quinta-feira, 31 de agosto de 2017

IRS*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 31 de Agosto de 2007

1. O casal McCann está a preparar-se para regressar ao seu país, depois de mais de cem dias e cem noites de sofrimento no Algarve. E é, de certeza, à noite que a dor daqueles pais é mais excruciante.

Quando Gerry aparece na televisão de mão dada a Kate, e esta com o peluche de Maddie e toda a tristeza do mundo na cara, lembro-me sempre das páginas de “A Criança no Tempo”, obra-prima de Ian McEwan (Ed. Gradiva). Nesta novela de 1987, a personagem principal, Stephen Lewis, um escritor de livros juvenis, vê a sua vida despedaçada quando a sua filha de três anos desaparece num supermercado. Depois - passado o tempo em que a dor paralisa tudo - ele e a mulher cerram os dentes, respiram fundo, e o livro de McEwan acaba numa epifania.


Daqui
2. Nicolau Santos escreveu, num artigo publicado na última edição do Jornal do Centro, que metade das famílias portuguesas não pagam IRS porque, segundo números de 2005, “dois milhões de agregados familiares recebem em média menos de 4544 [euros] brutos anualmente”. E disse ainda que a fuga ao fisco “é cada vez menor e cada vez menos escandalosa”.

Em consequência, o Director Adjunto do Expresso defendeu mais dois escalões de IRS: um de 45% e outro de 50%. Esta ideia é popular já que as pessoas gostam de ver o chicote fiscal a zurzir em quem ganha muito. Contudo, não é uma boa ideia: o que precisamos é dum governo pequeno e moderado nos impostos.


*****

Sentado na esplanada do Irish Bar no centro histórico de Viseu, observo os carros que passam: nem um Mercedes, nem um Audi, nem um Bê-Éme. Jaguares? Nada. Descapotáveis? Népias!

É um fluxo contínuo de chassos velhos, com um valor comercial compatível com as declarações de IRS de 2005, a encherem de óxido de azoto os pulmões das pessoas.

Violência urbana (#29)


Mismatches

Fotografia de Sucheta Das

What need I be so forward with him
that calls not on me?
William Shakespeare
Henrique IV

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Ao (des)abandono

Fotografia de Wawi Navarroza


Sento-me no café com o meu caderno de apontamentos e as ideias a girar. Está imenso frio e com o piloto automático ligado, abano o pequeno pacote que retiro do pires e o açúcar salta para cima de mim e gira à minha volta. Um casal de pé ao balcão farta-se de rir da minha figura a sacudir o açúcar por todo o lado. Deve andar por aí um anjo que me fura os pacotes porque me quer ver elegante e bonita.
Maria João Lopes Fernandes




terça-feira, 29 de agosto de 2017

Paragem

Fotografia de Khaled Hasan


Assenta as tuas mãos sobre os meus ombros
e conduz-me.
Só os lábios respiram dentro de mim.
Só o mar murmura sobre as nossas costas.

As nossas costas parecem meias-luas
fechadas sobre nós neste momento.
Ouvimo-nos, apoiados um no outro.
Os dois somos aqui vida dupla.

No ar aberto, protegemos com as costas
o que roubámos ao mundo,
como se protege o fogo com as mãos,
ausentes, indiferentes,
à comédia.

Se é verdade que há uma alma em cada célula,
então abre-te a mim
porque sinto enleadas nos meus poros
as almas que ainda agora te roubei.

E tudo é a evidência do mistério.
Será mesmo possível que algum silvo
nos solte como estátuas mudas
como conchas que não sabem gritar?

Por ora, pesa sobre os nossos ombros,
o fardo da desordem.
Assim estamos unidos.

Assim dormimos.
Andrei Voznessenski
Versão de Armando da Silva Carvalho

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Woman in arms

Karen Finley is a New York-based performance artist, musician and poet, whose raw and transgressive work on sexuality and disenfranchisement has provoked controversy and debate for over three decades.










domingo, 27 de agosto de 2017

Meio homem inteiro

Daqui


Meia selha de lágrimas.
Meio copo de água
Meia tigela de sal
Meio homem de mágoa.
Meio coração destroçado
Meia dor a sofrer.
Meio ser enganado
Num homem inteiro a morrer.
Rogério Simões






sábado, 26 de agosto de 2017

Sozinho

Pintura de John Wentz 


Às vezes no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado
Juntando o antes, o agora e o depois

Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho

Não sou nem quero ser o seu dono
É que um carinho às vezes cai bem
Eu tenho meus desejos e planos secretos
Só abro pra você mais ninguém

Por que você me esquece e some?
E se eu me interessar por alguém?
E se ela, de repente, me ganha?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?

