quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Obrigado, Zé Pedro! — por JB*

* Comentário de JB ao post "No início"



No início…

recordo os Chinchilas e o single «Barbarella», com Filipe Mendes (o Hendrix português).



recordo o Conjunto João Paulo, o Quinteto Académico, Os Celtas, os Gattos Negros do Victor Gomes, os Chinchilas, os Sheiks, o Quarteto 1111 e os Pop Five Music Incorporated.
Todos os ouvíamos avidamente e acaloradamente.

Recordo o single “Page One” dos Pop Five Music Incoporated, indicativo do programa de rádio "Página Um" transmitido na Rádio Renascença. Que memórias, carago!



E claro o “Em Órbita”, do Pedro Albergaria, onde cultivámos novidades, bom gosto e muito boa música.

Os Petrus Castrus, os Filarmónica Fraude, também nos influenciam numa via de rock progressivo, na moda da época.

Em 1971, só os irmãos mais velhos tiveram autorização para ir ao Festival de Vilar de Mouros….

Já nos anos 80, os Xutos & Pontapés, os Heróis do Mar, os GNR e os marcantes Heróis do Mar.
E a memória leva-nos às portas do Rock Rendez Vous, clube de Lisboa, onde os Xutos tocam o tema “Remar/Remar”. Que som! Que força!



Comprar as cassetes, (sim cassetes…) dos “Concurso de Música Moderna” organizados pelo RRV era descobrir o “Som da Frente” (eternamente grato mestre António Sérgio) que se fazia em Portugal.

Desses tempos, guardo a melhor versão de um tema dos Xutos:



Hoje, navego mais no indie e folk com o Father John Misty, os Fleet Foxes ou o Bill Callahan; com companhia de um Gregory Porter, um Jay-Jay Johanson e o grande, grande Nick Cave, entre outros.
Óbvio que os mestres CSN e Y e a geração dos anos 60 povoam, e marcam, o meu imaginário musical.

Diáriamente, e sempre, na perpétua busca de novos sons.

Obrigado, Zé Pedro!

JB

No início

Ilustração de Dominique Fung


No início
não sabemos
que não podemos tudo.
É o corpo que nos ensina
Agarramos com as mãos
a irresistível chama
e a queimadura do fogo
enche-nos de surpresa
Subimos à árvore maior
para voarmos como pássaros
e dói-nos mais não podermos
do que a perna partida
No início não sabemos
que entre o desejo e o corpo
há um desencontro
a eterna fome
a perpétua busca.
Pedro Santo Tirso


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Gauguin fotógrafo




Estas quase-noites das estampas:
azuis escuras, o sol às réstias louras
e mares cor de safira

Nem Gauguin e as angústias
que eram dele
tinham destas cores

Fosse Gauguin fotógrafo,
o seu comércio a estampa
(que não dores):
deitava-se na areia-cor-de-areia,
mimando o paraíso numa noite
que fosse de dormir
Ana Luísa Amaral

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Nada os meus olhos deixarão na cinza

Fotografia Olho de Gato



nada os meus olhos deixarão na cinza
das vastas folhas envidraçadas: nem
o astrológico número das horas
autorizadas pela autoridade e a sua penumbra.
a «penumbra da autoridade» vem vestida
de muitos horizontes com, aqui ou além, um barco
de velas estilhaçadas, ou a capa de um livro
de viagens na vitrina.
então o amor mistura-se com as coisas breves,
os pássaros, o rumor dos alicates na gaveta branca.
foi esta a sua história? esta canção pertence-lhe?
a «greve» alourou-lhe as sobrancelhas? este olhos
têm o plástico ao contrário. e o ruído
das torneiras no balde, mesmo
à beira do precipício,
é um inconveniente que convém manter
sob vigilância.
António Franco Alexandre


segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Horas breves de meu contentamento

