder entre eles, chamado "Al-Lawah", que deve ser uma pessoa engraçada e encantadora. (+)













Muito "corrompido"




Por qué las brújulas no funcionan en el interior y cómo adivinar hacia dónde se dirige la aguja desde la mirada

Fotografia de Wim Wenders 



Tratamos de perseguir sus movimientos
pero el final de cada trazo
era vivido como un fracaso total en la búsqueda de la figura.

¿Será la eternidad esquiva –nos preguntamos escépticos– lo que se oculta tras el color de nuestros actos?

(Y a todos nos pareció entonces que habíamos iniciado un camino
pero al encender la luz
encontramos de nuevo el muro en blanco).
Sandra Santana


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Familismo, boyismo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Para além do fenómeno do familismo — pujante no concelho de Viseu como vimos aqui na semana passada —, há outra disfunção do poder local a que se dá pouca atenção: o aliciamento das oposições. Quando um presidente da câmara não tem maioria ou não quer chatices raramente precisa de dar pelouros a mais do que um vereador da “oposição”. Este, depois, encarrega-se de domesticar o seu grupo parlamentar na assembleia municipal.

É por isso que era muito mais transparente não misturar “situação” e “oposição” numa câmara. Os executivos deviam resultar de maiorias coerentes na assembleia municipal, assumidas por um partido ou por uma coligação. E o presidente da câmara devia poder escolher e substituir a sua equipa de vereadores como entendesse.

Claro que tudo isto implicava termos assembleias municipais com mais poderes de escrutínio e com o poder de derrubar os governos municipais.


Daqui


2. O forrobodó que a assembleia municipal de Lisboa, presidida por Helena Roseta, acaba de aprovar por unanimidade só é entendível no quadro de aliciamento das oposições.

Os lisboetas vão pagar mais de um milhão e duzentos mil euros por ano em boys e girls para todos os grupos parlamentares. Cada assessor vai afinfar 3752,50 euros mais IVA, cada secretária 2802,50 euros mais IVA. Por exemplo: só os boys veg do partido mais pequeno, o PAN, vão custar mais de 7000 euros por mês aos alfacinhas.

Esta cadeia alimentar — que já vem do tempo em que o então mayor António Costa estava em minoria — foi conhecida agora com algum estrépito nos jornais. O dirigente do PSD, José Eduardo Martins, acrescentou um pormenor delicioso: há deputados municipais com tanta flexibilidade vertebral que... conseguem contratar-se a si próprios como assessores.

No que veio a público não há referência a laços de parentesco desta malta. Tenhamos esperança que algum jornalista garimpe essas conexões familiares e indague se elas influenciam, ou não, a atribuição de casinhas municipais.

Barracão

Rocinha RJ, Fotografia de David Sidhom


Vai, barracão
Pendurado no morro
E pedindo socorro
A cidade a seus pés
Vai, barracão
Tua voz eu escuto
Não te esqueço um minuto
Porque sei
Que tu és
Barracão de zinco
Tradição do meu país
Barracão de zinco
Pobretão, infeliz
Vai, barracão
Pendurado no morro
E pedindo socorro
A cidade
A seus pés
Vai, barracão
Tua voz eu escuto
Não te esqueço um minuto
Porque sei
Que tu és
Barracão de zinco
Tradição do meu país
Barracão de zinco
Pobretão, infeliz
Barracão de zinco
Barracão de zinco

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Atocha*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 7 de Dezembro de 2007

1. Madrid. Chega-se ao Memorial de Atocha através da estação. Uma sala azul, grande, redonda. A luz entra por uma cúpula de vidro. Onze metros de altura de vidro. 11M. No vidro, uma espiral de mensagens. Eis uma delas, só uma: “Maldita mochila maldita por siempre”. 2004. 11 de Março. 191 mortos. 2050 feridos. Mochilas de morte. Malditas.




A lavagem aos cérebros dos futuros mártires nunca pára nas madrassas do Paquistão e nas madrassas electrónicas dos sites fundamentalistas. Um dos países europeus em que esses sites são mais acedidos é Espanha. Milhares de câmaras de vídeo filmam, agora, todas as ruas de Madrid.

2. Merece ser conhecida a defesa que a psicóloga Wafa Sultan tem feito dos valores de uma sociedade aberta e laica. Pode ser vista a sua coragem e desassombro, a falar em árabe para árabes, na Al Jazeera. Basta pesquisar o seu nome no YouTube.

