domingo, 31 de dezembro de 2017

O 'cúmice do ápice'* cultural em Viseu em 2017

Fotografia de Luís Belo

26 de Abril — Festival Internacional de Música da Primavera de Viseu

Concerto de Richard Galliano e Yamandú Costa, na Aula Magna do Instituto Politécnico de Viseu, perante um público entusiasmado e conhecedor, que deu por bem aplicado o dinheiro do bilhete para ouvir estes dois génios.

Estas duas peças achadas no YouTube, gravadas em Junho de 2015, foram tocadas também em Viseu neste concerto memorável:






* Obrigado por esta expressão, Adélia Prado

Apanha a saia e não a molhes...

... no réveillon!


sábado, 30 de dezembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#175)

Ciumeiras



Ode ao castigo

Fotografia de Marco Tenaglia


Só mais uma menina entre outras
E o quadro negro onde escrever o teu nome a giz
Como um erro ortográfico do coração.

Castigo.
Entre nós o alto muro do recreio
E a obrigação de permanecer só.
Ana Salomé




sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Dito no Jornal do Centro em 2017*

* Publicado hoje no Jornal do Centro






20 de Janeiro
António Almeida Henriques, (…) se é para dar tanto poder ao seu adjunto Jorge Sobrado, se é para o pôr a tomar decisões à solta (...), é mais transparente para com os viseenses pô-lo na lista como candidato a vice-presidente.

14 de Abril
Estás despedido, Jeroen Dijssemlbloem, meu safadote. Daqui a uns meses vais ter muito tempo livre para gastares em gajas e vinho verde.

26 de Maio
A terceira república já teve três idas ao bloco operatório: em 1977 levou uma transfusão de 1% do PIB; em 1983, transfusão de 2,8%; e, em 2011, foi uma brutalidade: 45,5% do PIB. Haja agora juízo para se evitar a quarta.

9 de Junho
Se não tivéssemos o tratado orçamental, os governos gastavam sem rei nem roque, roubando, ainda mais, futuro aos nossos filhos e aos nossos netos.

16 de Junho
Aquilo a que se chama “política no feminino” é um gambozino. Não existe. Há boas e más ideias políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Há boas e más práticas políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Ponto.

21 de Julho
Os autarcas de todas as cores estão a descarregar neste ano eleitoral doses maciças de “eventos”, os órgãos municipais parecem-se, cada vez mais, com “comissões de festas”.

25 de Agosto 
Há uma guerra entre os marqueteiros da política e um exército à solta, de telemóvel em punho, pronto a transformar qualquer mensagem política num “tesourinho” risível. Não lhe tem faltado matéria-prima.

29 de Setembro
O nosso actual optimismo económico tem três causas directas: o crescimento em toda a “Europa”, o turismo de “escapadinhas” e a forma como a geringonça se “cativou” pelos lindos olhos do tratado orçamental.

20 de Outubro
 Tanto quisemos pôr o estado a dar-nos o céu que ele agora não consegue evitar-nos o inferno. (…) António Costa tem agora que dissipar uma dúvida no espírito dos portugueses — é homem para os tempos difíceis ou só para os tempos fáceis?

1 de Desembro
Para já, o bloco e o PCP vão ser lobos na retórica e cordeiros nas votações no parlamento.

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Os Olhos de Gato publicados no Jornal do Centro podem ser lidos aqui neste blogue clicando na etiqueta Jornal do Centro.

Leitura para esta selecção de fim-de-ano que depois foram devidamente tesourados para menos de 2000:


Antologia 2017 — (ii)

20Jan
António Almeida Henriques está à vontade.
Tem, contudo, uma decisão estratégica para tomar: se é para dar tanto poder ao seu adjunto Jorge Sobrado, se é para o pôr a tomar decisões à solta (ver o caso da Viseu Marca), é mais transparente para com os viseenses pô-lo na lista como candidato a vice-presidente.

17Fev
(...) a propensão para a opacidade e tolerância perante o negocismo também já infectaram o bloco e o PCP que até já nem com a fossa socrática se incomodam. Só isso explica o voto daquelas ex-virgens púdicas ao lado do PS contra a audição de Armando Vara no inquérito parlamentar sobre a CGD.

