quinta-feira, 26 de abril de 2018

Poema quotidiano

Fotografia Olho de Gato

É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo

Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro
Ruy Belo















quarta-feira, 25 de abril de 2018

Dar o salto*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 25 de Abril de 2008
    
1. No Centro Cultural de Belém está patente a Exposição “Gérald Bloncourt, Por uma vida melhor”, dedicada à vida dos portugueses que emigraram para a França, na década de 60.
     
Quando tinha 20 anos, o fotógrafo Gérald Bloncourt foi expulso do seu país, o Haiti, e teve que se exilar. Por isso, percebeu sempre bem o sofrimento de quem tem que ganhar a vida num país estrangeiro.
    
Foi o caso de muitos emigrantes portugueses que foram atirados para as “bidonvilles”, literalmente, “cidades de bidões”. 

Gérald Bloncourt retratou essa gente em fotografias magníficas.

     
2. Muitos ex-emigrantes, com quem nos cruzamos hoje nas ruas de Viseu, foram uns autênticos heróis.
     
Emigrar implicava muitas vezes ter que vender as últimas terras, ou ficar endividado, e partir para um país desconhecido com uma língua estranha. Quando não havia documentos, as fronteiras eram atravessadas a pé. Nos Pirinéus era particularmente duro e perigoso. Chamava-se a esta aventura “dar o salto”. E “dar o salto” significava ficar exposto aos abutres porque, quando há pessoas em perigo, há sempre abutres. 

 
    
Nesta Exposição do CCB pode ver-se um documentário de 2002, de José Vieira, que se chama A Fotografia Rasgada, em que os emigrantes, ao contarem as suas vidas, contam também como pagavam aos “passadores”, os homens que sabiam os truques para “dar o salto”.
     
O emigrante rasgava ao meio uma fotografia sua. Ficava com uma parte e dava a outra ao “passador”. Quando, finalmente, o nosso emigrante chegava a França, enviava para cá, numa carta, a sua metade da fotografia. Só então é que a família, depois de completar o puzzle com as duas partes da fotografia, pagava ao “passador”.

O poder


1.
Um herói
À mesura
Da sua estatura
Vai sempre à procura
Ond' inda ninguém foi
Um herói
Não descura
Um ou outro dói-dói
Uma dura aventura
Não mata mas mói
Caso venha a ser preciso
Arriscar qualquer coisinha
Na operação
Um herói no seu juízo
Leva sempre uma pilinha
Em cada mão
Com a cobertura da instituição
Mais aquilo do Deus-Pátria-Canhão
Um herói nunca se corta
Meio olho-vivo, meio mão-morta
A porta
Não importa

Poder
Quem o tem, tem ascendente
Poder
Quem o tem, faz-se valente
Bem usado
Mal usado
O poder é prepotente
Assim
Diz o povo amiúde
Assim
Herói era toda a gente
Mais val' rico e com saúde
Do que pobre e doente


2.
Um herói
Façanhudo
É de tudo capaz
Faz ao peixe miúdo
O que mais ninguém faz
Um herói
Catrapás
Salta dos quadradinhos
Puxa os cordelinhos
E eles vêm atrás
Com algum equipamento
Assegura a quadratura
Da operação
E o simbólico instrumento
É uma armadura dura
Em cada mão
Um herói é o garante, o bastão
Dessa coisa do Deus-Pátria-Canhão
Nunca teme, nunca se corta
Come peixinhos da horta
Mulher morta
Não aborta


Poder
Quem o tem, tem ascendente
Poder
Quem o tem, faz-se valente
Bem usado
Mal usado
O poder é prepotente
Assim
Diz o povo amiúde
Assim
Herói era toda a gente
Mais val' rico e com saúde
Do que pobre e doente
José Mário Branco



terça-feira, 24 de abril de 2018

Frustração

Fotografia Olho de Gato

Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.
Miguel Torga


segunda-feira, 23 de abril de 2018

Los adioses




Hubiera podido obsequiarte
aquel cine donde vimos
Notting Hill y American Beauty.

Hubiera querido regalarte los hoteles donde nos escondimos
Me hubiera gustado ser el dueño del café en que nos despedimos
Donde escuchamos tantas canciones que hoy son un soundtrack de nuestras vidas.