Fotografia Olho de Gato


Horas breves de meu contentamento,
Nunca me pareceo, quando vos tinha,
Que vos visse tornadas tão asinha,
Em tão compridos dias de tormento.
Aquelas torres, que fundei no vento,
O vento as levou já, que as sostinha;
Do mal, que me ficou, a culpa é minha,
Que sobre coisas vãs fiz fundamento.
Amor, com rosto ledo e vista branda,
Promete quanto dele se deseja,
Tudo possível faz, tudo segura;
Mas des que dentro n’alma reina e manda,
Como na minha fez, quer que se veja
Quão fugitivo é, quão pouco dura.
Diogo Bernardes


domingo, 26 de novembro de 2017

56 dias depois das eleições autárquicas

Site oficial
Lista de deputados municipais, por grupo parlamentar
Concelho de Viseu


O homem que fugiu

Fotografia de Malick Sidibé


O homem que fugiu
fugiu da lei
que estrada o vestiu
não sei

Acredito que era
o gémeo
de um pássaro alerta
com a cabeça
a prémio

O homem que fugiu
é meu
se alguém o pariu
deve ter sido eu

sua amante-mãe
mulher
que inventa o que ele vê
e o fere

O homem que fugiu
ganhou ao jogo
a mão incrustada
com que rouba
o fogo

e vos rasga o sono
em tiras
para que não sonheis
mentiras
Luiza Neto Jorge


sábado, 25 de novembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#170)




Isn't it awfully nice to have a penis?
Isn't it frightfully good to have a dong?
It's swell to have a stiffy.
It's divine to own a dick,
From the tiniest little tadger
To the world's biggest prick.
So, three cheers for your Willy or John Thomas.
Hooray for your one-eyed trouser snake,
Your piece of pork, your wife's best friend,
Your Percy, or your cock.
You can wrap it up in ribbons.
You can slip it in your sock,
But don't take it out in public,
Or they will stick you in the dock,
And you won't come back.

Ya viene el alba

Fotografia Olho de Gato

Mi gallejo, mira quién llama.
— Ángeles son, que ya viene el alba.
Hame dado un gran zumbido
que parece cantillana.
Mira Bras, que ya es de día,
vamos a ver la zagala.
Mi gallejo, mira quién llama.
— Ángeles son, que ya viene el alba.
¿Es parienta del alcalde,
o quién es esta doncella?
— Ella es hija de Dios Padre,
relumbra, como una estrella.
Mi gallejo, mira quién llama.
— Ángeles son, que ya viene el alba.
Santa Teresa de Ávila


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Viseu quebra o silêncio sobre a Violência contra as Mulheres


Amanhã, sábado, 25 de novembro, diversas entidades unem-se para assinalar o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres.

A atividade prevista "Viseu quebra o silêncio sobre a Violência contra as Mulheres" consiste na distribuição de "Abraços gratuitos", em que, quatros pessoas simbolizando quatro mulheres vítimas de violência, irão interagir com os transeuntes, distribuindo abraços e partilhando a história de vida da respetiva personagem. 

Cada uma interpretará excertos de testemunhos que constam do livro publicado pela Associação Ideias Solidárias, sobre violência. As personagens terão cartazes frente ao peito e atrás das costas, em referência ao dia que se assinala.

UMAR Viseu (União de Mulheres Alternativa e Resposta)
Amnistia Internacional Viseu
Rede de Jovens pela Igualdade Viseu
Ideias Solidárias
APPR (Associação de Proteção a Pessoas em Risco)
Olho Vivo Viseu

Os cães e os poetas*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Paterson, o último filme de Jim Jarmusch, é um mergulho num mundo sem mal, é uma lavagem à alma. Hollywood, se for inteligente, vai encher esta obra-prima de óscares, para se purgar dos escândalos em que está atolada.

O actor Adam Driver interpreta um driver de autocarro urbano que pendula os seus pacatos dias na rotina casa-trabalho, dias a seguir a dias, iguais, plácidos, sem queixas nem empolgamentos. Nada perturba a serenidade de Paterson, nem uma avaria no seu autocarro, nem o fragor dos vários projectos da sua bela mulher que ele incentiva e apoia sempre sem hesitação.

E porque é a partir das rotinas que se fazem as grandes viagens interiores, Paterson vai manuscrevendo minuciosos e belos poemas num caderninho.

Até que o seu cão que ele passeia todos os dias...