17Mar
A seguir ao “para-além-da-troika” de Passos, temos agora o “para-além-do-tratado-orçamental” de Costa. O sr. Moscovici e o sr. Dijsselbloem estão contentes com as cativações de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. E assistem, com bonomia, à retórica anti-europeia, para consumo interno, das lideranças bloquistas e comunistas.

31Mar
Apesar de haver várias câmaras falidas, não foram os municípios que puseram a dívida do estado acima dos 130% do PIB, nem foram eles que nos levaram à bancarrota. Foram os governos centralistas de Lisboa, cuja codícia e corrupção “o reino nos despovoa”, tal como Sá de Miranda via o “cheiro da canela” fazer ao país no século XVI.

14Abril
Estás despedido, Jeroen Dijssemlbloem, meu safadote. Daqui a uns meses vais ter muito tempo livre para gastares em gajas e vinho verde. Recomendo-te uma esplanada portuguesa com vista para o mar. Pede um Alvarinho bem fresco a acompanhar um rodovalho.
Infelizmente, Jeroen, como bem sabes, os portugueses gastaram tudo “em mulheres e álcool” e deixaram fechar o Elefante Branco. Mas encontrarás sempre um plano B.

21Abril
quem controla e escrutina a Viseu Marca e o seu gestor Jorge Sobrado? É que este, apesar de não eleito, tem mais poder do que os vereadores e ultimamente, como se viu no Teatro Viriato e agora nesta bazófia, anda com tendência para a asneira.

5Maio
Enquanto os urbanitas euforizam debaixo do azul do céu, as vinhas do Dão imploram por chuva. À falta desta, a câmara de Viseu vai regar cinco quintas com tinta do Festival de Street Art. Apesar de não haver “streets” nas vinhas, espera-se que este festival seja melhor do que o do ano passado.
19Maio
Em 17 de Maio de 2011, fez seis anos esta semana, a troika entrou por cá dentro com um cheque e uma receita amarga. Três duros anos depois, em 17 de Maio de 2014, ela foi-se embora. Desde então, pelo menos para já, tem havido juízo: o défice está controlado e não têm sido repetidas as loucuras que nos levaram ao buraco.

Os maus sentimentos estão fora de moda. Nas redes sociais, onde abundavam gatinhos e ódios, agora em vez de gatinhos há publicações cutchi-cutchi sobre os manos Sobral, em vez de ódios, a saia bem travada da dra. Assunção Cristas.
O país efectua afectos a um ritmo nunca visto.

26Maio
A terceira república já teve três idas ao bloco operatório: em 1977 levou uma transfusão de 1% do PIB; em 1983, transfusão de 2,8%; e, em 2011, foi uma brutalidade: 45,5% do PIB. Haja agora juízo para se evitar a quarta.

9Jun
Se não tivéssemos o TEDH, os usos e costumes dos nossos tribunais danificavam a liberdade de expressão, o oxigénio de qualquer democracia.
Se não tivéssemos o tratado orçamental, os governos gastavam sem rei nem roque, roubando, ainda mais, futuro aos nossos filhos e aos nossos netos.

16Jun
É sabido que a ecologia dentro dos partidos tende a premiar as ovelhas que mais dizem ámen ao chefe de turno, repelindo, perseguindo, ou fazendo desistir quem pensa pela sua cabeça. Esta ecologia é hostil ao mérito e faz com que a vontade colectiva dos partidos não seja construída das bases para a cúpula, mas ao contrário: as decisões importantes tomam-se em cima e aplicam-se em baixo.

aquilo a que se chama “política no feminino” é um gambozino. Não existe. Há boas e más ideias políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Há boas e más práticas políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Ponto.

23Jun
Passou um ano, o “brexit-means-brexit” de May não sai do sítio. Tanto Londres, a poderosa “cidade-estado” sede da City, como o eleitorado cosmopolita e jovem tudo farão para que ele fique mesmo assim. Parado e quedo.

30 Junho
No concelho de Viseu, a candidatura “Fazer por Viseu” (PS) propõe-se ficar com 2,5% do nosso IRS. Já a candidatura “Viseu faz bem” (PSD), no poder, tem ficado com 4%.
Havia um anúncio de um laxante que passava nas televisões a toda a hora, até durante as refeições, que acabava em crescendo com um “E faz você muito bem!” É um slogan apropriado para os cartazes destes “fazedores” com tão pouco respeito pelo nosso dinheiro.

