terça-feira, 31 de outubro de 2017

Tenho humor e vendo-o barato

Por Adam Neate



Tenho humor e vendo-o barato.

Muita gente gosta disto.

Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".

Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
Golgona Anghel



segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Ode ao burguês

Desenho de Willem de Kooning (1966)


Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará sol? Choverá? Arlequinal!
Mas as chuvas dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiuguiri!

Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
— Um colar... — Conto e quinhentos!!!

— Más nós morremos de fome!

Come! Come-te a ti mesmo, oh! Gelatina pasma!
Oh! Purée de batatas morais!
Oh! Cabelos na ventas! Oh! Carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte á infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódios aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!

De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!...
Mário de Andrade










domingo, 29 de outubro de 2017

Love rode 1500 miles

Daqui



Love rode 1500 miles on a grey
hound bus & climbed in my window
one night to surprise
both of us.
the pleasure of that sleepy
shock has lasted a decade
now or more because she is
always still doing it and I am
always still pleased. I do indeed like
aggressive women
who come half a continent
just for me; I am not saying that patience
is virtuous, Love
like anybody else, comes to those who
wait actively
and leave their windows open.
Judy Grahn


sábado, 28 de outubro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#166)

Paragens técnicas na Mealhada



Al olvido se va como se va a la muerte

Fotografia de Lukasz Wierzbowski

I
La palabra,
ebria de contención,
trepó hasta la punta de mi lengua:
Desde ahí se despeñó hacia el silencio

desgarrándolo


II
No encontrarás el camino de vuelta
Tus huellas se fundirán con el sendero
trazado por los que ya se fueron

Los alcanzarás
Abrevarás tu sed como ellos lo hicieron

Te inclinarás ante su orilla
y lo que soy se ahogará en el Leteo

Después de beber olvido
seguirás andando

Yo permaneceré aquí
Con este irresoluto juego de memoria disperso en la mesa

Repitiéndome
— mientras develo cada carta —
que siempre fue igual
que nunca vi a nadie volver de ahí
que al olvido se va
como se va a la muerte.


III
Si pudiéramos todos
encender la palabra
volverla fulgor
llamarada
abrasando nuestros nombre
 nuestros sinos
conquistaríamos juntos
esta tupida trama hecha de tiempo

rompiendo el porvenir y su espesura


IV
Andar por los bordes de esta hoja
sin apuntar el paso hacia su centro
Desarmada
Planeo la estrategia para mi avance:

Sitiar la palabra
Replegarla y cercarla
en ese espacio,
ahora supeditado al silencio

Tomo el lápiz
pero, como una espada,
ahuyenta el verbo posible
Sus flancos se dispersan
y vuelvo a andar por los bordes
masticando esta nueva derrota





V
Anúnciame
Espanta las sombras que ladran a mi paso
y los ojos curiosos que desde los resquicios
me ven andar a tientas
desandando

Alláname el camino
que tropiezo
porque no estaba escrito que volviera

(el polvo sacudido de mi cuerpo
se levanta de nuevo y se me pega)

Anticípame
Nada quiero dejarle a la sorpresa
Salí de mí huyendo de este grito
pero el grito me alcanzaba adonde fuera


VI
Cada día
una parte de mí se derrumba
como aquellas casas viejas
inhóspitas
que se desploman
de tanto contener ausencias

VII
Oí sus pasos
detenerse en la puerta
y lo supuse:

la muerte apuraba el vaso
del que nos bebe a grandes sorbos


VIII
Laxa, me tendí a su espera, arropada por los rincones. Cadenas de atávicos miedos me enlazan a estas escurridizas horas. Sigo esperando. Pero no llega, se demora, entra a otros cuartos, hiela otros cuerpos.
Amanece y comprendo que aquí, anoche, la muerte no tuvo nada que llevarse.







IX
Transcurrió el tiempo prudente
para cualquier visita de cortesía

Me despedí


Enfrente se despobló un espejo



X
No puedo amarte con todo mi corazón:
sus sístoles te anhelan,
sus diástoles te aborrecen.



XI
Un pez pequeño
Trémulo,
Estremece mi pecho.
Cuando quiero atraparlo
sortea mis dedos
y se evade en un río
que pretende seducirme
susurrando los secretos de Ofelia.