Deixo aqui algumas das suas ideias: “O choque que se vê no mundo é um choque entre uma mentalidade que pertence aos tempos medievais e uma mentalidade que pertence ao séc. XXI; é um choque entre aqueles que tratam as mulheres como animais e aqueles que as tratam como seres humanos.
Eu não sou uma cristã, uma muçulmana ou uma judia. Sou um ser humano laico. Não creio no sobrenatural mas respeito o direito dos outros em acreditar.
Não vimos nem um só judeu a fazer-se explodir num restaurante alemão.
Os muçulmanos transformaram três estátuas de Buda em cascalho. Não vimos nem um só budista a queimar uma mesquita, matar um muçulmano ou incendiar uma embaixada.
Só os muçulmanos defendem as suas crenças a queimar igrejas. Isto não vai dar resultado nenhum.”

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“O choque que se vê no mundo não é um choque entre civilizações, é um choque entre dois opostos, um choque entre duas eras, um choque entre uma mentalidade que pertence aos tempos medievais e uma mentalidade que pertence ao Séc. XXI, é um choque entre a civilização e o retrocesso, entre o civilizado e o primitivo, entre a barbárie e a racionalidade, entre a liberdade e a opressão, entre a democracia e a ditadura, é um choque entre os direitos do homem de um lado e a violação desses direitos do outro, é um choque entre aqueles que tratam as mulheres como animais e aqueles que as tratam como seres humanos. O que vemos hoje não é um choque de civilizações. As civilizações não se agridem, elas rivalizam.
Os muçulmanos é que iniciaram o choque de civilizações. O profeta do Islão disse: “Eu recebi a ordem de combater as gentes até elas acreditarem em Alá e no seu mensageiro.” Quando os muçulmanos dividem os povos entre muçulmanos e não muçulmanos, e apelam ao combate até que os outros partilhem das suas crenças, eles declararam este choque, eles começaram esta guerra. Para acabar esta guerra, eles devem reexaminar os seus textos e os seus planos islâmicos, que estão cheios de apelos ao takfir (acusações de descrença)
(…)
Qual a civilização da superfície da terra que se permite chamar os outros por nomes que eles não escolheram para si próprios?
Quem vos disse que eles são a “gente do livro”?
Eles não são gente de um só livro. Eles são gente de muitos livros. Todos os livros científicos que vocês têm são deles, fruto do pensamento livre e criativo.
Quem vos deu o direito de chamá-los “aqueles que incorrem na ira de Alá” e depois virem aqui dizer que a vossa religião vos ordena de vos abster de ofender as crenças dos outros?
Eu não sou uma cristã, uma muçulmana ou uma judia. Sou um ser humano laico. Não creio no sobrenatural mas respeito o direito dos outros em acreditar.
Irmão, tu podes acreditar em pedras [referência aos rituais mécquois [ver http://fr.wikipedia.org/wiki/Abu_Sufyan_ibn_Harb] desde que não me atires com elas. Mas as crenças dos outros não te dizem respeito. Que creiam que o Messias é Deus, filho de Maria. Deixa as pessoas ter as suas crenças.
Os Judeus saíram da tragédia, [o holocausto] e fizeram com que o mundo os respeitasse através do seu conhecimento e não através do terror, através do seu trabalho e não através das lamentações e dos gritos.
A humanidade deve a maior parte das descobertas científicas do séc. XIX e XX a cientistas judeus.
Quinze milhões de pessoas espalhadas pelo mundo uniram-se e asseguraram os seus direitos através do seu trabalho e do seu conhecimento.
Não vimos nem um só judeu a fazer-se explodir num restaurante alemão.
Não vimos nem um só judeu destruir uma igreja.
Não vimos nem um só judeu a protestar matando pessoas.
Os muçulmanos transformaram três estátuas de Buda em cascalho.
Não vimos nem um só budista a queimar uma mesquita, matar um muçulmano ou incendiar uma embaixada.
Só os muçulmanos defendem as suas crenças a queimar igrejas.
Isto não vai dar resultado nenhum.
Os muçulmanos devem perguntar-se o que podem fazer pela humanidade antes de exigirem que a humanidade os respeite.”