21Jul
(…) os autarcas de todas as cores estão a descarregar neste ano eleitoral doses maciças de “eventos”, os órgãos municipais parecem-se, cada vez mais, com “comissões de festas”.
Como já se devia saber depois da Expo 98 ou do Euro 2004, nada de estrutural ou positivo vem desta azáfama de “eventos”, borliantes ou não, pagos, no todo ou em parte, com o IRS que as câmaras não devolvem aos seus munícipes.

25Ago
O poder local fez um trabalho formidável de infra-estruturação do país, com menos de dez por cento do orçamento de estado. Embora haja algumas câmaras falidas, a dívida global das autarquias não é preocupante e tem vindo a ser diminuída nos últimos anos, ao contrário da dívida do estado central que é o que se vê: mês após mês, upa-upa.
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É que há uma guerra entre os marqueteiros da política e um exército à solta, de telemóvel em punho, pronto a transformar qualquer mensagem política num “tesourinho” risível. Não lhe tem faltado matéria-prima.

22Set
Nada justifica a entrada de informação de raça nas estatísticas oficiais. Essa categorização é racista. Devia, isso sim, era desaparecer do Censos a pergunta sobre religião. É assunto que não deve interessar a um estado laico.

29Set
O nosso actual optimismo económico tem três causas directas: o crescimento em toda a “Europa”, o turismo de “escapadinhas” e a forma como a geringonça se “cativou” pelos lindos olhos do tratado orçamental.
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é uma ironia e um alívio termos um governo apoiado pelo bloco e pelo PCP a esforçar-se por um défice ainda mais “eurogrupista” do que pedia o eurogrupo.

20Out
Tanto quisemos pôr o estado a dar-nos o céu que ele agora não consegue evitar-nos o inferno.
Ora, da sua felicidade tratam as pessoas, a primeira função do estado é evitar-lhes o inferno.
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Como o primeiro-ministro não foi capaz, teve que ser o presidente da república a demitir a ministra e a pedir desculpa pelas vidas ceifadas.
António Costa tem agora que dissipar uma dúvida no espírito dos portugueses — é homem para os tempos difíceis ou só para os tempos fáceis?

17Nov
A administração central, por causa dos cortes (em geringoncês diz-se “cativações”), faz tudo para arranjar dinheiro, tanto aluga o Panteão para jantares de gala, como saca o mais que pode aos municípios (pagamentos a polícias, vencimentos de médicos, água, luz, rendas, ...)
Isto lembra os fractais que se repetem qualquer que seja a escala. Mal a Tesla anunciou que queria abrir uma gigafábrica na Europa, logo começou uma competição entre países a ver quem dá mais contrapartidas àquela multinacional. Mal o governo anuncia que quer abrir um serviço público “na província”, logo começa um “quem-dá-mais” entre municípios vizinhos. Estes fractais são fatais para os mais pequenos, entenda-se, o interior.

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As marcas traumáticas dos incêndios de 15 e 16 de Outubro vão perdurar no tempo. Ajudemo-nos uns aos outros e tenhamos tolerância zero com quem quiser fazer politiquice com esta desgraça.

1Dez
Para já, o bloco e o PCP vão ser lobos na retórica e cordeiros nas votações no parlamento.
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No concelho de Viseu, nas últimas autárquicas, no bloco, o mano deu lugar à mana na assembleia municipal; no PS, o marido foi a votos para a câmara, a esposa para a assembleia; assembleia onde se sentam também manos de ex e filhos de ex.
Entretanto, um irmão do número dois da distrital socialista quer ir para número um da concelhia.
Ninguém estranha tanto familismo?
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22Dez
O “Viseu Cultura”, o novo programa de apoio à actividade cultural da câmara de Viseu, diz querer “gerar um mercado” e “sustentabilidade” na oferta cultural no concelho.
É um objectivo sensato já que a multiplicação de eventos borliantes em Viseu está a criar rotinas nas pessoas que não são sustentáveis. Basta fazer notar que o futuro Viseu Arena, para ser viável, vai precisar de público que não estranhe ter de pagar por um espectáculo.


Eu acho que enquanto não escrevo estou morta — Clarice Lispector




Única entrevista filmada de Clarice Lispector, dada em Fevereiro de 1977, nos estúdios da TV Cultura de S. Paulo.


P.: Na sua opinião, qual é o papel do escritor brasileiro hoje em dia?
Clarice Lispector: De falar o menos possível.






