segunda-feira, 31 de julho de 2017

Violência urbana (#28)

Fotografia Olho de Gato

se uma mulher incomoda muita gente

Fotografia de Lauren Greenfield



se uma mulher incomoda muita gente,

uma mulher incomoda
é interditada
levada para o depósito
das mulheres que incomodam

loucas louquinhas
tantãs da cabeça
ataduras banhos frios
descargas elétricas

são porcas permanentes
mas como descobrem os maridos
enriquecidos subitamente
as porcas loucas trancafiadas
são muito convenientes

interna, enterra
Angélica Freitas


domingo, 30 de julho de 2017

O senhor Maduro e o "professor" Boaventura

Fotografia Olho de Gato

1. 
Senhor Nicolás Maduro, a eleição da Assembleia Constituinte que promove hoje é uma palhaçada anti-democrática e mais um passo a caminho do abismo.

2.
"Professor" Boaventura Sousa Santos, o sr. é professor exactamente de quê?* 

"Professor" Boaventura Sousa Santos, o sr. ainda defende o regime autoritário que levou a Venezuela à hiperinflação e que bate e prende eleitos

"Professor" Boaventura Sousa Santos, o sr. ainda defende o regime que derreteu, durante os anos que leva de poder, US$ 2 000 000 000 000 de proventos petrolíferos 
(o equivalente a 30 bancarrotas socráticas) e tem o povo com fome?

* Créditos a Joaquim Vieira

Violência urbana (#27)

Fotografia Olho de Gato

Pequenos crimes entre amigos

Desenho de Panteha Abareshi

Se um dia me pedires,
juro que te empresto
o meu coração, tal como
guardei na boca o pequeno deus
que te trazia tão curioso.
A sério. Deixo-te tocar nele,
sentir-lhe o peso, atirá-lo
contra a parede para depois
o apanhares e retirares a pele
de pêssego demasiado maduro.

Podes até queimá-lo -
com cuidado, por favor -
quando estiver mais frio;
ou enterrares os restos debaixo
das estrelícias, de propósito
por saberes que não as suporto.
Em troca, promete-me apenas
que depois me deixas fugir
para saber como é isso de
passar o resto da vida desembaraçada
finalmente desse peso morto.
Inês Dias


sábado, 29 de julho de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#154)

Fundo de desemprego

Fotografia de Alessandro Zuek Simonetti



Uma borboleta, um colar de coral
o rapaz não quer saber de competência.
Está por agora aqui
amanhã pode sentar-se noutro lado
não tem opinião sobre coisa nenhuma
e nada nem ninguém o desconvocam
do seu concílio com a indiferença.
Veio de Colónia e na volta é semelhante
suprimiu hamburguers
com pescadores ao lado.
O resvale da tarde sobre rochas
não lhe prega na alma
precipícios.
Um ocaso onde há melancolia
desperta-lhe a contra-gosto
recessões
e perde tempo a descobrir ao sol
a loura rapariga inanimada
enquanto apalpa
na bolsinha a erva.
No outro dia é com resignação
que se saúdam
e a tarde nos contunde
mineral.
Fátima Maldonado


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Tirar a voz*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Os estados de direito têm pesos e contra-pesos para que a força gravitacional dos governos não funcione como um buraco negro que suga tudo. Os países precisam de oposições fortes, órgãos de comunicação social actuantes e tribunais independentes para que sejam travadas as tentativas de abuso. Quando um partido populista chega ao governo, o nível de alerta tem que aumentar.

Na Polónia, o partido nacionalista no poder — o Partido da Lei e da Justiça — aprovou no final da semana passada três leis que pretendiam acabar com a independência dos tribunais colocando debaixo do controlo governamental o Supremo Tribunal, o Conselho Nacional Judiciário (um órgão independente de escolha dos juízes nacionais) e a escolha dos juízes dos tribunais menores.

A reacção dos polacos contra este ataque sem precedentes ao alicerces da sua democracia foi memorável. Milhares e milhares vieram para a rua com um slogan poderoso “3xNie” — “três vezes não”, ... 
... escrito com as letras vermelhas usadas, há 30 anos, pelo Solidariedade, o movimento que derrubou a ditadura comunista.