XII
Tú,
relato y correlato
de mi lengua.
Yo,
tu apologista.
En un principio fuiste carne
Y te hice verbo.



XIII
Cada tarde
repetimos este infame juego
convocados por la rutina

Tú entonas lamentos
mirándome con tristeza

Yo sacudo de mi vestido las horas
como quien
desesperadamente
intenta deshacerse de un enjambre de insectos.
América Martínez Ferrer



sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Já não sei fazer as pazes... — por JB*

* Comentário de JB ao texto "Céu azul", em dia de greve nas escolas


HOJE:
O Governo pretende eliminar nove anos de serviço dos professores no descongelamento das carreiras. Nem considera uma recuperação faseada. Excluiu-os. E porquê apenas os professores? Por uma questão técnica, diz o Governo.
Nas outras carreiras as pessoas obtêm um ponto por ano até ao número necessário à mudança de categoria e nos professores, diz o Governo, é por menção qualitativa.

A partir do momento em que Maria de Má Memória Lurdes Rodrigues entrou para o Ministério da Educação, deixou de haver democracia nas escolas e o descontentamento dos professores passou a ser uma constante. E tudo com um objectivo: levar os professores à exaustão.

HOJE:
A vacuidade do ministro da Educação é deprimente.
Os Nogueiras e Cª, que andaram a fazer fazer manifs de apoio ao Tiaguinho, deviam ter vergonha da sua actuação sindical, dos últimos anos. Apenas e só negociar lugares de destacamentos nos sindicatos e “amansar” os professores.

Este Governo devia “arrepiar” caminho e não imitar os anteriores. Mas, tudo é negócio, até a municipalização da educação que interessa a todas as câmaras e a todos os presidentes (assunto para outro dia…).

“Já não sei fazer as pazes
Vão Pó [Trabalho] !”




A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

JB

Céu azul*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

Fotografia de JB

1. Há muitos muitos anos, num concurso do Cine Clube de Viseu, apareceu uma fotografia com um camponês inclinado, de aguilhada na mão, a guiar uma junta de vacas que, em esforço, puxava um pesado carro. Por cima, um céu de nuvens dramáticas acentuava a necessidade daquela carga chegar lesta a um abrigo.

Com um céu limpo, a fotografia seria mediana, com aquelas nuvens e a luz que, através delas, se intersticiava por toda a paisagem, a fotografia era sublime. Não me lembro se o júri a premiou. Por mim, ela teria levado o primeiro prémio.

Indo ao ponto: para efeitos fotográficos e não só, paisagem com céu azul é chateza, paisagem com nuvens é o contrário disso.

2. A Cloud Appreciation Society foi fundada em 2004. Esta agremiação mundial de apreciadores/amadores/observadores das nuvens tem um site onde pode ser achado um enérgico manifesto que proclama: "comprometemo-nos a dar combate, sem tréguas, à 'ditadura do céu azul', onde quer que a encontremos, porque a vida tornar-se-ia um tédio sem tamanho se fôssemos condenados à monotonia de um plácido céu sem nuvens." Socorri-me da tradução deste manifesto que o grande José Tolentino Mendonça incluiu num seu texto intitulado, muito a propósito, "Cabeça no ar".

Usando a escala classificativa das Standard & Poor's deste mundo, o céu azul costuma ser cotado com triplo A, enquanto as nuvens lutam para não serem carimbadas como lixo. Só que, como se sabe, as agências de notação não são grande coisa quando postas a dar um retrato do mundo.

3. À excepção de um ou outro risco low cost desenhado no ar pelos aviões, o céu continua azul. Tem estado sempre assim, este aborrecimento azul, ao longo deste ano trágico.

Venham nuvens, muitas nuvens, pedem os megapixéis das nossas máquinas fotografantes. Venham nuvens, muitas nuvens carregadas de água, imploram as nossas exauridas barragens.
Barragem de Fagilde, Outubro de 2017
Fotografia Olho de Gato

Style


Style is knowing who you are, what you want to say, and not giving a damn.
Gore Vidal






quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Bicicleta*

* Publicado há exactamente dez anos, em 26 de Outubro de 2007

1. Jacques Delors, o último presidente a sério da União Europeia, dizia que a “Europa” é como uma bicicleta – é preciso pedalar sempre em frente. Parar de pedalar significa trambolhão.