Quelque chose de Tennessee










A vous autres, hommes faibles et merveilleux
Qui mettez tant de grâce a vous retirer du jeu
Il faut qu'une main posée sur votre épaule
Vous pousse vers la vie, cette main tendre et légère

On a tous quelque chose en nous de Tennessee
Cette volonté de prolonger la nuit
Ce désir fou de vivre une autre vie
Ce rêve en nous avec ses mots à lui

Quelque chose de Tennessee
Cette force qui nous pousse vers l'infini
Y a peu d'amour avec tell'ment d'envie
Si peu d'amour avec tell'ment de bruit
Quelque chose en nous de Tennessee

Ainsi vivait Tennessee
Le cœur en fièvre et le corps démoli
Avec cette formidable envie de vie
Ce rêve en nous c'était son cri à lui

Quelque chose de Tennessee
Comme une étoile qui s'éteint dans la nuit
A l'heure où d'autres s'aiment à la folie
Sans un éclat de voix et sans un bruit
Sans un seul amour, sans un seul ami

Ainsi disparut Tennessee
A certaines heures de la nuit
Quand le cœur de la ville s'est endormi
Il flotte un sentiment comme une envie
Ce rêve en nous, avec ses mots à lui

Quelque chose de Tennessee
Oh oui Tennessee
Y a quelque chose en nous de Tennessee
Michel Berger




quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

An average crap

"O Grande Calafrio" correu cá com o título "Os Amigos de Alex"




Do tempo em que não se ia de tablet ou de smartphone para a "casinha":



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Adenda em 12.12.2017, às 18:40, na sequência do comentário de contra-baixo que agradeço




terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Democrítica

Fotografia de Tatsumi Orimoto


Mais tempo, admito, gasto a passar mal
por relativo amor e altivez
do que a fazer política, e prezo
sobre o consenso o rasgo original,
herança doentia do burguês
de génio, que nega ser geral
o raio que trilhou seu ideal,
e deixa que o isente a lucidez
da desprendida rota da unidade
além da sua esfera. Mais consola
levantar os óculos à verdade,
suspensa ao clamor mudo lá do fim
da literatura, onde não rola nada
excepto, além das massas, o sublime.
Precário verso, se o gesto
o não redime –
paira só na frouxa linha acima
dos meus ombros
onde ruo assolidária e sem assombros.
Agora, se descerem os médios
à rua os verdadeiros pobres a gente
atenta e recíproca a encher de pulmões ar
canto atrito resistência translação,
a derrubar consumo e cómodo sem afecto
e esta economia ávida que há muito não vê
pessoa que não faça género ou número, então
não seja eu por mim avara na poesia,
e, mais que busque luz, eu desconhecendo, dê.
Margarida Vale de Gato




segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Hoje em dia até as vacas são lingrinhas

Fotografia de Megan Doherty


Cada um é fado de si mesmo

Mas aonde irei eu que este não seja,
Se a causa deste ser levo comigo?
E se eu próprio me perco e me persigo,
Quem será que me poupe ou que me reja?

Porque me hei-de queixar do Tempo e Inveja,
Se eu a quis mais fiel ou mais amigo?
Fui deixado em mi mesmo por castigo:
Triste serei enquanto em mi me veja.

Esta empresa que me mi tanto em vão tomo,
Esta sorte que em mi seu dano ensaia,
Esta dor que minha alma em mi cativa,

Vós só podeis mudar. Mas isto como?
Como? Fazendo que a minha alma saia
De mi, Senhora, e dentro de vós viva.
D. Francisco Manuel de Melo


domingo, 3 de dezembro de 2017

Miscasting

Fotografia de Sergey Chilikov



“So you think salvation lies in pretending?”
Paul Bowles

estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino

há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri

mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída

agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil

seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa

os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
Hilda Machado


sábado, 2 de dezembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#171)

Votar na Rússia é bom...

Não abras as portas a estranhos

Fotografia Olho de Gato


todos os dias tento saber o lugar
exacto das coisas

uma montagem de certezas e rotinas
onde entre camisolas, vestidos e saias
(que nunca visto)

um dia acordo numa casa vazia
e sem saber onde é o meu lugar

os dias começam a perder o sentido
Maria Sousa

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Familismo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Sem surpresa, o orçamento de estado foi aprovado esta semana, apesar do mal-estar que reina na geringonça.

Tempos Modernos, de Charles Chaplin (1936)

Há causas conjunturais para as esquerdas terem começado às cotoveladas entre si: os incêndios, Tancos, o Infarmed, a borla aos rentistas das eólicas, ...