Foi por isso que o presidente polaco, Andrzej Duda, militante do partido governamental, acabou por vetar duas daquelas três leis: o Supremo Tribunal e o Conselho Nacional Judiciário vão continuar independentes.

2. O governo populista polaco foi parado, o centralismo lisboeta é que ninguém consegue parar.

Estive a ouvir um “briefing (é assim que diz o linguajar oficial) sobre o teatro de operações (idem, idem) em que um porta-voz da protecção civil em Lisboa falava do fogo que estava a acontecer, para os lados de Mação, a duzentos quilómetros. É que agora nenhum operacional no terreno pode falar aos media, o governo arrolhou-lhes a boca.

Perante aquele “teatro comunicativo”, escrevi nas redes sociais: “finalmente há respeito pelos costumes pátrios: temos Lisboa a explicar o país ao país.” A Lisboa já não chega mandar em tudo, agora até já tira a voz ao país.

Resolution and Independence

Fotografia de Maciej Leszczynski


There was a roaring in the wind all night;
The rain came heavily and fell in floods;
But now the sun is rising calm and bright;
The birds are singing in the distant woods;
Over his own sweet voice the Stock-dove broods;
The Jay makes answer as the Magpie chatters;
And all the air is filled with pleasant noise of waters.

All things that love the sun are out of doors;
The sky rejoices in the morning's birth;
The grass is bright with rain-drops;—on the moors
The hare is running races in her mirth;
And with her feet she from the plashy earth
Raises a mist, that, glittering in the sun,
Runs with her all the way, wherever she doth run.

I was a Traveller then upon the moor;
I saw the hare that raced about with joy;
I heard the woods and distant waters roar;
Or heard them not, as happy as a boy:
The pleasant season did my heart employ:
My old remembrances went from me wholly;
And all the ways of men, so vain and melancholy.

But, as it sometimes chanceth, from the might
Of joys in minds that can no further go,
As high as we have mounted in delight
In our dejection do we sink as low;
To me that morning did it happen so;
And fears and fancies thick upon me came;
Dim sadness—and blind thoughts, I knew not, nor could name.

I heard the sky-lark warbling in the sky;
And I bethought me of the playful hare:
Even such a happy Child of earth am I;
Even as these blissful creatures do I fare;
Far from the world I walk, and from all care;
But there may come another day to me—
Solitude, pain of heart, distress, and poverty.

My whole life I have lived in pleasant thought,
As if life's business were a summer mood;
As if all needful things would come unsought
To genial faith, still rich in genial good;
But how can He expect that others should
Build for him, sow for him, and at his call
Love him, who for himself will take no heed at all?

I thought of Chatterton, the marvellous Boy,
The sleepless Soul that perished in his pride;
Of Him who walked in glory and in joy
Following his plough, along the mountain-side:
By our own spirits are we deified:
We Poets in our youth begin in gladness;
But thereof come in the end despondency and madness.

Now, whether it were by peculiar grace,
A leading from above, a something given,
Yet it befell that, in this lonely place,
When I with these untoward thoughts had striven,
Beside a pool bare to the eye of heaven
I saw a Man before me unawares:
The oldest man he seemed that ever wore grey hairs.

As a huge stone is sometimes seen to lie
Couched on the bald top of an eminence;
Wonder to all who do the same espy,
By what means it could thither come, and whence;
So that it seems a thing endued with sense:
Like a sea-beast crawled forth, that on a shelf
Of rock or sand reposeth, there to sun itself;

Such seemed this Man, not all alive nor dead,
Nor all asleep—in his extreme old age:
His body was bent double, feet and head
Coming together in life's pilgrimage;
As if some dire constraint of pain, or rage
Of sickness felt by him in times long past,
A more than human weight upon his frame had cast.




Himself he propped, limbs, body, and pale face,
Upon a long grey staff of shaven wood:
And, still as I drew near with gentle pace,
Upon the margin of that moorish flood
Motionless as a cloud the old Man stood,
That heareth not the loud winds when they call,
And moveth all together, if it move at all.

At length, himself unsettling, he the pond
Stirred with his staff, and fixedly did look
Upon the muddy water, which he conned,
As if he had been reading in a book:
And now a stranger's privilege I took;
And, drawing to his side, to him did say,
"This morning gives us promise of a glorious day."