A “Europa”, de facto, tem pedalado muito. Lembremos os últimos 15 anos, com a ajuda do artigo de João César das Neves “A saga da Constituição Europeia”:
i) 7Fev1992, assinatura do “Tratado de Maastricht”; entrou em vigor em 1Nov1993;
ii) 2Out1997, assinatura do “Tratado de Amsterdão”; vigorou a partir de 1Maio1999;
iii) 26Fev2001, “Tratado de Nice”; em vigor a 1Fev2003;
iv) 29Out2004, assinatura da «Constituição para a Europa»;
v) 29Maio2005, chumbo da Constituição, pelos franceses, em referendo; uma semana depois os holandeses fizeram o mesmo;
vi) Em 13 de Dezembro de 2007, os líderes europeus vão assinar o “Tratado de Lisboa”. Seguir-se-ão as ratificações nos vários países.

2. Assim mesmo: 15 anos, 5 tratados. Delors foi ouvido. Em cima da bicicleta, os líderes europeus não têm parado de pedalar. Boa parte deles até está com medo de ir ao controle anti-doping, que é como quem diz: não quer ouvir os seus cidadãos em referendo.

Apesar de preferir o jogging, José Sócrates mostrou também ter jeito para pedalar a bicicleta europeia. Acaba de ter uma grande vitória diplomática. Sócrates esteve igualmente bem ao não dizer nada quanto à forma de ratificação do Tratado antes da sua assinatura, em Dezembro. O carro nunca antes dos bois.

Penso que o PS deve defender o referendo ao “Tratado de Lisboa”. O PS prometeu isso em campanha eleitoral e os compromissos eleitorais devem ser respeitados.

Calçada do Combro / 80

Fotografia de Luca Gabino

Tal o diabo ausente do inferno
me apareces à esquina desta rua
ou como o manipanso
no seio da cartolina resguardado
surges-me de improviso
e sempre me perturbas
quando passas cosido nas paredes
e aí roças as calças
sujas pelas nódoas simétricas
que se juntam por cima da bainha
e nas veias circula Predulin
e na cara um véu de escuridão
que subtrai
ao convívio dos outros
teu secumbido modo.
Contra as mulheres que se atarracam
a segurar nos filhos
destacas teu desenho,
vestes agora de cinzento escuro
e calas aquilo a que chamas amor,
a sórdida invenção ocidental
- como Graham Greene pensaria
à saída dum quarto de aluguer.
Fátima Maldonado


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Coração, olha o que queres

Fotografia de Simona Ghizzoni




MOTE

Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

VOLTAS

Tão tirana e desigual
Sustentam sempre a vontade,
Que a quem lhes quer de verdade
Confessam que querem mal;
Se Amor para elas não val,
Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

Se alguma tem afeição
Há-de ser a quem lha nega,
Porque nenhuma se entrega
Fora desta condição;
Não lhe queiras, coração,
E senão, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

São tais, que é melhor partido
Para obrigá-las e tê-las,
Ir sempre fugindo delas,
Que andar por elas perdido;
E pois o tens conhecido,
Coração, que mais lhe queres?
Que, em fim, todas as mulheres!
Francisco Roiz Lobo


terça-feira, 24 de outubro de 2017

I wanto to apologise to all the women I have called pretty

Fotografia de Rupi Kaur, 
autora do best-seller Milk and honey, campeão de vendas nos EUA este ano

A fotografia pertence ao projecto Period 
e foi inicialmente censurada pelo Instagram que depois recuou na censura







segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Do not go gentle into that good night — Não entres docilmente nessa noite serena

Interstellar, de Christopher Nolan (2014)

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.


Não entres docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis acções ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.
Dylan Thomas
Tradução: Fernando Guimarães










domingo, 22 de outubro de 2017

Arte de amar

Não consegui achar autoria (daqui)

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Manuel Bandeira



sábado, 21 de outubro de 2017

Evocação de uma beldade

Mural de Jillian Evelyn


porque terá a rola de chorar
ao sorrir da leve boca da manhã?
ela canta e bebe em seu afã
lágrimas de um coração a palpitar.

uma moça que a formosura visitou
ser a própria beleza acreditou
ou então sua amiga e companheira.

pelo olhar, é corça amedrontada
e, pelo colo, gazela intimidada
no deserto, de insólita maneira.

seu dorso, c'o salgueiro parecido,
é fonte de desejo ataviada
é canto de rola dolorido.

a boca é flor branca assediada
pelo rubro escuro dos seus lábios.
não a provar é falta condenada
por aqueles todos que são sábios.

traz-me tão inquieto esta donzela (...)
de olhar fatal! é tão frágil ela
como caule das folhas despojado.

a página do seu rosto delicado
vai alterada em terno vestido
que de rosas e chamas é urdido.