Quando a gente gosta
É claro que a gente cuida
Fala que me ama
Só que é da boca pra fora

Ou você me engana
Ou não está madura
Onde está você agora?
Peninha e António Carlos Carvalho










"Pobre" é literal
:-)

"And Now For Something Completely Different" (#158)


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Cartazes*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. As eleições autárquicas são “a” festa da democracia, festa com dezenas e dezenas e dezenas de milhares de candidatos às freguesias, às assembleias municipais e às câmaras.

O poder local democrático é lugar de aprendizagem e de realização cívica, é nele que reside a solidez da nossa democracia. Não é a primeira vez que faço aqui este merecido elogio ao poder mais próximo dos cidadãos e que melhor lhes responde.

O poder local fez um trabalho formidável de infra-estruturação do país, com menos de dez por cento do orçamento de estado. Embora haja algumas câmaras falidas, a dívida global das autarquias não é preocupante e tem vindo a ser diminuída nos últimos anos, ao contrário da dívida do estado central que é o que se vê: mês após mês, upa-upa.

2. A cinco semanas das eleições autárquicas, a única ferramenta de propaganda que tenta chegar às pessoas continua a ser o cartaz de rua — o cartaz de rotunda, na maior parte dos casos.

Ora, nestes tempos wiki em que toda a gente está a produzir informação para toda a gente nas redes sociais, o outdoor é inútil e politicamente perigoso. Não ganha um voto mas pode fazer perder muitos.

É que há uma guerra entre os marqueteiros da política e um exército à solta, de telemóvel em punho, pronto a transformar qualquer mensagem política num “tesourinho” risível. Não lhe tem faltado matéria-prima.

A política é atirada para o lugar da galhofa e, a seguir, os media escritos ou falados pouco mais fazem com impacto do que ruminar os casos que, como eles dizem, “estão a incendiar as redes sociais”.


Fotografia de Cecília Pereira
publicada em Tesourinhos das Autárquicas 2017
Quando, acabadinho de regressar de férias, o Governo Sombra vai a uma página de “tesourinhos” do Facebook buscar cartazes e pede ao público para ir virando os polegares para cima ou para baixo (gosto/não-gosto), o excelente programa da TVI está a dizer o óbvio: as eleições, agora, são coisa de redes sociais e não de grandes rectângulos photoshopados ao derredor das rotundas.

Subida aos céus

Fotografia de Mario Cravo Neto



Quero ser amada só por mim e não por andar enfeitada, ser adorada mesmo assim, careca, nua, descarnada. Com perfumes a presa é fácil, com jóias, casacos de peles - gosto do amor quando é difícil e cheiro o meu hálito reles. Quero ser amada à flor da pele, não quero peles de vison; amada pelo sabor a mel e não pela côr do baton. Com cabeleira a presa é fácil, há quem se esconda atrás dos pêlos - gosto do amor quando é difícil e ser amada sem cabelos. Quero que me beijem a caveira e o meu ossinho parietal, que se afoguem na banheira pelo meu belo occipital. Com carne viva a presa é fácil, é ordinário e obsoleto - gosto do amor quando é difícil, quando me aquecem o esqueleto. Quero ser amada pela morte, pelos meus ossos de luar; quero que os cães da minha corte passem as noites a ladrar. Engano de alma ledo e cego, ó linda Inês posta em sossego imortal… diz adeus; sobe aos céus.
Regina Guimarães


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Os dias de verão

Fotografia de Tania Leshkina


Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo

Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo

O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem

Como se em tudo aflorasse eternidade

Justa é a forma do nosso corpo
Sophia de Mello Breyner Andresen


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

terça-feira, 22 de agosto de 2017

El doble

Pintura de Suyeon Na



Hay un problema entre nosotros: tú
sonríes a los gatos por la calle,
mientras yo cruzo los dedos y les temo
su memoria salvaje.

Pasan rostros anónimos y tú
les vas poniendo nombres y señales,
yo en cambio me descuido entre las nubes
y silbo si me place.