A gentle answer did the old Man make,
In courteous speech which forth he slowly drew:
And him with further words I thus bespake,
"What occupation do you there pursue?
This is a lonesome place for one like you."
Ere he replied, a flash of mild surprise
Broke from the sable orbs of his yet-vivid eyes.

His words came feebly, from a feeble chest,
But each in solemn order followed each,
With something of a lofty utterance drest—
Choice word and measured phrase, above the reach
Of ordinary men; a stately speech;
Such as grave Livers do in Scotland use,
Religious men, who give to God and man their dues.

He told, that to these waters he had come
To gather leeches, being old and poor:
Employment hazardous and wearisome!
And he had many hardships to endure:
From pond to pond he roamed, from moor to moor;
Housing, with God's good help, by choice or chance;
And in this way he gained an honest maintenance.

The old Man still stood talking by my side;
But now his voice to me was like a stream
Scarce heard; nor word from word could I divide;
And the whole body of the Man did seem
Like one whom I had met with in a dream;
Or like a man from some far region sent,
To give me human strength, by apt admonishment.

My former thoughts returned: the fear that kills;
And hope that is unwilling to be fed;
Cold, pain, and labour, and all fleshly ills;
And mighty Poets in their misery dead.
—Perplexed, and longing to be comforted,
My question eagerly did I renew,
"How is it that you live, and what is it you do?"

He with a smile did then his words repeat;
And said that, gathering leeches, far and wide
He travelled; stirring thus about his feet
The waters of the pools where they abide.
"Once I could meet with them on every side;
But they have dwindled long by slow decay;
Yet still I persevere, and find them where I may."

While he was talking thus, the lonely place,
The old Man's shape, and speech—all troubled me:
In my mind's eye I seemed to see him pace
About the weary moors continually,
Wandering about alone and silently.
While I these thoughts within myself pursued,
He, having made a pause, the same discourse renewed.

And soon with this he other matter blended,
Cheerfully uttered, with demeanour kind,
But stately in the main; and, when he ended,
I could have laughed myself to scorn to find
In that decrepit Man so firm a mind.
"God," said I, "be my help and stay secure;
I'll think of the Leech-gatherer on the lonely moor!"
William Wordsworth



quinta-feira, 27 de julho de 2017

Esquecimento

Pintura de Ma Jing Hu



A recordação é uma forma de reencontro.
O esquecimento é uma forma de liberdade.
Khalil Gibran







quarta-feira, 26 de julho de 2017

Semi-splendid

Daqui

You flinch. Something flickers, not fleeing your face. My
Heart hammers at the ceiling, telling my tongue
To turn it down. Too late. The something climbs, leaps, is
Falling now across us like the prank of an icy, brainy
Lord. I chose the wrong word. I am wrong for not choosing
Merely to smile, to pull you toward me and away from
What you think of as that other me, who wanders lost among ...    
Among whom? The many? The rare? I wish you didn’t care.

I watch you watching her. Her very shadow is a rage
That trashes the rooms of your eyes. Do you claim surprise
At what she wants, the poor girl, pelted with despair,
Who flits from grief to grief? Isn’t it you she seeks? And
If you blame her, know that she blames you for choosing
Not her, but me. Love is never fair. But do we — should we — care?
Tracy K. Smith


terça-feira, 25 de julho de 2017

Metamorfose fluvial



Estas são as mulheres, levando
nas mãos os castiçais de fogo da sua manhã,
subindo uma escada de silêncio para dentro
das casas de onde vieram, empurrando
as portas dos rios mais fundos para entrarem
nos palácios do abismo, e os iluminarem
com as lâmpadas nuas dos seus corpos. Ouço
as suas vozes crescerem no interior
dos montes, num fulgor amarelo de flores
vagarosas como as mãos que nascem
dos seus braços. Estas mulheres são imensas
como as nuvens que atravessam a paisagem,
e escrevem na página do céu o nome
dos deuses que as amaram, transformando-as
em árvores, em astros, em animais
incalculáveis num prado breve como
a sua eternidade. Dizem-me que as suas vozes
são roucas, que os seus cabelos cobrem
os arvoredos do horizonte, que os seus dedos
contam os amantes na exaustão da madrugada. E
empurro-as para o corredor da memória,
para que se percam numa vociferação de sombras,
como se não soubessem o caminho do átrio
onde as espero, e não viessem tapadas
por um manto de orvalho, gota a gota escorrendo
dos seus lábios.
Nuno Júdice




segunda-feira, 24 de julho de 2017

Chão

Fotografia de Amanda Charchian

Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.
Daniel Faria




domingo, 23 de julho de 2017

Outra sua

Fotografia de Angela Boatwright



É gram pena de sofrer,
é gram mal de consentir
haver sempre de fengir
a quem quero nam querer.