Y fui ventana donde se estrellaron pájaros
Y el sol me calentó como campanas de bronce de una gótica catedral
Como ángeles que buscan en los escombros restos de su vuelo
Y la luz más allá del paraíso.

Y no hubo obsequios
Y puse el cielo sobre tu cuerpo y lo volviste viento
Y puse el viento sobre tus ojos y lo volviste sueño
Puse sueño en tu silencio
Y lo volviste noche
Y esta noche no hay cielo, viento y sueño
Que conviertan mi corazón
En una luz donde retorne el amor.

Y es por este amor lejano y verdadero
Que las palabras tienen música sobre el papel que nadie canta
Como quien golpea durante horas una casa vacía
Como quien patea latas vacías en el corazón.
Federico Díaz-Granados


domingo, 22 de abril de 2018

Violência urbana (#36)


Gif Olho de Gato

Somewhere i have never travelled, gladly beyond

Daqui

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the colour of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands”
E.E. Cummings


sábado, 21 de abril de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#191)


A uva sem caroço

Daqui

Que mistério, pra mim, a uva sem caroço
Uma espécie de carne sem osso
Um tipo incomum de estrutura
Destituída da sua parte dura

Que mistério, pra mim, mais saboroso
O facto de uma uva sem caroço
Pois, afinal, de que galho, de que semente
Se falta à fruta justo a sua semente?


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Para lamentações*

* Hoje no Jornal do Centro

O título deste Olho de Gato assume o nada original jogo de palavras: a nossa vida parlamentar é para lamentar.

Cada vez há mais berbicachos com o fim do mês dos deputados. São sarilhos e mais sarilhos que a comissão de “ética” do parlamento e os visados tentam remendar com o costumeiro: “não houve incumprimento da lei”. Desta dupla negativa não sai nada de positivo para a casa da democracia que devia ser a primeira dar o exemplo.

Há uns anos, Inês de Medeiros, eleita por Lisboa, só não pôs o parlamento a pagar-lhe os bilhetes semanais de avião para Paris porque houve um escarcéu danado. Casos de deputados com casinha em Lisboa mas que dão uma morada no círculo por onde foram eleitos são mais do que as mães. O último — apanhado literalmente na casa da mãezinha — foi Feliciano Barreiras Duarte. Mas há mais.


Fotografia de Pedro Nunes
Lusa (daqui)
O Expresso divulgou o extraordinário caso de oito deputados, o poderoso Carlos César incluído, todos eleitos pelas ilhas, que, além de abicharem quinhentos euros por semana para deslocações, ajuntam em cima deste pecúlio o valor dos bilhetes de avião.

Um dos apanhados, o deputado Paulino Ascensão, confessou ter tido uma “prática incorreta” (rima com “forreta”, mas a culpa é do acordês com que escreveu o comunicado). E o bloquista, “após reflexão”, diz que desforreta o dinheiro indevidamente recebido para o entregar a instituições sociais da Madeira. E comunica que renuncia ao lugar.

Mal li este comunicado, elogiei o homem nas redes sociais e mandei uma ferroada em Carlos César. A ferroada foi justa, o panegírico, uma precipitação. Elogiar esta gente é uma imprudência. Afinal o bloquista, lá na sua prosa, absteve-se de referir que já tinha previsto sair de Lisboa para ir para um lugar político no Funchal. Afinal, como tinha sido apanhado com a boca na botija, tinha só antecipado a saída.

Vamos lá ver, agora, se o bloco deixa o Paulino Ascensão ascender ao lugar que lhe tinha reservado na Madeira.

Fábrica do poema

Fotografia de John Noonan



sonho o poema de arquitetura ideal
cuja própria nata de cimento encaixa palavra por
palavra,
tornei-me perito em extrair faíscas das britas
e leite das pedras.
acordo.
e o poema todo se esfarrapa, fiapo por fiapo.
acordo.
o prédio, pedra e cal, esvoaça
como um leve papel solto à mercê do vento
e evola-se, cinza de um corpo esvaído
de qualquer sentido.
acordo,
e o poema-miragem se desfaz
desconstruído como se nunca houvera sido.
acordo!
os olhos chumbados
pelo mingau das almas e os ouvidos moucos,
assim é que saio dos sucessivos sonos:
vão-se os anéis de fumo de ópio
e ficam-se os dedos estarrecidos.

sinédoques, catacreses,
metonímias, aliterações, metáforas, oxímoros
sumidos no sorvedouro.
não deve adiantar grande coisa
permanecer à espreita no topo fantasma
da torre de vigia.
nem a simulação de se afundar no sono.
nem dormir deveras.
pois a questão-chave é:
…..sob que máscara retornará o recalcado?