Hay un problema entre nosotros: tú
vives dentro de mí y eso es muy grave.
Alberto Vega


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Amor à paisana




suba e desça uma paisagem inteira
componha versos à beira d'água
mergulhe cinzas num balde de
almas

enlouqueça as ideias mais estáveis

e
antes de descansar
meça a intensidade
do rosto que ficou
e da força que te puxa
para o centro do mundo
Dora Ribeiro


sábado, 19 de agosto de 2017

Pussy*

* Parte II — sequela deste post de há uma semana



I wanna see your pussy - everybody says it's nice
Can I come and visit - I'll be at your house tonight
They tell me it's soft to touch and really smooth
I can hardly wait to feel that pussy too
You wanna play with pussy all the time
To hide that kinda pussy is a crime
You say your pussy's clever and so slick
But I think that your pussy's kinda sick

I wanna bet your pussy ain't as pretty as mine
I don't hide my pussy like you do all the time
My pussy's just the sweetest thing that you've ever seen
Compared to mine your pussy's really ugly and mean
I bring my pussy everywhere I go
To watch my little pussy is a show
You say your pussy's clever and so slick
But I think that your pussy's really thick
She turns into a tiger when she's ready to eat
My pussy's always hungry for a big chunk of meat
So lay your little pussy right next to mine
You can bring her over round dinnertime
My pussy is the hippest thing around
She's always been the talk of the town
You say your pussy's clever and so slick
But I think that your pussy's mighty thick (miauw, baby)

I wanna see your pussy show it to me
Let me see your pussy show it to me
Show me your pussy show it to me
I wanna pet your pussy show it to me

Lords Of Acid  
Jade 4 U (Nikkie van Lierop), Oliver Adams 
& Praga Khan (Joseph Francois Engelen)




"And Now For Something Completely Different" (#157)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

As listas*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Já são conhecidos todos os candidatos à presidência das câmaras municipais do distrito de Viseu: oitenta homens e doze mulheres vão dar a cara por oito partidos e cinco movimentos independentes.

Só há dois partidos a concorrerem a todos os vinte e quatro municípios — o PSD e a CDU. O PS falha este pleno: não concorre em S. João da Pesqueira e no Sátão.

Na luta surda entre os dois partidos mais à esquerda da geringonça, a CDU impressionou com as suas vinte e quatro candidaturas, enquanto o Bloco surpreendeu pela negativa, ao concorrer só em Viseu e Lamego.

Há quatro concelhos que vão ter de certeza novos presidentes da câmara, já que os que estão em exercício não vão a votos: em Lamego, Oliveira de Frades e Sátão, por limite de mandatos dos titulares, e em S. João da Pesqueira porque o actual presidente não concorre.

Como os eleitorados costumam reconduzir os candidatos incumbentes, na noite de 1 de Outubro haverá no máximo meia dúzia de caras novas.

2. As câmaras estão cada vez mais nas mãos dos presidentes, que resistem até a uma maioria hostil de vereadores, como se viu nos últimos anos em Lamego e Nelas.

Esse poder dos presidentes vê-se também na feitura das listas — eles vão buscar quem querem para a vereação sem ligarem peva aos seus partidos.

O caso da inclusão de Jorge Sobrado na lista de Almeida Henriques ilustra bem esta ideia. O mesmo aconteceu em Tondela: José António Jesus convidou Miguel Torres, um homem de esquerda, pela sua competência na área da cultura, e esteve-se nas tintas para os laranjinhas locais.

3. O “dinossauro” da câmara do Sátão, Alexandre Vaz, aproveitou uma imperfeição da lei da limitação de mandatos para se encaixar na lista. Como não pode ser o número um, vai como número dois.

Esta alapação...
... diz tudo de quem a faz e deixa à mostra a falta de princípios de quem a deixa fazer. É uma vergonha, Pedro Alves. É uma vergonha, Pedro Passos Coelho.

Lição de política




Eles olham para a direita e ... pisca, pisca...
Eles olham para a esquerda e ... pisca, pisca...