E por força demonstrar
a contra do que me praz,
porque mais dano me traz
descobrir que me calar.
Em tal caso de sofrer
me convem, por encobrir
meu desejo, por fengir,
a quem quero nam querer.
Diogo Marquam




sábado, 22 de julho de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#153)

Fazer um vinil:

Primeira meditação

Daqui



És a única árvore no mundo que recusa
crescer em direcção à luz. Em vez disso enterras-te
com raízes cada vez mais profundas,
camada de terra após camada, tempo passado,
rumo ao calor, e calculas já estar a meio caminho.
Depressa deixas de sentir as toupeiras, minhocas
ou raízes de outros seres, tetra-cego das cavernas
na sua noite infinita. O frio é cada vez maior.
Não sabes se consegues crescer a distância necessária
para encontrares o magma. Estás só, mas a caminho.
Ingmar Heytze
Trad.: Maria Leonor Raven-Gomes


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Comissões de festas*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Se não fossem os outdoors que espreitam os automobilistas nas rotundas, nem parecia que estamos a pouco mais de dois meses das eleições autárquicas.

É verdade que está aí outra vez o clássico tremer de pernas das candidaturas que, de quatro em quatro anos, engarrafam os tribunais com queixas sobre os adversários, mas isso já não comove ninguém.

É verdade que, como sintetizou um amigo meu no Facebook, os autarcas de todas as cores estão a descarregar neste ano eleitoral doses maciças de “eventos”, os órgãos municipais parecem-se, cada vez mais, com “comissões de festas”.

Como já se devia saber depois da Expo 98 ou do Euro 2004, nada de estrutural ou positivo vem desta azáfama de “eventos”, borliantes ou não, pagos, no todo ou em parte, com o IRS que as câmaras não devolvem aos seus munícipes.

A câmara PSD de Viseu navega nestas águas, os socialistas nestas águas navegam. À falta de melhor, a candidata socialista, como não consegue pensar fora da caixa de propaganda da dupla Jorge Sobrado/António Almeida Henriques, até já propõe uma espécie de novo “ano-oficial-para-visitar-Viseu” em... 2027. Isto é, vai dando umas ideias não para o que o concelho precisa no presente, mas para um futuro distante que finalmente se acerte com a ausência de pressa de João Paulo Rebelo.

2. O PCP fez uma manif de apoio ao ditador venezuelano Nicolás Maduro abrilhantada com a presença da banda do exército.

“Viva Maduro!”, foi gritado por um coro de que fez parte o deputado João Oliveira. Para que conste. E não esqueça.

3. O chefe de estado maior general das forças armadas veio afirmar nas televisões que o material roubado em Tancos com “mais significado em termos de potencial de perigo” era quase sucata, sem condições para ser usado “com eficácia.”

Nas imagens, a ladear o general Artur Pina Monteiro, o primeiro-ministro e o ministro da defesa. Foi mais...
... “um soco no estômago” dos portugueses, ao verem-se a ser tomados, desta maneira, por estúpidos.

Serenidade és minha





À memória de Fernando Pessoa

Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humanidade das bocas.

Vem serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.

Vem serenidade,
com o país veloz e virginal das ondas,
com o martírio leve dos amantes sem Deus,
com o cheiro sensual das pernas no cinema,
com o vinho e as uvas e o frémito das virgens,
com o macio ventre das mulheres violadas,
com os filhos que os pais amaldiçoam,
com as lanternas postas à beira dos abismos,
e os segredos e os ninhos e o feno
e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo,
com Deus molhando os olhos
e as esperanças dos pobres.

Vem, serenidade,
com a paz e a guerra
derrubar as selvagens
florestas do instinto.

Vem, e levanta
palácios na sombra.
Tem a paciência de quem deixa entre os lábios
um espaço absoluto.