(mas eu figuro meu vulto
caminhando até a escrivaninha
e abrindo o caderno de rascunho
onde já se encontra escrito
que a palavra “recalcado” é uma expressão
por demais definida, de sintomatologia cerrada:
assim numa operação de supressão mágica
vou rasurá-la daqui do poema.)

pois a questão-chave é:
…..sob que máscara retornará?
Waly Salomão


quinta-feira, 19 de abril de 2018

Três coisas

Fotografia de Malcolm Green



Não consigo entender
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo é muito comprido
A morte não tem sentido
Teu olhar me põe perdido

Não consigo medir
O tempo
A morte
Teu olhar

O tempo, quando é que cessa?
A morte, quando começa?
Teu olhar, quando se expressa?

Muito medo tenho
Do tempo
Da morte
De teu olhar

O tempo levanta o muro.

A morte será o escuro?

Em teu olhar me procuro
Paulo Mendes Campos


quarta-feira, 18 de abril de 2018

Obrar*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Abril de 2008

1. Entrámos em mais um ciclo de cimento e alcatrão. Com a chegada dos fundos comunitários e a pressão do calendário eleitoral, chegou o tempo das empreitadas; vamos ter um ano e meio de reportagens com políticos de fato escuro e capacete amarelo enfiado no cocuruto.

Do ministro com o livro de cheques mais recheado ao presidente de junta da mais pequena freguesia, tudo se prepara para “obrar” rapidamente e em força.

Portugal, com este obreirismo todo, progride como o caranguejo nos rankings da União Europeia. Vai ser ultrapassado até pelos países do leste que aderiram à União Europeia em 2004.

O dinheiro abundante e fácil dos últimos 20 anos, proveniente dos fundos comunitários, aumentou a corrupção e fez o país perder o sentido da frugalidade. A mancebia cada vez mais descarada entre as elites políticas e as elites económicas não ajuda nada.

Estraga-se muito. Esquece-se que o dinheiro dos fundos comunitários é fruto do suor do trabalho dos europeus (também do suor dos portugueses) e que deve ser gerido com critério e a pensar no interesse público.

Fotografia Olho de Gato

2. Li, na última edição deste jornal, que o Estudo para o Centro Histórico de Viseu recomenda a requalificação da Praça D. Duarte e da Rua Grão Vasco. Deve ser defeito meu, mas não percebo. Qual é a ideia? Tirar granito novo para pôr granito novo?

3. Tanto José Sócrates como Fernanda Câncio têm feito um esforço enorme para que a sua vida privada fique privada. Têm esse direito e merecem aplauso por esse esforço.

No último sábado, o vice-presidente do PSD, Rui Gomes da Silva, convocou uma conferência de imprensa e falou do “relacionamento” do primeiro-ministro. Apetece-me perguntar como o blogue Boas Intenções: “Estes senhores vêm com cérebro incluído?”

Frutos e flores

Fotografia de Marissa Price


Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.
Marina Colasanti


terça-feira, 17 de abril de 2018

Juro

Fotografia de Craig Whitehead



Poema feito a partir do primeiro verso de As Ilhas VII, do livro "Navegações", 
um dos últimos da Sophia

Difícil é saber de frente a tua morte
Difícil é ter quarenta anos.
Difícil é saber que o teu amor
representa a morte para o teu amado.
Difícil é quereres partir
e eu sem herança para te dar:
faço-te a mala.
Difícil vai ser fazer arroz
e, no dia seguinte, comer a tua parte
arrefecida.
Difícil vai ser comprar menos pão,
menos ovos,
menos favas.
Palavra que vai ser difícil
e palavra dada é palavra jurada.
Ana Paula Inácio


segunda-feira, 16 de abril de 2018

Imagínate ahora que tú y yo

Fotografia de Joshua Coleman


Imagínate ahora que tú y yo
muy tarde ya en la noche
hablemos de hombre a hombre, finalmente.
Imagínatelo,
en una de esas noches memorables
de rara comunión, con la botella
medio vacía, los ceniceros sucios,
y después de agotado el tema de la vida.
Que te voy a enseñar un corazón,
un corazón infiel,
Desnudo de cintura para abajo,
Hipócrita lector — mon semblable — mon frère!