2. O poeta sérvio-americano Charles Simic teve um início de vida muito difícil. Num texto intitulado “Poetas e dinheiro”, Simic conta que, em meados dos anos de 1970, os seus poemas começaram a ser referenciados e reverenciados nos circuitos literários mas nada ou quase nada recebia deles. Recém-casado e com uma filha bebé, vivia do seu “miserável” salário de professor, pelo que, quando recebeu uma encomenda de uma revista artística que se propunha pagar-lhe seiscentos dólares por um punhado de poemas, foi uma felicidade. Há quarenta anos era muito dinheiro.

Charles Simic não tinha nada em stock. Nos dias seguintes, concentrou-se no labor da escrita enquanto, nos intervalos, ia discutindo com a mulher a melhor maneira de gastar aquele balúrdio.

Passou-se uma semana nesta rotina até que, numa “luminosa manhã de sol”, o poeta sentou-se à secretária, pôs-se a ler o que tinha escrito e percebeu que aquilo era “totalmente falso”.

Simic podia ter entregue aquele caderno de poemas falhados ao seu cão para ele estraçalhar. Mas não. Foi mesmo ele que “rasgou os poemas rápida e embaraçadamente”.

A seguir, pôs a trela no cão e foi dar um grande passeio.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Fotografia Olho de Gato


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
Luís Vaz de Camões



quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Presuntos*

* Publicado há exactamente dez anos, em 23 de Novembro de 2007

1. A nova Lei das Finanças Locais é positiva embora o grosso dos dinheiros municipais continue a vir da velha fórmula: “quanto mais cimento, mais pilim”.

Uma das boas novidades da nova Lei foi ter tornado as Câmaras responsáveis directas por 5% do IRS dos seus munícipes. As Câmaras, agora, podem encaixar esses 5% ou devolvê-los em parte ou na totalidade aos contribuintes. Resultado: vamos ter concelhos vizinhos com IRS diferentes. É pena as diferenças em causa ainda serem modestas. Podiam e deviam aumentar.

2. Em 25 de Outubro, as dezoito Câmaras da Área Metropolitana de Lisboa decidiram que os seus munícipes pagam o máximo de IRS. Pagam e não bufam. Infelizmente, não é possível mandar a Autoridade da Concorrência àquelas câmaras passar-lhes uma multa por cartelização.

Em contraste, o presidente da Câmara de Loulé, Seruca Emídio, cumprindo compromissos eleitorais, decidiu aliviar a carga fiscal no seu concelho: em 2008, os louletanos vão pagar menos 1,7 milhões de euros em IMI e menos 950 mil euros em IRS.

Loulé é um concelho com mais segunda habitação que primeira. Muita desta segunda habitação é de luxo.

Quantos ricos vão mudar a morada do seu Cartão de Contribuinte para a sua casinha do Algarve, deixando Costa, Isaltino, Capucho e Seara a chuchar no dedo?

3. “Às vezes trocam-se uns presuntos de Lamego, outros trocam queijos de Lafões, mas chamar a isso corrupção não, são apenas encontros de amigos". – Amândio Fonseca, Presidente do Sporting de Lamego e Vice-Presidente da Câmara, ao Diário de Viseu.

Daqui

“Aprender uma língua é aprender como se pensa nessa língua.”-
Roland Barthes.

Pelo corpo

Dominique Fung


infinita invenção
de pétala a escaldar
desprende o falo

a palavra sublimada
que é ele a avançar-me
pelo corpo

a porta giratória
que me troca
pelo homem e, a este,

o fértil trajo
que lhe cria mais seios
pelo corpo
Luiza Neto Jorge


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Mar, mar e mar

Fotografia Olho de Gato


Tu perguntas, e eu não sei,
eu também não sei o que é o mar.

É talvez a lágrima caída dos meus olhos
ao reler uma carta quando é de noite.
Os teus doentes, talvez os teus dentes,
miúdos, brancos, agudos, sejam o mar,
um mar pequeno e frágil,
afável, diáfano,
no entanto sem música.

É evidente que minha mãe me chama
quando uma onda e outra onda e outra
desfaz o seu corpo contra o meu corpo.
Então o mar é carícia,
luz molhada onde desperta
meu coração recente.