E há três causas estruturais que listo por ordem crescente de importância:
(i) o trambolhão autárquico do PCP fez soar todas as campainhas de alarme no partido e fez acordar a CGTP da sonolência em que tinha caído;
(ii) com a saída anunciada de Pedro Passos Coelho, os partidos de esquerda perderam o “bode-expiatório” ideal para culpar de todos os males da pátria e, com isso, unir as suas tropas;
(iii) a geringonça teve pressa demais e já fez tudo o que assinou há dois anos; nunca teve grande projecto comum para o país, agora está sem nenhum.

Para já, o bloco e o PCP vão ser lobos na retórica e cordeiros nas votações no parlamento. A intervenção de João Oliveira, do PCP, no encerramento do debate do orçamento, já não conseguiu esconder esta esquizofrenia; Mariana Mortágua conseguiu ainda disfarçá-la com a força moral que lhe foi dada pela pirueta de Costa nas eólicas, mas no futuro o bloco vai soar também cada vez mais a falso.

2. Os trabalhadores do sector privado vão deixar de poder receber em duodécimos metade dos subsídios de férias e de natal. Em vez de alargar, como devia, essa opção ao sector público, o parlamento votou a proibição aos privados.

Já se sabe: em Portugal desama-se a liberdade e os políticos pelam-se por uma proibiçãozinha.

3. No concelho de Viseu, nas últimas autárquicas, no bloco, o mano deu lugar à mana na assembleia municipal; no PS, o marido foi a votos para a câmara, a esposa para a assembleia; assembleia onde se sentam também manos de ex e filhos de ex.

Entretanto, um irmão do número dois da distrital socialista quer ir para número um da concelhia.

Ninguém estranha tanto familismo?

Alheamento

Fotografia Olho de Gato



Ando não sei por onde
tão longe e não me fixo!

Que asa me levou
e não tem descanso?

Ando não sei por onde
sem grade nem encanto.

E no entanto
não regresso nem fico...
Maria da Encarnação Baptista



quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Obrigado, Zé Pedro! — por JB*

* Comentário de JB ao post "No início"



No início…

recordo os Chinchilas e o single «Barbarella», com Filipe Mendes (o Hendrix português).



recordo o Conjunto João Paulo, o Quinteto Académico, Os Celtas, os Gattos Negros do Victor Gomes, os Chinchilas, os Sheiks, o Quarteto 1111 e os Pop Five Music Incorporated.
Todos os ouvíamos avidamente e acaloradamente.

Recordo o single “Page One” dos Pop Five Music Incoporated, indicativo do programa de rádio "Página Um" transmitido na Rádio Renascença. Que memórias, carago!



E claro o “Em Órbita”, do Pedro Albergaria, onde cultivámos novidades, bom gosto e muito boa música.

Os Petrus Castrus, os Filarmónica Fraude, também nos influenciam numa via de rock progressivo, na moda da época.

Em 1971, só os irmãos mais velhos tiveram autorização para ir ao Festival de Vilar de Mouros….

Já nos anos 80, os Xutos & Pontapés, os Heróis do Mar, os GNR e os marcantes Heróis do Mar.
E a memória leva-nos às portas do Rock Rendez Vous, clube de Lisboa, onde os Xutos tocam o tema “Remar/Remar”. Que som! Que força!



Comprar as cassetes, (sim cassetes…) dos “Concurso de Música Moderna” organizados pelo RRV era descobrir o “Som da Frente” (eternamente grato mestre António Sérgio) que se fazia em Portugal.

Desses tempos, guardo a melhor versão de um tema dos Xutos:



Hoje, navego mais no indie e folk com o Father John Misty, os Fleet Foxes ou o Bill Callahan; com companhia de um Gregory Porter, um Jay-Jay Johanson e o grande, grande Nick Cave, entre outros.
Óbvio que os mestres CSN e Y e a geração dos anos 60 povoam, e marcam, o meu imaginário musical.

Diáriamente, e sempre, na perpétua busca de novos sons.

Obrigado, Zé Pedro!

JB

No início

Ilustração de Dominique Fung


No início
não sabemos
que não podemos tudo.
É o corpo que nos ensina
Agarramos com as mãos
a irresistível chama
e a queimadura do fogo
enche-nos de surpresa
Subimos à árvore maior
para voarmos como pássaros
e dói-nos mais não podermos
do que a perna partida
No início não sabemos
que entre o desejo e o corpo
há um desencontro
a eterna fome
a perpétua busca.
Pedro Santo Tirso