Vem, e desponta,
oriunda dos mares,
orquídea fresca das noites vagabundas,
serena espécie de contentamento,
surpresa, plenitude.

Vem dos prédios sem almas e sem luzes,
dos números irreais de todas as semanas,
dos caixeiros sem cor e sem família,
das flores que rebentam nas mãos dos namorados,
dos bancos que os jardins afogam no silêncio,
das jarras que os marujos trazem sempre da China,
dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam
a chegada da força e da vertigem.

Vem, serenidade,
e põe no peito sujo dos ladrões
a cruz dos crimes sem cadeia,
põe na boca dos pobres o pão que eles precisam,
põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.
Vem nos bicos dos pés para junto dos berços,
para junto das campas dos jovens que morreram,
para junto das artérias que servem
de campo para o trigo, de mar para os navios.

Vem, serenidade!
E do salgado bojo das tuas naus felizes
despeja a confiança,
a grande confiança.
Grande como os teus braços,
grande serenidade!

E põe teus pés na terra,
e deixa que outras vozes
se comovam contigo
no Outono, no Inverno,
no Verão, na Primavera.

Vem, serenidade,
para que não se fale
nem de paz nem de guerra nem de Deus,
porque foi tudo junto
e guardado e levado
para a casa dos homens.

Vem, serenidade,
vem com a madrugada,
vem com os anjos de oiro que fugiram da Lua,
com as nuvens que proíbem o céu,
vem com o nevoeiro.

Vem com as meretrizes que chamam da janela,
volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.

Vem serenidade,
e lembra-te de nós,
que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio,
um sítio aonde a morte tem todos os direitos.

Lembra-te da miséria dourada dos meus versos,
desta roupa de imagens que me cobre
corpo silencioso,
das noites que passei perseguindo uma estrela,
do hálito, da fome, da doença, do crime,
com que dou vida e morte
a mim próprio e aos outros.

Vem serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vício de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.

Vem, serenidade,
não apagues ainda
a lâmpada que forra
os cantos do meu quarto,
papel com que embrulho meus rios de aventura
em que vai navegando o futuro.

Vem, serenidade!
E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe,
mais húmida que a pele marítima da cais,
mais branca que o soluço, o silêncio, a origem,
mais livre que uma ave em seu voo,
mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo,
mais humana e alegre que o sorriso das noivas,
do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.

Vem serenidade,
para perto de mim e para nunca.




… … ... … ... … … … … … … … … … … … … … … 


De manhã, quando as carroças de hortaliça
chiam por dentro da lisa e sonolenta
tarefa terminada,
quando um ramo de flores matinais
é uma ofensa ao nosso limitado horizonte,
quando os astros entregam ao carteiro surpreendido
mais um postal da esperança enigmática,
quando os tacões furados pelos relógios podres,
pelas tardes por trás das grades e dos muros,
pelas convencionais visitas aos enfermos,
formam, em densos ângulos de humano desespero,
uma nuvem que aumenta a vã periferia
que rodeia a cidade,
é então que eu peço como quem pede amor:
Vem serenidade!
Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis,
vem, serenidade!

Com as horas maiúsculas do cio,
com os músculos inchados da preguiça,
vem, serenidade!

Vem, com o perturbante mistério dos cabelos,
o riso que não é da boca nem dos dentes
mas que se espalha, inteiro,
num corpo alucinado de bandeira.

Vem serenidade,
antes que os passos da noite vigilante
arranquem as primeiras unhas da madrugada,
antes que as ruas cheias de corações de gás
se percam no fantástico cenário da cidade,
antes que, nos pés dormentes dos pedintes,
a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos,
a revolta semeie florestas de gritos
e a raiva vá partir as amarras diárias.

Vem, serenidade,
leva-me num vagão de mercadorias,
num convés de algodão e borracha e madeira,
na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes,
na carnívora concha do sono.

Leva-me para longe
deste bíblico espaço,
desta confusão abúlica dos mitos,
deste enorme pulmão de silêncio e vergonha.
Longe das sentinelas de mármore
que exigem passaporte a quem passa.
A bordo, no porão,
conversando com velhos tripulantes descalços,
crianças criminosas fugidas à polícia,
moços contrabandistas, negociantes mouros,
emigrados políticos que vão
em busca da perdida liberdade.
Vem, serenidade
e leva-me contigo.