Às vezes o mar é uma figura branca
cintilando entre os rochedos.
Não sei se fita a água
ou se procura
um beijo entre conchas transparentes.

Não, o mar não é nardo nem açucena.
É um adolescente morto
de lábios abertos aos lábios da espuma.
É sangue,
sangue onde a luz se esconde
para amar outra luz sobre as areias.

Um pedaço de lua insiste,
insiste e sobre lento arrastando a noite.
Os cabelos de minha mãe desprendem-se,
espalham-se na água,
alisados por uma brisa
que nasce exactamente no meu coração.
O mar volta a ser pequeno e meu,
anémona perfeita abrindo nos meus dedos.

Eu também não sei o que é o mar.
Aguardo a madrugada, impaciente,
os pés descalços na areia.
Eugénio de Andrade


terça-feira, 21 de novembro de 2017

Poetry


Fotografia Olho de Gato

I, too, dislike it: there are things that are important beyond
        all this fiddle.
     Reading it, however, with a perfect contempt for it, one
        discovers that there is in
     it after all, a place for the genuine.
        Hands that can grasp, eyes
        that can dilate, hair that can rise
            if it must, these things are important not because a

high-sounding interpretation can be put upon them but because
        they are
     useful; when they become so derivative as to become
        unintelligible, the
     same thing may be said for all of us—that we
        do not admire what
        we cannot understand. The bat,
            holding on upside down or in quest of something to

eat, elephants pushing, a wild horse taking a roll, a tireless
        wolf under
     a tree, the immovable critic twinkling his skin like a horse
        that feels a flea, the base-
     ball fan, the statistician—case after case
        could be cited did
        one wish it; nor is it valid
            to discriminate against “business documents and

school-books”; all these phenomena are important. One must
        make a distinction
     however: when dragged into prominence by half poets,
        the result is not poetry,
     nor till the autocrats among us can be
        “literalists of
        the imagination”—above
            insolence and triviality and can present

for inspection, imaginary gardens with real toads in them,
        shall we have
     it. In the meantime, if you demand on the one hand, in defiance
        of their opinion—
     the raw material of poetry in
        all its rawness, and
        that which is on the other hand,
            genuine, then you are interested in poetry.
Marianne Moore

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

No soy dueña de nada

Fotografia de Jo Ann Callis



No soy dueña de nada
mucho menos podría serlo de alguien.
No deberías temer
cuando estrangulo tu sexo
no pienso darte hijos ni anillos ni promesas.

Toda la tierra que tengo la llevo en los zapatos.
Mi casa es este cuerpo que parece una mujer
no necesito más paredes y adentro tengo
mucho espacio:
ese desierto negro que tanto te asusta.
Miriam Reyes



domingo, 19 de novembro de 2017

In November




Outside the house the wind is howling
and the trees are creaking horribly.
This is an old story
with its old beginning,
as I lay me down to sleep.
But when I wake up, sunlight
has taken over the room.
You have already made the coffee
and the radio brings us music
from a confident age. In the paper
bad news is set in distant places.
Whatever was bound to happen
in my story did not happen.
But I know there are rules that cannot be broken.
Perhaps a name was changed.
A small mistake. Perhaps
a woman I do not know
is facing the day with the heavy heart
that, by all rights, should have been mine.
Lisel Mueller


sábado, 18 de novembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#169)

«Os deputado bom de pêia
eu tiro o “W” do nome
tiro vírgula dos discurso
reticença e pisilone»


Lágrimas amargas

As Lágrimas Amargas de Petra von Kant,
peça levada ao cinema em 1972,
escrita e dirigida por Rainer Werner Fassbinder


Os olhos rasos de água

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.

É a hora de fazer milagres:
posso ressuscitar os mortos e trazê-los
a este quarto branco e despovoado,
onde entro sempre pela primeira vez,
para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas a luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
a quem se estender ao pé de mim,
ou deixar uma lágrima nos meus olhos
ser toda a nostalgia das areias.
Eugénio de Andrade







sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Fractais*

* Hoje no Jornal do Centro


Os dois assuntos desta crónica foram também esmiuçados por mim e o Paulo Lopes no seu programa “Regresso a casa”, na Rádio Jornal do Centro.