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Coisas boas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Agosto de 2007


1. “Aquecimento global”? Nada disso! Este Verão é mais “arrefecimento global”. Vêm dois dias de calor e, logo a seguir, vêm quatro frescos. Verão bom! As casas de persianas para cima. Sem abafação. Sem incêndios, nem sirenes de bombeiros. Pelo menos até agora…

2. É bom ver a ecopista cheia de pessoas, em grupo ou sozinhas. A pedalarem em bicicletas high-tech ou em pasteleiras. 
Daqui

Em marcha acelerada ou a passear. De ténis ou de chanatos. De patins em linha, à procura da linha. De cá para lá, de lá para cá. A fazerem quilómetros. Bom, bom, as pessoas a dizerem «Olá!» e «Boa noite!» aos conhecidos. E aos desconhecidos.


3. Bom é o comboio turístico às voltas em Viseu. Podia ter uma pintura mais bonita, lá isso podia. Não importa. Caiu no goto. Anda sempre cheio. De miúdos e graúdos. A olharem para a cidade um olhar amável.

4. Muita gente, no centro histórico, nas Noites Brancas organizadas pela Associação Comercial. E nas outras noites também.

Foi bom ver os comerciantes a rasparem a ferrugem das rotinas: em vez de carpirem contra, a fazerem por.

5. Bom é termos gasóleo a 99 cêntimos. Ainda há dois meses era tudo pela tabela máxima. Finalmente há alguma concorrência. É precisa mais. Quando abrem as bombas do Retail Park?

6. É bom andar nas “nossas” auto-estradas. Para norte, na A24. Para este ou para a oeste, na A25.

Quanto à estrada para o sul, para Coimbra, é melhor não dizer nada. Este Olho de Gato é só para falar de coisas boas.

Biombos indiscretos

Daqui


Dunas, são como divãs,
Biombos indiscretos de alcatrão sujo
Rasgados por cactos e hortelãs


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Daily Mail



Quem lê este pasquim só pode usar velcro nos sapatos, pois não tem capacidade mental para para dar um nó aos atacadores.
Amanda Palmer

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Laurindinha

Fotografia Olho de Gato


Laurindinha já não sai
perdeu a voz, entristeceu
Rio acima nunca mais
nem arraiais lá em Viseu


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Cosas que me sacan de quicio

Daqui



Que en el supermercado sea yo la única
que se ponga guantes para coger los tomates
y la fruta.
Las espabiladas que intentan colarse.
Que el gilipollas de turno me pregunte si me ha gustado.
Tener que depilarme las axilas.
Ir a ducharme y que no haya agua.
Haberlo organizado todo y que mi jefe
me desbarate los planes en un minuto.
Que algún imbécil me suelte lo de lo nuestro
no puede ser porque eres mucha mujer para
mí y tú te mereces algo mejor.
La regla (cuando viene).
La regla (cuando no viene).
Estar continuamente a dieta y que ni se note.
Los pelos en la bañera.
Los pelos en la cama.
Los pelos.
Seguir viviendo con mis padres.
Que un tío en la discoteca me pregunte la edad que tengo.
La cara que pone cuando se la digo.
Quemarme la lengua con el café.
El pestazo a tabaco en la ropa.
La resaca de los domingos por la mañana.
No acordarme de nada de lo que hice la noche anterior.
La talla de mis pantalones
Que todavía me salgan granos.
Mirarme al espejo y preguntarme para qué coño voy al gimnasio.
Salir siempre en las fotos con los ojos cerrados.
Estas tetazas que tengo.
Que los novios de mis amigas me las miren cuando ellas van al servicio.
Mi nombre.
Los cereales con fibra.
Los cereales bajos en calorías.
Que mi madre me repita cada dos por tres que, como me descuide,
se me va a pasar el arroz.
Saber que encima tiene razón.
Las oposiciones.
Los anuncios de cremas contra la celulitis.
Cumplir años.
Ser incapaz de dejar de echar de menos al cabrón de Miguel.
José María Cumbreño




domingo, 13 de agosto de 2017

O poema

Fotografia de Terry Richardson

As árvores têm o nome de árvores
e a pedra é pedra. Mas a mulher é árvore
e no pátio um sopro: uma lagartixa sem nome.
A mão desliza nos caminhos minúsculos.
A caneta escreve com a saliva das lâmpadas.
Alegria do sono numa virilha obscura.
Alguém escreve na erva e a erva é a sua camisa.
Tudo se traduz: músculos, nervos, papéis.
Come-se a epiderme frágil de um fantasma.
Quem ouve agora a voz cheia de areia?
As palavras agitam-se entre silhuetas esguias.
Dedos acariciam pedras e folhas, ventres.
Fibras e tendões produzem suor e tinta.
O alento das árvores invade os pequenos vocábulos.
Sem língua e sem dedos o poema caminha
num verde corredor para um arbusto de água.
António Ramos Rosa


sábado, 12 de agosto de 2017

Os decibéis da Feira de S. Mateus

Daqui


Depois de já ter estado no Carmo'81, Vasco Ribeiro Casais regressou a Viseu ontem e subiu ao palco grande da Feira de S. Mateus para um concerto "fora de catálogo" (pelo menos, não o tinha visto noticiado e ele disse que tinha sido convidado já esta semana).