Com ciganos comendo amoras e limões,
e música de harmónio, e ciúme, e vinganças,
e subindo nos ares o livre e musical
facho rubro que une os seios da terra ao Sol.

Vem, serenidade!
Os comboios nos esperam.
Há famílias inteiras com o jantar na mesa,
aguardando que batam, que empurrem, que irrompam
pela porta levíssima,
e que a porta se abra e por ela se entornem
os frutos e a justiça.

Serenidade, eu rezo:
Acorda minha mãe quando ela dorme,
quando ela tem no rosto a solidão completa
de quem passou a noite perguntando por mim,
de quem perdeu de vista o meu destino.

Ajuda-me a cumprir a missão de poeta,
a confundir, numa só e lúcida claridade,
a palavra esquecida no coração do homem.

Vem serenidade
absolve os vencidos,
regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos
e dá-lhes nomes novos,
novos ventos, novos portos, novos pulsos.

E recorda comigo o barulho das ondas,
as mentiras da fé, os amigos medrosos,
os assombros da Índia imaginada,
o espanto aprendiz da nossa fala,
ainda nossa, ainda bela, ainda livre
destes montes altíssimos que tapam
as veias ao Oceano.

Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes, só de ver
que a beleza não nasce dia a dia na terra.
E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exacta
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.

E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caos e carne nos espectros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome,
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros,
na chaminé do sangue.

Serenidade, assiste
à multiplicação original do Mundo:
Um manto terníssimo de espuma,
um ninho de corais, de limos, de cabelos,
um universo de algas despidas e retrácteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.

Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta, do inesperado abrigo.

Vem, com teu frio de esquecimento,
com a tua alucinante e alucinada mão,
e põe, no religioso ofício do poema,
a alegria, a fé, os milagres, a luz!

Vem, e defende-me
da traição dos encontros,
do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais
absoluto e eterno
para ser meu, que o amo.

Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente
Serenidade, és minha.
Raul de Carvalho




quinta-feira, 20 de julho de 2017

Métodos*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Julho de 2007


1. É um vídeo de dois minutos e cinquenta e um segundos, intitulado “Rock” que já foi visto quase 200 mil vezes no YouTube. Nele, um homem olha fixamente a câmara fixa. Olha para nós, portanto. Vêem-se umas árvores e um lago no enquadramento. O homem olha-nos, estático. Ouve-se barulho de tráfego. Uma mulher de óculos escuros passa atrás dele. Imperturbável, ele continua a olhar-nos; fica assim durante mais de um minuto; depois, vira-nos as costas, dá uns passos, agarra numa pedra e atira-a, com estrépito, para as águas do lago. O homem afasta-se. No écran forma-se a mensagem: “gravel2008.us”. A água passa do sossego para o desassossego. A superfície do lago fica encrespada. Vêem-se pregas concêntricas a fluírem e refluírem. O homem continua a afastar-se. Cada vez mais longe. Não é dita uma palavra.

O protagonista de “Rock” é Mike Gravel, candidato presidencial do Partido Democrático. Este zen de comunicação política pode ser visto em www.youtube.com/watch?v=0rZdAB4V_j8:



2. Durante a campanha para a Câmara de Lisboa, Paulo Portas levou em cima com uma história “jornalística” muito mal parida sobre submarinos e Marques Mendes foi atingido com lama proveniente de Oeiras acerca dumas senhas de presença.

Resultado: lá tivemos o sempiterno José Junqueiro a fazer a figura do costume nas televisões e nos jornais.

3. A jornalista Sandra Ferreira, do jornal As Beiras, perguntou a Jorge Carvalho: “Como faz a escolha dos artistas?”

Resposta do gerente e programador da Feira de S. Mateus: “Vou procurando, vejo os discos que são mais vendidos, falo com os jovens para ver quem está na berra. A minha neta também me dá umas dicas.”

Pois é: quando se conhecem os métodos, percebem-se melhor os resultados.

Horizonte imediato

Fotografia de George Webber

Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave

surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
António Ramos Rosa


quarta-feira, 19 de julho de 2017

The weighing

Fotografia de David Goldblatt

The heart’s reasons
seen clearly,
even the hardest
will carry
its whip-marks and sadness
and must be forgiven.