1. A ASAE preferiu instalar-se em Tondela porque a câmara daquela cidade dispôs-se a pagar-lhe instalações, luz e água, enquanto a câmara de Viseu se recusou pagar tal coisa.

Os vereadores socialistas de Viseu acharam mal esta recusa, mas o presidente da câmara avisa que “é completamente contra” as câmaras terem de “pagar ao Estado para instalar os seus organismos” e que esse tipo de exigências é “chantagem”.

Exemplos destes multiplicam-se. A administração central, por causa dos cortes (em geringoncês diz-se “cativações”), faz tudo para arranjar dinheiro, tanto aluga o Panteão para jantares de gala, como saca o mais que pode aos municípios (pagamentos a polícias, vencimentos de médicos, água, luz, rendas, ...)

Isto lembra os fractais que se repetem qualquer que seja a escala. Mal a Tesla anunciou que queria abrir uma gigafábrica na Europa, logo começou uma competição entre países a ver quem dá mais contrapartidas àquela multinacional. Mal o governo anuncia que quer abrir um serviço público “na província”, logo começa um “quem-dá-mais” entre municípios vizinhos. Estes fractais são fatais para os mais pequenos, entenda-se, o interior.

Neste caso da ASAE, António Almeida Henriques fez bem. Mas esteve muito mal e foi aqui criticado quando, durante o governo de Passos Coelho, se prontificou a custear, com dinheiros municipais, parte das obras na “rua” que liga Viseu a Sátão.


Fotografia Olho de Gato
2. Por causa dos incêndios, houve uma sessão de câmara interrompida porque o presidente teve um ataque de choro. Por causa dos incêndios, um treino de andebol teve que ser interrompido porque os jogadores começaram a chorar.

As marcas traumáticas dos incêndios de 15 e 16 de Outubro vão perdurar no tempo. Ajudemo-nos uns aos outros e tenhamos tolerância zero com quem quiser fazer politiquice com esta desgraça.

Miscasting

Sabine Azéma por Robert Doisneau (1985)




So you think salvation lies in pretending?
Paul Bowles


estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino

há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri

mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída

agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias

vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil

seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa

os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
Hilda Machado




quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Madrugada sem sono

Fotografia de Stephen Shore

Na solidão a esperar-te
Meu amor fora da lei
Mordi meus lábios sem beijos
Tive ciúmes, chorei

Despedi-me do teu corpo
E por orgulho fugi
Andei dum corpo a outro corpo
Só p'ra me esquecer de ti

Embriaguei-me, cantei
E busquei estrelas na lama
Naufraguei meu coração
Nas ondas loucas da cama

Ai abraços frios de raiva
Ai beijos de nojo e fome
Ai nomes que murmurei
Com a febre do teu nome

De madrugada sem sono
Sem luz, nem amor, nem lei
Mordi os brancos lençóis
Tive saudades, chorei
Goulart Nogueira






quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Este blogue hoje é convidado do Delito de opinião*

O resto aqui

* Um agradecimento pelo honroso convite ao Pedro Correia

Já não sei fazer as pazes (2ªparte) — por JB*



Cito:

“O Governo eliminará nove anos de serviço dos professores no descongelamento das carreiras. Nem considera uma recuperação faseada. Excluiu-os. E porquê apenas os professores? Por uma questão técnica, diz o Governo.
É consensual que a sucessão de "reformas estruturais" deixou o Estado, e a sociedade, sem norte. A avaliação do desempenho é um espelho dos desajustamentos. As avaliações no Estado (SIADAP) são um fingimento indesmentível e em 95% das empresas não existe.
Qual é, então, a questão técnica que exclui os professores? São os pontos, diz o Governo.
Nas outras carreiras as pessoas obtêm um ponto por ano até ao número necessário à mudança de categoria e nos professores, diz o Governo, é por menção qualitativa.
Só que a menção é obtida, com quotas, numa escala de 0 a 10 pontos (por exemplo: 7.51 pontos é bom e 8.53 pontos é muito bom) e o professor muda de categoria ao fim de x anos (como nas restantes carreiras).
Era preferível o Governo pedir desculpa aos professores por imitar os anteriores. Se a história da exclusão raramente nos falou de "perseguidos" por serem muitos, desta vez é mais surpreendente; ao fim de dois anos, regista-se a imutabilidade também nas questões não financeiras vigentes desde 2007.” – Paulo Prudêncio