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Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.
Clarice Lispector


quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

No regaço da mãe Amor estava

Fotografia de Stacy Kranitz

No regaço de mãe Amor estava
Dormindo tão formoso, que movia
O coração que mais isento o via;
E a sua propria mãe de amor matava.

Ella, co'os olhos nelle, contemplava
A quanto estrago o mundo reduzia:
Elle porém, sonhando, lhe dizia
Que todo aquelle mal ella o causava.

Soliso que, graduado em seus amores,
De saber de ambos mais teve a ventura,
Assi soltou a dúvida aos pastores:

Se bem me ferem sempre sem ter cura
Do menino os ardentes passadores,
Mais me fere da mãe a formosura.
Luís Vaz de Camões


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Mundo em bulício



À cidade deu-lhe para passear.
As lojas dão as mãos em círculos vastos.
Prazenteiro, um casebre meteu-se a butes.
Coxeia o tribunal. O teatro vai de rastos.

Nota-se um unânime remeximento,
Um jordaneio, um ir e vir descomunal
De palácio, de bares, de cinemas.
Nem um imóvel ficou no local.

Rígido, boto figura numa esquina.
Quiosque redondo que um verde chapéu abriga.
Uma igreja saúda, um tribunal se inclina

Ou um banho público em fuga se sustém.
Hoje conto e reconto cada vintém
E estendo-lhes um jornal da minha barriga.
Gerrit Komrij
Trad.: Fernando Venâncio



terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Tributo a uma deusa

Jacqueline du Pré num concerto, em Setembro de 1968, de homenagem ao povo mártir da Checoslováquia invadido nesse ano pelos soviéticos.

Interrompeu o concerto por uns minutos, quando embalava nas primeiras notas do finale, porque se lhe partiu uma corda (29'38").



segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Natal up-to-date

Presépio Cavalinho, de São Paio de Oleiros,
destruído num incêndio em Julho de 2016


Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da Lua
Rainhas de beleza vêm de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco
David Mourão-Ferreira


sábado, 23 de dezembro de 2017

"And Now For Something Completely Different" (#174)



Mal acabou de ver esta cena do filme "O Grande Ditador",  o sr. Aquilino Cosani, bradou: «eureka!».

Foi um «eureka!» tão, mas tão, tão, tão alto que o gato do sr. Cosani, assustado, deu um salto felino e aterrou, mais uma vez, em cima da árvore de Natal.

No dia seguinte, logo pela manhã, o fino Aquilino dirigiu-se ao gabinete de patentes e registou a invenção da "bola suíça", também conhecida como BOLA DE PILATES.

Do you hear the people sing?

De "Os Miseráveis", um filme de Tom Hooper (2012)



Singing the songs of angry men?
It is the music of the people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart
Echoes the beating of the drums
There is a life about to start
When tomorrow comes!
Will you join in our crusade?
Who will be strong and stand with me?
Somewhere beyond the barricade
Is there a world you long to see?
Then join in the fight
That will give you the right to be free!
Do you hear the people sing?
Singing the songs of angry men?
It is the music of the people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart
Echoes the beating of the drums
There is a life about to start
When tomorrow comes!
Will you give all you can give
So that our banner may advance
Some will fall and some will live
Will you stand up and take your chance?
The blood of the martyrs
Will water the meadows of France!
Do you hear the people sing?
Singing the songs of angry men?
It is the music of the people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart
Echoes the beating of the drums
There is a life about to start
When tomorrow comes
Herbert Kretzmer



sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Atílio dos Santos Nunes


No virar do século, conheci Atílio Santos Nunes, então ele a presidente da câmara de Carregal do Sal, pelo PSD, e eu a vereador em Viseu, pelo PS, e mais uns fazeres na área do ensino recorrente que me faziam ir àquele concelho com alguma regularidade e encontrar-me com aquele competente e bem-humorado autarca.

Competente, sim: Atílio dos Santos Nunes conseguiu que o seco Cavaco Silva lhe fizesse uma auto-estrada entre Canas de Senhorim e Carregal, uma auto-estrada sem princípio, nem fim, nem portagem, só conveniências para quem lá passava. Foi o início do IC12 que, depois, muito depois, seria prolongado até ao IP3, em Santa Comba Dão, falta ainda o troço de Canas a Mangualde. Aquela rodovia devia adoptar oficialmente a sua designação oficiosa: "auto-estrada do Atílio".  