Foi interessante a transgeracionalidade e a mistura tecnológica do que foi dado a "ouver". O problema é que ver os vídeos era bom e engraçado, mas era impossível de ouvir durante muito tempo. O som estava tão alto que causava incómodo físico.

Espera-se que haja juízo nos próximos concertos.

Caro Jorge Sobrado, não deixe que os decibéis estraguem o bom trabalho que está a fazer na Feira de S. Mateus, não contribua para a surdez geral dos viseenses.

"And Now For Something Completely Different" (#156)

«expectation leads to disappointment
if we don't expect something big, huge, and exciting
usually»


My girl's pussy

Daqui


There's one pet I like to pet, and every evening we get set.
I stroke it every chance I get, it's my girl's pussy.
Seldom plays and never purrs, and I love the thoughts it stirs.
But I don't mind because it's hers, it's my girl's pussy.
Often it goes out at night, returns at break of dawn.
No matter what the weather's like, it's always nice and warm.
It's never dirty, always clean. In giving thrills, never mean.
But it's the best I've ever seen, it's my girl's pussy.

There's one pet I like to pet, and every evening we get wet.
I stroke it every chance I get, it's my girl's pussy.
Seldom plays, never purrs, and I love thoughts it stirs.
But I don't mind because it's hers, it's my girl's pussy.
So often it goes out at night, and returns at break of dawn, break of dawn.
No matter what the weather's like, it's always dry and warm.
I bring tidbits that it loves, we spoon like two turtledoves.
I take care to remove my gloves, when stroking my girl's pussy.
Harry Roy

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Espírito artesanal*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Mark Mitchell precisou de sete mil horas para retirar a rocha que envolvia o fóssil de 110 milhões de anos de um nodossauro. Este técnico do museu Royal Tyrrell, depois de um trabalho meticuloso, deixou à mostra um herbívoro impressionante, de cinco metros e meio de comprimento, extremamente bem conservado.

Credit: Courtesy of the Royal Tyrrell Museum of Palaeontology,
Drumheller, Canada
Este fóssil, achado numa mina de Alberta, e depois intervencionado no museu de paleontologia daquela província canadiana, tinha até pigmentos da pele e das escamas. O título da notícia da New Atlas — “Fóssil de dinossauro 'a dormir' tão bem preservado que ainda tem pele e escamas” — diz tudo acerca da qualidade daquela “estátua” que vai ser uma estrela daquele museu.

Esta espécie de dinossauro não era conhecida e foi baptizada de Borealopelta markmitchelli em homenagem à dedicação e ao trabalho incansável de Mark Mitchel.

Há aqui uma linha de tempo verdadeiramente excepcional — a uma fossilização hiper-rápida do animal, seguiram-se milhões e milhões de anos de sossego tectónico que o deixou intacto. Depois, a intervenção humana foi, toda ela, virtuosa: em 2011, um operador de máquinas consciencioso sabia o que andava a fazer no fundo de uma mina, e, a seguir, um competente Mark Mitchell dedicou cinco anos e meio da sua vida a este trabalho.

2. Como explica Richard Sennett, em “A Cultura do Novo Capitalismo”, só há uma maneira de tentar resistir ao “espectro da inutilidade” decorrente da gestão mundial da mão-de-obra, do envelhecimento e da automação: é através do “espírito artesanal”, é através do singelo e tão humano “fazer as coisas bem feitas pelo prazer de fazer as coisas bem feitas.”

Nunca nenhum robô fará o trabalho de Mark Mitchell, ou, para dar um exemplo local, nunca nenhum robô fará algo como o magnífico tapete perfumado que Rosi Avelar e Maria João Castro instalaram nos Jardins Efémeros deste ano.