é aí que suas mechas de cabelo,
como escorpiões em atropelo,
são vistas pelos olhos do amante.

a brisa quis o sopro: num instante
no vento sul vogaram docemente
até à flama de um desejo ardente.
Ibn 'Ammâr al-Andalusî
Tradução de Adalberto Alves


"And Now For Something Completely Different" (#166)


Negros Hábitos (Entre tinieblas), de Pedro Almodóvar, 1983

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Inferno*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

1. No início desta semana, o inferno dos incêndios invadiu outra vez o país e, pela primeira vez este ano, atacou também com violência o distrito de Viseu. De uma forma nunca vista, varreu floresta, casas, empresas e, desgraçadamente, vidas.

Durante toda a segunda-feira, uma boa parte do distrito esteve coberta por nuvens de fumo. Uma atmosfera espessa, com cinza e fonas a pairar, irrespirável, pesava no peito das pessoas, com ou sem máscaras compradas à pressa nas farmácias.

2. Tudo o que ouvi, li e vi converge para a seguinte constatação: perante esta situação, o estado foi, ao mesmo tempo, impotente e ausente.

“Ninguém apareceu, nem um guarda, nem um bombeiro, nem um funcionário, nada, ninguém apareceu, fomos nós com os nosso tractores, com as nossas bombas, com as nossas ferramentas, fomos nós que nunca desistimos nem de noite nem de dia, fomos nós que parámos o fogo e não o deixámos entrar na nossa freguesia”, disse-me, ao fim da tarde de segunda-feira, um “pró-activo” e “resiliente” contribuinte, pagador do salário daquela senhora que, naquele desgraçado dia, ainda era a ministra que tutelava a protecção civil.

3. Os incêndios estão cada vez mais violentos, já não são um exclusivo florestal (invadem cada vez mais as povoações, cidades incluídas) e já não são um exclusivo do verão (acontecem na primavera, como em Pedrógão Grande, avançam pelo outono como este).

4. Tanto quisemos pôr o estado a dar-nos o céu que ele agora não consegue evitar-nos o inferno.

Ora, da sua felicidade tratam as pessoas, a primeira função do estado é evitar-lhes o inferno.

5. Como o primeiro-ministro não foi capaz, teve que ser o presidente da república a demitir a ministra e a pedir desculpa pelas vidas ceifadas.

António Costa tem agora que dissipar uma dúvida no espírito dos portugueses — é homem para os tempos difíceis ou só para os tempos fáceis?

Abandonos

Fotografia de Cílio Correia



Deixei um livro
num banco de jardim:
um despropósito

Mas não foi por acaso
que lá deixei o livro, embora o sol estivesse quase
a pôr-se, e o mar que não se via do jardim
brilhasse mais

Porque a terra, de facto, era terra interior,
e não havia mar, mas só planície,
e à minha frente: um tempo de sorriso
a desenhar-se em lume,
e o mar que não se via (como dizia atrás)
era um caso tão sério, e ao mesmo tempo
de uma tal leveza, que o livro:
só ideia

Essa sim, por acaso, surgida num comboio
e nem sequer foi minha, mas de alguém
que muito gentilmente ma cedeu,
e criticando os tempos, mais tornados
que ventos, pouco livres

E ela surgiu, gratuita,
pura ideia,
dizendo que estes tempos exigiam assim:
um livro abandonado
num banco de jardim

E assim se fez,
entre o comboio cruzando este papel
impróprio para livro,
e o tempo do sorriso

(que aqui, nem de propósito,
existe mesmo, juro, e o lume de que falo mais acima,
o mar que não se vê, nem com mais nada rima,
e o banco de jardim,
onde desejo ter deixado o livro,
mas só se avista no poema, e livre,
horizontal
daqui)
Ana Luísa Amaral



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Anúncio publicitário

De Alexey Lobur (daqui)



Procura-se companheira/o
para relacionamento poético sério.
Apenas se exige que saiba dizer
que o surrealismo é coisa para
ter morrido no século XX.
David Teles Pereira




quarta-feira, 18 de outubro de 2017

"Há que cerrar fileiras, este país tem FUTURO!" — diz JB

* Comentário de JB ao post Dois casamentos e uma renovação de votos

Renovação de votos?
Não, Obrigado!
Não casei (votei) com Costa, nem com Marcelo!