Vejamos:

Após catorze anos de carreiras congeladas há que reconhecer que a estratégia comunicacional deste governo tem funcionado no "arremesso à escola pública", o que nos recorda o processo kafkiano do reinado de Lurdes Triste Rodrigues/Pedreira Pedra/Margarida do Norte/ Azeiteiro Lemos/João Contratos Pedrosa/ Parque Buraco Escolar e o ressabiado Abílio CONFAP…. Como sempre, o PS nada aprende com a experiência.

Na Educação o objectivo tem sido proletarizar, desgastar e desmoralizar a classe docente ao ponto de não terem capacidade de reacção e revolta. Insidiosamente, a conflitualidade e a sobrevivência impuseram-se como modo de estar nas escolas.

Com um contexto político favorável, o que faz o PS pelos professores? Horários, gestão das escolas, e…. - “quartel general em Abrantes; tudo como dantes”.
Face a um Ministro sem peso político (é óbvio), dizem os jornais que os deputados PS (liderados pelo Supremo Porfírio) estão preocupados com a luta dos professores. É bom que estejam preocupados. Há uma “maioria silenciosa” (politicamente transversal) saturada de ser desconsiderada.

Mas também é bom que professores estejam preocupados. Para os que têm a memória curta o Costa estava no governo e a mulher nas manifestações contra MLR.
As declarações do presunçoso Costa não são problema de glândulas salivares, é atitude e pensamento político.

Volte o PS a ter maioria e estará na calha um upgrade da MLR.

Não sou dado a futurologias nestas matérias e não sou grevista militante. Gosto muito de ser “o meu próprio comité central” – José Afonso.

Mas, já não sei fazer as pazes!





A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes


PS: já depois de ter escrito este texto, li que….
“Ao contrário do básico e secundário, os docentes das universidades e politécnicos vão progredir nas carreiras em 2018.”

Fellini! Onde estás quando precisamos de ti?
* Enviado por JB 
para o e-mail deste blogue

Às vezes despedimo-nos tão cedo

Fotografia de Dan Sully

Às vezes despedimo-nos tão cedo
que nem lágrimas há que nos suportem o
peso da voz à solidão exposta
ou
de lisboa no corpo o peso triste

Às vezes é tão cedo que nos vemos
omitidos
enquanto expõe
o peso insuportável do amor
a despedida

É tão cedo por vezes que lisboa
estende sobre os corpos o desgosto

Com os dedos no crânio despedimo-nos
Gastão Cruz



terça-feira, 14 de novembro de 2017

Não aos trolls!

Peer Gynt na Gruta do Rei da Montanha
Aguarela de Theodor Kittelsen (1913)


Eles entram juntos no salão do rei da montanha. 
Este promete converter Peer num “troll” se ele casar com a sua filha. 

Ele não aceita e tenta fugir, mas os "trolls" não o permitem...





segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O quereres

Óleo de Ian Francis


Onde queres revólver, sou coqueiro
Onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alta, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão

Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
Onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há e do que não há em mim
Caetano Veloso













domingo, 12 de novembro de 2017

Después de la fiesta

Fotografia de Lele Saveri


En cuántas ocasiones te has dicho que la vida
no te ha tratado mal, que, a fin de cuentas,
eres un hombre afortunado.
                                                        Pero
a qué engañarse. Déjate de historias.
Esta noche no puedes conformarte
diciéndote lo mismo que las otras veces
— con no poco optimismo —te dijiste.
Alguien que no eras tú se fue com ella
cuando la fiesta terminó.

                                                        Hace frío
en las calles sin nadie de la ciudad. Y vuelves
de madrugada a casa. Y estás solo.
Eloy Sánchez Rosillo