As the drought-starved
eland forgives
the drought-starved lion
who finally takes her,
enters willingly then
the life she cannot refuse,
and is lion, is fed,
and does not remember the other.

So few grains of happiness
measured against all the dark
and still the scales balance.

The world asks of us
only the strength we have and we give it.
Then it asks more, and we give it.
Jane Hirshfield



terça-feira, 18 de julho de 2017

Mulher



Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,
despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu
da madrugada
Nuno Júdice

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A leitora



A leitora abre o espaço num sopro subtil.
Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.
António Ramos Rosa



domingo, 16 de julho de 2017

Bastards

Daqui



And I’m sure I’ll kiss my share of frogs
Before my time is done
The world is full of bastards
And I’ve date everyone


sábado, 15 de julho de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#152)

Amiga é um termo dúbio

Daqui


Ontem as águas estavam serenas
Mantinham a distância certa
Éramos cúmplices apenas
Sem ter o coração alerta

Amiga era um sentimento
Sem fazer calor nem frio
Tudo entre nós era simples
Como as coisas em pousio

Foi qualquer gesto que fizeste
Qualquer coisa que disseste
Que mudou a situação

Amo-te sem dares por nada
Eu próprio não dou por isso
Cada olhar cada risada
É um terreno movediço

Dou passos de sapador
Tão assustado e confuso
Nesse campo minado do amor
Sou o mais vulgar intruso

Foi qualquer gesto que fizeste
Qualquer coisa que disseste
Que mudou a situação

Amiga é um termo dúbio
Desses que a língua contém
Vê-se a linha de fronteira
Dá-se um passo e está-se em terra de ninguém
Rui Veloso


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Califado

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Na passada terça-feira, foi dada como “informação confirmada” a morte do líder do Daesh, Abu Baqr al-Baghdadi.

Nascido em 1971, al-Baghdadi dizia-se descendente directo de Maomé. Como conta Loretta Napoleoni no seu livro “A Fénix Islâmica, o Estado Islâmico e a Reconfiguração do Médio Oriente”, o Estado Islâmico quando se auto-proclamou califado, em 2014, ocupava uma área maior do que a do Reino Unido e era uma bem sucedida encarnação do radicalismo sunita, de aparência medieval mas que usava com mestria as ferramentas da globalização e as modernas tecnologias.

Apesar de nunca ter atingido os níveis de riqueza da OLP, o Estado Islâmico no seu apogeu angariava dois milhões de dólares por dia na venda de petróleo, a que se somavam taxas a empresas, rendas obtidas pelo controlo de barragens, vendas de armas e contrabando variado (essencialmente para a Turquia e o Iraque). Foi descoberto por acaso um “relatório e contas anual” do Daesh, um documento meticuloso que chegava ao registo em “pormenor do custo de cada missão suicida”, elaborado “de acordo com as mais sofisticadas técnicas de contabilidade”. Ao fim e ao cabo, al-Bagdhadi dirigia uma multinacional terrorista com a pragmática de “uma multinacional pujante e legítima.”

Para já, duas ideias para estes dias que parecem ser do fim do Daesh:
— o califado - enquanto nostalgia e mitificação do Estado Islâmico original do século VII - vai ressurgir com outra pele qualquer;
— o sectarismo que impede a paz e a coexistência étnica e religiosa no Médio Oriente já tem um próximo episódio anunciado para 25 de Setembro, se o líder curdo Masoud Barzan teimar com a ideia de fazer um referendo independentista naquele dia.

2. Esta coluna saúda a eleição do novo presidente do Instituto Politécnico de Viseu.


João Luís Monney Paiva vai ter agora que normalizar as relações do IPV com as câmaras de Viseu e Lamego, relações que foram afectadas durante este longo processo eleitoral.

Do not stand at my grave and weep

Daqui



Do not stand at my grave and weep,
I am not there, I do not sleep.
I am in a thousand winds that blow,
I am the softly falling snow.
I am the gentle showers of rain,
I am the fields of ripening grain.
I am in the morning hush,
I am in the graceful rush
Of beautiful birds in circling flight,
I am the starshine of the night.
I am in the flowers that bloom,
I am in a quiet room.
I am in the birds that sing,
I am in each lovely thing.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there. I do not die.
Mary Elizabeth Frye