Mas, há coisas que não podemos “abafar” dentro de nós…

Desde domingo (15 Outubro) que todos, todos mesmo (até porque somos um país de primos), ouvimos, contactámos ou tomámos café com amigos de Nelas, Carregal do Sal, familiares de Tondela ou Vouzela ou conhecidos de Oliveira de Frades. TODOS contam estórias de pânico, rapidez das chamas e destruição.
Os que se deslocavam na A25; os que iam na camioneta do Sr Eduardo, no IP3; os que perderam o emprego; os que tiveram que fugir de casa; os que quase ficaram presos na A25; os que….

Face a este (2º) dilúvio de fogo o desamparado e confuso povo, que respostas políticas teve?
Um Costa tecnocrático, distante e político.
Um Marcelo afectuoso, acutilante e manhoso.

Não renovo os meus votos com ambos, pois ambos têm agendas, projectos muito diferentes das que gostaria de ver implementadas.
Mas constatamos que a Geringonça faz mesmo comichão! O vómito de ódio à diferença, que passa nas tv´s, é incontornável. Portugal só pode ser governado à direita, pela direita ou por quem inequivocamente faça uma política de direita. Quem defender outras soluções, não pode governar!
Desligo o aparelho!

Costa gere a situação muito mal. Há um certo ar de “auto-convencimento”…

Marcelo sabe que os argumentos emocionais podem resultar. Distante de ambos, não posso deixar de dizer que Marcelo foi o “chefe político” que o povo gostaria de ter ouvido. Acutilante com a classe política (como se ele fosse distante…), com o governo e prometendo mudanças (eleições antecipadas?). Eu sei que é sempre de má política elogiar alguém da direita, seja o que for que esse alguém tenha feito, porque breve virá o dia em que esse elogio fica desmentido pelo comportamento do elogiado.

Marcelo é manhoso ao dar apoio e força a uma direita, que se reorganiza, tentando projectá-la para um patamar político que ela não está em condições de alcançar.
O “menino” cresceu e o “Guerreiro Adolescente” apresenta-se com apoio de Marcelo?

No fim, não posso deixar de recomendar este site/entrevista com Viriato Soromenho Marques, que muito tem escrito e meditado sobre a CIDADANIA!
"Aparente apatia" dos portugueses pode transformar-se numa "revolta eloquente"


Há que cerrar fileiras, este país tem FUTURO!





A sua coragem salvou muitas vidas de jovens do concelho de Viseu.
Bem-Haja!



JB

Dois casamentos e uma renovação de votos

Aviso à navegação:
isto não é o Mistério das Vozes Búlgaras a invadir o plateau de um filme de Peter Greenaway




Depois de dois anos de preparação, em 23 e 24 de Maio de 2011, Sarah Small apresentou este quadro vivo com 120 participantes no Skylight One Hanson (Brooklyn, NY).

Partindo das suas raízes na fotografia, Sarah explora aqui um fenómeno social específico: o ritual do casamento, a celebração pública da união mais íntima entre dois indivíduos. 


Sarah Small celebra dois casamentos e uma renovação de votos.


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Esse quieto vapor do mundo

Fotografia de Mario Cravo Neto

Estar demasiado
suspenso
sobre a luz
dos objectos
e cravar
no próprio pescoço
os dedos insuficientes
para juntar
uma concha
e trazer à boca
abundante
esse quieto vapor
do mundo.
Vasco Gato


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Animais domésticos

Pintura de Njideka Akunyili Crosby


Não cedas ao quarto com ela. Não
dês nome ao
perfume. Deixa-a cuidar sozinha da
íntima
idade dela. Vai tu
encantar a mais nova. Conta
um conto à miúda. Acata a
meia hora como
se fosse um instante.
Hoje é
a própria noite que
apela ao murmúrio. Conheces
como ela tarda no desvelo
de te ter. Mas
não
lhe meças tu
sedas. Não acertes tu o lume. Quando
menos estás à espera a
maçã que já trincaste vai
saber de
novo a
sumo.
João Luís Barreto Guimarães


domingo, 15 de outubro de 2017

Diário

Fotografia de Brett Walker

A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.
Ana Salomé


sábado, 14 de outubro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#165)