Bem-humorado, sim, e com uma extrema habilidade para derreter o coração dos decisores políticos e levar a água ao seu moinho. Para início de qualquer conversa, Atílio apresentava-se dizendo: «sou um pedreiro com a quarta classe feita à noite.» Tomaram muitos professores doutores chegar-lhe aos calcanhares.

Em 2001, na agonia do guterrismo, no PS nacional ferviam as traições e as facadas nas costas. No PS-Viseu, idem, idem, aspas, aspas. Nesse ano eu fui candidato socialista à câmara de Viseu e, entre Maio e Dezembro, levei a minha dose.

Uma delas foi no dia 14 de Agosto, dia na inauguração da Feira de S. Mateus, em que o corta-fita tocou a um ministro socialista que, no discurso inaugural, fez uma oratória a hiperbolizar as façanhas do dr. Ruas do princípio ao fim. O ministro rosa arrebicocorou-se todo 
em panegíricos ao edil social-democrata. Foi um convite do princípio ao fim ao voto laranja.

Eu, o esfaqueado, mantive-me impassível. Já sabia o que a casa gastava. Embora não tenha batido palmas no fim, era o que mais faltava.

Seguiram-se os "shake-hands" cerimoniais, a descida luzidia dos vips na notável e bela escadaria da câmara municipal, onde, no tecto, avultam os retratos fabulosos de vinte e quatro viseenses ilustres.

Ainda antes das duas escadas se fundirem numa, o presidente Atílio virou-se para mim e disse e toda a gente à volta ouviu:

«Com socialistas assim, estás fodido, Alex!»

Eu estava fodido. Sabia disso desde o momento em que aceitei aquela empreitada. Sorri-lhe.

Quando nos despedimos, naquele dia, dei-lhe um abraço forte de gratidão. 

Atílio dos Santos Nunes morreu hoje. Com 79 anos. Era um homem bom.


Fica aqui este testemunho.

Um aplauso*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Não tem sido fácil perceber o que se está a passar com a entrada da santa casa da misericórdia de Lisboa no Montepio. Pedro Santana Lopes, em vez de explicar ao país o que se estava a passar, fechou-se em copas.

Só agora quando deixou a santa casa e se meteu na guerra do PSD é que o “menino guerreiro” informou o país que: (i) foi pressionado pelo Banco de Portugal e pelo governo, (ii) não bateu logo o pé, apesar de achar a operação desastrosa, (iii) empaliou a coisa, (iv) delegou o assunto no seu número dois, um boy socialista, (v) guardou-se para dizer um “não” no fim, mas esse “não” acabou por nunca acontecer.

Sem surpresa, Pedro Santana Lopes foi uma nulidade mais uma vez. Resta esperar que o poderoso Marcelo não deixe o boy socialista que ficou a tomar conta da santa casa enterrar 200 milhões de euros dos pobres nesta aventura.



2. O “Viseu Cultura”, o novo programa de apoio à actividade cultural da câmara de Viseu, diz querer “gerar um mercado” e “sustentabilidade” na oferta cultural no concelho.

É um objectivo sensato já que a multiplicação de eventos borliantes em Viseu está a criar rotinas nas pessoas que não são sustentáveis. Basta fazer notar que o futuro Viseu Arena, para ser viável, vai precisar de público que não estranhe ter de pagar por um espectáculo.

Jorge Sobrado, o vereador da cultura, merece aplauso. Este novo regulamento aperfeiçoa muito o anterior. Equilibra os vários envelopes financeiros, institui apoios bienais, e inova com o apoio à criação artística não integrada em eventos. Aleluia!

Para além disso, ainda compõe uma aberração do regulamento anterior que estragava dinheiro público ao dar uma percentagem maior de comparticipação municipal aos projectos maiores, o que convidava, como escrevi aqui na altura, à salgação dos orçamentos.

Merece também aplauso já ter havido a divulgação dos nomes dos membros do júri. Houve transparência e convites a gente com currículo e capaz de um bom trabalho.

Com paixão e hipocondria

Pintura de Gao Xingjian


Confortamo-nos com histórias laterais,
evitamos o toque, há risco de contágio;
por mais que preservemos a franqueza
passou o estágio já da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía
Margarida Vale de Gato


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Alcatrão neles*

* Publicado há exactamente dez anos, em 21 de Dezembro de 2007

Num longo ensaio, publicado no New York Times, em 17 de Outubro de 2004, Ron Suskind analisou a forma como George W. Bush foi perdendo o contacto com a realidade.