Aperrear



Serás rainha
Serás cruel, talvez
Vais fazer manha
Me aperrear
E eu, sempre mais feliz



Fiquei sabendo da música pela leitura de posts de mulheres no Facebook – posts, vejam vocês, de mulheres reclamando da letra da canção.
Acho que foi a primeira vez na vida que vi mulheres fazendo restrições a Chico Buarque.
(...)
Como falar mal de Chico é tabu, muitas mulheres empoderadas estão vivendo um dilema difícil de resolver, porque engolir a letra de “Tua cantiga” é de lascar.
E haja malabarismo retórico para continuar idolatrando Chico, apesar dele mesmo: “Eu queria gostar. Eu tentei. Não deu”, escreveu uma mulher no Facebook. 

Luciano Trigo,


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor



I
Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.
Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.
Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.


II
Tacteio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.
Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.
Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.
(...)
Hilda Hist




quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Male anxieties

Warning:
hearing that homemade instrument is 
«the musical equivalent of a prostate examination»



terça-feira, 8 de agosto de 2017

Remember

Pintura de Nat Meade 


Remember me when I am gone away,
Gone far away into the silent land;
When you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
You tell me of our future that you plann'd:
Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
And afterwards remember, do not grieve:
For if the darkness and corruption leave
A vestige of the thoughts that once I had,
Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.
Christina Rossetti


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Bebe-a

À Beira do Abismo — The Big Sleep, Howard Hawks (1946)


Diz coisas lindas à tua amada, assim como:
“Tens um corpo de relógio de areia
e a alma como um filme de Hawks”.
Diz-lho baixinho, chegando-lhe os lábios
ao ouvido sem que ninguém
possa ouvir o que lhe digas
(a saber, que suas pernas são foguetes
dirigidos ao centro da terra,
ou que os seis são morada
de um caranguejo marinho, ou que
as suas costas são assim como prata viva).
E quando ela acreditar
e começar a derreter-se nos teus braços
não hesites nem um segundo:
bebe-a.
Luis Alberto de Cuenca


sábado, 5 de agosto de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#155)









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Adenda em 6.8.2017
Sugestões de amigos no FB:



Parte poética

Fotografia de Sally Gall

Não é fácil ser poeta a tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.
José Miguel Silva


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Autárquicas 2017 (#4)*

* Hoje no Jornal do Centro


1. As autárquicas, coitadas, chatinhas como nunca, estão agora nas afinações finais das listas.

A nível nacional não vai acontecer nada de especial. A eventual queda de Pedro Passos Coelho não faz ninguém interromper o bronze. Depois vê-se. De qualquer forma, mesmo que o ex-primeiro-ministro caia, Luís Montenegro será uma pedra pontiaguda no caminho que Rui Rio julgava fácil, e tratará de continuar o passismo sem Passos.

2. Em Setembro do ano passado escrevi aqui o seguinte: “o social-democrata Pedro Alves vai ter pesadelos terríveis com Lamego e o socialista António Borges, insónias com o periclitante presidente que pôs à frente da 'sua' Resende.” Passaram dez longos meses, muita água correu debaixo das pontes do rio Douro, pontes corrupiadas para cá e para lá pelos insones líderes distritais do PSD e do PS.

Um responsável laranja, em declarações a este jornal, já assumiu a derrota em Lamego e pôs-se fora do filme judicial que se adivinha: “seremos oposição e vamos denunciar muitas das coisas que Francisco Lopes fez.”

Derrotado em Lamego, Pedro Alves, agora, já só pode equilibrar as coisas se conseguir tirar Resende a António Borges. Não lhe vai ser fácil, Resende tem sido fiel ao PS e a direita vai a votos dividida. Mas, como Borges arranjou um sucessor que não acerta uma, os laranjas estão a apostar forte.

O último “inconseguimento” do actual presidente da câmara de Resende foi em Caldas de Aregos. António Borges, no seu tempo, prescindiu de milhões das eólicas para apostar forte naquelas termas, o seu sucessor, a seguir, não saiu do sítio, ficou parado à espera de um investidor privado chamado Godot.

3. Já nem em Lamego há reuniões para fazer listas como a que descreveu um “dirigente partidário com responsabilidades nacionais e distritais” a este jornal — uma reunião com pistolas em cima da mesa.

Daqui
A política, agora, tem défice de adrenalina.

Arte poética

Fintan Magee (+ aqui)

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.
Jorge Luis Borges