Claudia Cardinale,
Gina Lollobrigida,
Rita Hayworth,
Audrey Hepburn,
Sophia Loren,
Marilyn Monroe,
Lana Turner,
Grace Kelly,
Catherine Zeta-Jones,
Kelly LeBrock,
Elizabeth Taylor,
Vivian Leigh,
Gene Tierney,
Ava Gardner,
(...)

Carta de marear

Ilustração de Miranda Tacchia

Não há corpo igual. Não há cheiro nenhum no mundo que colmate o meu vício por ti. Não há tragédia igual. Drama incorruptível.
O tamanho de tudo, encaixe perfeito, a dimensão do conjunto e a distância entre opostos.
O que aporto eu? Flores. Mecanismos para deliciar. Sorrisos repartidos ao pôr-da-lua. Fazer ver a leveza do mundo, afinal. São flores que eu aporto. A minha caneta, o meu lápis, a tua vida no meu caderno-para-sempre. Votos de mar a vida inteira.
Leva-me. Está a ficar escuro. Tenho tudo tão pertinho.
Há uma pornografia íntima nisto nosso. Dá água na boca.
Segura-me. Musa.
Porque a pele.
Porque o rosto e as minhas mãos descendo.
Porque nós.
Não fiques, mas não vás. Avião outra vez. Porque tu.
O meu anel está a arder.
Tudo tão muito e eu a tremer como sempre.
A minha esperança é azul. Propagação. Níveis do Inferno.
Flores de Jacarandá no chão.
Gostava de me decifrar. Perdi o relógio, perdi a caneta, não perdi o anel. Ele arde-me.
Era isso! A faísca. No caos, a faísca. Tu. Não esquecer.
Fazer ver a leveza da tempestade. Até doerem os dedos. Até chorar. Até rir. Até dormir descansada no teu peito azul.
Comer-te.
Orgasmo.
Não esquecer.
Patrícia Baltazar


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Fêmeas e machos*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

Catarina Gomes e Luísa Pinto
(daqui)

A primeira vez que ouvi o termo microglia foi numa entrevista às investigadoras Catarina Gomes, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, e Luísa Pinto, do Instituto de Ciências da Vida e da Saúde da Universidade do Minho. Com o que ouvi delas e o que li no verbete da Wikipédia tornei-me um “especialista instantâneo” no assunto, pronto a brilhar no Facebook.

Estou a ironizar, como é lógico. Sei muito pouco sobre a microglia, o conjunto de “células especializadas do sistema imunitário” que defende o “normal funcionamento” do nosso cérebro e medula, o conjunto de células guardiãs dos nossos preciosos neurónios.

Quem sabe muito daquelas células são aquelas investigadoras e as suas equipas que acabam de ver um seu trabalho sobre a ansiedade crónica publicado na Molecular Psychiatry, uma publicação de referência mundial.

Elas apuraram, em experiências feitas com animais, que a alteração do sistema imunitário da grávida produzia alterações permanentes na microglia dos filhos, que essa anomalia era diferente no sexo feminino e no sexo masculino, que essa diferença persistia até na idade adulta, e que terapias desenhadas para o combate à ansiedade tinham muito piores resultados nas fêmeas do que nos machos.

Depois deste estudo, estas cientistas ficaram com uma certeza — para tratar a ansiedade crónica, um dos principais gatilhos da depressão e outras doenças psiquiátricas, são necessários “fármacos que tenham por alvo outras células que não os neurónios” e esses fármacos têm que ser “diferenciados para homens e mulheres.”

Para chatear a CIG (a comissão para a igualdade de género) e o ministro Eduardo Cabrita que, em Agosto, meteram a pata na poça no caso dos livrinhos para meninas e meninos, sintetizo assim as conclusões desta investigação: para um tratamento eficaz da ansiedade crónica, a indústria farmacêutica vai ter que arranjar pílulas cor-de-rosa e pílulas azuis.