Suskind contou um encontro que teve com um conselheiro de topo do Presidente dos Estados Unidos: «O conselheiro disse que pessoas como eu estavam “naquilo que eles chamavam a comunidade baseada na realidade,” que ele definia como gente que “acreditava que as soluções emergiam a partir do estudo judicioso da realidade discernível.” Eu concordei e murmurei qualquer coisa acerca dos princípios das luzes e do empirismo. Ele interrompeu-me: “Já não é assim que o mundo funciona agora.” Continuou: “Agora somos um império e, quando agimos, criamos a nossa realidade própria. E, enquanto vocês estudam essa realidade, – com profundidade se quiserem – nós actuamos outra vez, criando uma nova realidade, que vocês podem estudar também, e é assim que as coisas vão acontecer. Nós somos actores da história… e vocês, todos vós, ficarão a estudar o que nós fazemos.”»

A “nova realidade” que o bushismo criou no Iraque foi morte, corrupção, violência sectária, degradação das condições de vida, especialmente das mulheres.

Como a nódoa é grande, chegou agora o tempo dos detergentes: Karl Rove, o principal guru de Bush, apareceu na TV a dizer que foi o Congresso, não o Presidente, quem precipitou a guerra do Iraque; Durão Barroso, numa entrevista ao DN, também já se quis pôr fora do filme.

O bando da Cimeira das Lages – Bush, Blair, Aznar, Barroso – ...

Daqui

... merecia o velho tratamento que era dado aos vilões: pegar nos quatro, levá-los a Campo de Besteiros, aspergi-los de alcatrão de cima abaixo e soltá-los no meio de um aviário cheio de galinhas poedeiras.

Fica

Fotografia de Wang Fuchun


Fica longe das pessoas de bom senso
fica perto dos apaixonados
nem que estejas só e não seja por ti
fica antes num luto perplexo
porque o bom senso é contagioso
e dá sempre cabo deles.
Judith Herzberg
Trad.: Ana Maria Carvalho

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Bem-vindo

»Grinders — an encounter with DIY cyborgs«
por Hannes Wiedermann



Sua frustração é óbvia.
A culpa é de quem compra
o DVD do V de Vingança
e converte para VHS.
A culpa é do Pai
solteiro com wi-fi.
Novas tecnologias
surgem para reproduzir
nossas vidas: na tela
do celular você
passa o possível
para o Possível. O que
você deseja? Suas
excepções lhe excedem
compulsivamente. Mas
o prazer permanece
rude e inatingível. In
suficiente. Como eu posso
lhe ajudar? Eu sou mero
aplicativo gratuito.
O um por cento
cúmplice e diacrónico
carrasco e financeiro
Nero e Suetónio.
Por favor, aguarde
enquanto actualizo
seu perfil. Não
há novas mensagens.
Não há notificações.
O mundo é o mesmo.
Você gostaria de velejar
praticar surf ou Odisseia?
Seus amigos pensam apenas
em você e marcam O
seu rosto. Lembra
quando você tinha um rosto?
Nós estávamos de férias.
Era verão e as tardes
tinham gosto de amora.
Seus jeans convinham sujos
sob o infinito. Me diga
se eu estou errado.
Eu lhe imploro,
corrija-me agora, me
diga se ainda restam
expectativas. #YOLO.
Eu sou um gigantesco
YOLO tatuado na
panturrilha da
sua instrutora
de Pilates. Sorria.
Comemore. Compartilhe.
Rubens Akira Kuana


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Não custa nada


Duas histórias

Fotografia Olho de Gato



I
Vou contar uma história.
Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro.
Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior.
Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando.
O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados.
Herberto Helder






II
Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra.
Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente.
Quando cada uma devorou a outra não ficou nada.
Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.
Ana Hatherly

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Inés Arrimadas — 21-D



Inés Arrimadas foi declarada "persona non grata" pelos nacionalistas do Ayuntamiento de Llavaneres.

Gente tóxica que faz proscrições aos seus adversários políticos.

Gente tóxica que nunca será declarada "non grata" por Inés Arrimadas se os Catalães a puserem na presidência da Generalitat da Catalunha.

E isso distingue quem é democrata de quem não o é.

Realismo

Fotografia de Maxim Chelak

Tinhas a mesma vontade que eu
de louvar a imperfeição
de chamar as coisas pelos nomes

mesmo as que nem chamar se chamam
e o desatino do extremo cansaço.
É por isso que a nossa felicidade,
a que nem sabemos se é
(mas podemos fingir)
está na tristeza que aclamo, logo ao despontar do dia
e na rotina que me despejas, por vezes,
ao fechar da noite.
A minha fé está na dedicação
com que arrumas a loiça lavada
e a tua,
está na emoção com que ajeito os lençóis
antes de fechar os olhos.

Não existe mais nada para além deste querer
Querer sentar-me contigo
e contar-te o desnorte amargo das
minhas palavras
querer
continuar a adorar-te, apesar da dor de estômago.

Não te escondo que já me doeram todas as coisas
a vida, a não vida,
a voz, os cabelos, o pão
mas ao saber-te sentado no momento em
que abrir a porta
deus da secretária de madeira
pai-nosso, amor-meu!
tão existente quanto despojado das
grandes coisas
não há mundo nem ponta de estômago por
mais inflamada que esteja

que me impeçam
de não-doer.
Cláudia R. Sampaio


domingo, 17 de dezembro de 2017

Depois de jantar

Daqui


Depois de jantar
saio
e passeio o meu coração
acenando cabeça cúmplice
aos vizinhos
que vivem também este peso
de passear os seus bichos à trela
André Tecedeiro


sábado, 16 de dezembro de 2017

Moeda ao ar para decidir o serão deste sábado



Teatro Viriato ou Acert?

Viseu ou Tondela?

Cristina Branco ou Samuel Úria?





"And Now For Something Completely Different" (#173)

Cena apagada do filme Mistery Man, de Kinka Usher (1999)

«Do you like something sweet?... go ahead...»

Elegia do amor

Fotografia de Nobuyoshi Araki 



Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti…
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória…
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.

Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos…
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim…
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste… Ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor.
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,

Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos…
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia…
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve — sim!
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.

Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
— Que incêndio! — E eu, a rir,
Disse-te — É a lua cheia!…
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo,
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.
Teixeira de Pascoaes


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Consanguinidade*

* Hoje no Jornal do Cemtro


1. Onde pára a lista dos grandes devedores da CGD? Para quem foram as centenas de milhões de euros que a caixa emprestou sem juros?

Infelizmente, a comissão parlamentar de inquérito à CGD foi sabotada pela geringonça e não serviu para se saber nada. Os deputados fizeram o triste papel de múmias paralíticas.

Neste ano, cada português entrou com 250 euros para o resgate do banco do estado. E, como não chegou para tapar o buraco, para o ano que vem logo se há-de ver. Não há ninguém preso. Nem vai haver.

2. Pedro Santana Lopes, antes do seu mergulho no rio laranja, ainda teve tempo para avançar no dossier da entrada da santa casa da misericórdia de Lisboa no capital do Montepio. Já há números: vão ser duzentos milhões de euros de dinheiro dos pobres por 10% do Montepio. As máquinas de calcular do menino guerreiro e do governo acham que aquela banqueta vale 2 mil milhões. Compare-se com o valor em bolsa do BPI: 1,65 mil milhões.

No governo, o pé de Centeno e o pé de Vieira da Silva vão carregando, à vez, no acelerador desta operação “raríssima”. Ninguém põe travão nisto?

3. A economia social já representa mais de 6% do emprego do país. Em muitos concelhos do interior é quase o único canal para obter um trabalho pago.

Há aqui um poder imenso que precisa de ser escrutinado. Foi o que fez este jornal, na última edição, ao descrever as recentes mordomias do provedor da misericórdia de Resende. Foi o que fez a TVI ao descrever as incursões da ex-presidente da Raríssimas ao El Corte Inglés.




4. Ficou a saber-se, naquela reportagem de Ana Leal, que o ministro Vieira da Silva, além de ter uma filha a secretária de estado, tem a mulher a deputada.

Pois é: o familismo que vai em crescendo no PS-Viseu não é uma originalidade local.

Uma coisa é certa: o PS, que se diz republicano, ou contraria esta dinâmica ou corre severos riscos de consanguinidade. E esta, como se sabe, costuma avariar os genes.