Porque no es la impaciencia del buscador de orgasmo
quien me tira del cuerpo hacia otros cuerpos
a ser posible jóvenes:
Yo persigo también el dulce amor,
el tierno amor para dormir al lado
y que alegre mi cama al despertarse,
cercano como un pájaro.
¡Si yo no puedo desnudarme nunca,
si jamás he podido entrar en unos brazos
sin sentir -aunque sea nada más que un momento-
igual deslumbramiento que a los veinte años!.


Para saber de amor, para aprenderle,
haber estado solo es necesario.
Y es necesario en cuatrocientas noches
— con cuatrocientos cuerpos diferentes —
haber hecho el amor. Que sus misterios,
como dijo el poeta, son del alma,
pero un cuerpo es el libro en que se leen.


Y por eso me alegro de haberme revolcado
sobre la arena gruesa, los dos medio vestidos,
Mientras buscaba ese tendón del hombro.
Me conmueve el recuerdo de tantas ocasiones...
Aquella carretera de montaña
y los bien empleados abrazos furtivos
y el instante indefenso, de pie, tras el frenazo,
pegados a la tapia, cegados por las luces.
O aquel atardecer cerca del río
desnudos y riéndonos, de hiedra coronados.
O aquel portal en Roma en vía del Babuino.
y recuerdos de caras y ciudades
apenas conocidas, de cuerpos entrevistos,
de escaleras sin luz, de camarotes,
de bares, de pasajes desiertos, de prostíbulos,
y de infinitas casas de baños,
de fosos de un castillo.
Recuerdos de vosotras, sobre todo,
o noches en hoteles de una noche,
definitivas noches en pensiones sórdidas,
en cuartos recién fríos,
noches que devolvéis a vuestros huéspedes
un olvidado sabor a sí mismos!
La historia en cuerpo y alma, como una
imagen rota,
de la langueur goutée a ce mal d'être deux.
Sin despreciar
- alegres como fiesta entre semana -
las experiencias de promiscuidad.


Aunque sepa que nada me valdrían
trabajos de amor disperso
si no existiese el verdadero amor.
Mi amor,
          Íntegra imagen de mi vida,
sol de las noches mismas que le robo,
su juventud, la mía,
- música de mi fondo -
sonríe aún en la imprecisa gracia
de cada cuerpo joven,
en cada encuentro anónimo,
iluminándolo. Dándole un alma.
Y no hay muslos hermosos
que no me hagan pensar en sus hermosos muslos
cuando nos conocimos, antes de ir a la cama.


Ni pasión de una noche de dormida
que pueda compararla
con la pasión que da el conocimiento,
los años de experiencia
de nuestro amor.
Porque en amor también
es importante el tiempo,
y dulce, de algún modo,
verificar con mano melancólica
su perceptible paso por un cuerpo
— mientras que basta un gesto familiar
en los labios,
o la ligera palpitación de un miembro,
para hacerme sentir la maravilla
de aquella gracia antigua, fugaz como un reflejo.


Sobre su piel borrosa,
Cuando pasen más años y al final estemos,
quiero aplastar los labios invocando
la imagen de su cuerpo
y de todos los cuerpos que una vez amé
aunque fuese un instante, deshechos por el tiempo.


Para pedir la fuerza de poder vivir
sin belleza, sin fuerza y sin deseo,
mientras seguimos juntos
hasta morir en paz. Los dos,
como dicen que mueren los que han amado mucho.
Jaime Gil de Biedma





domingo, 15 de abril de 2018

She's crazy


Let me tell you a story
About a little girl I know
When she walks into a room
You know she steals the show
She's crazy
And it's more than I can stand






sábado, 14 de abril de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#190)

O adjectivo

Fotografia Olho de Gato



O adjectivo? Que horror
quando não é incisivo
quando atira para o vago
o pobre substantivo
ou o circunda de um halo
de um falso resplendor,
em que o ouro utilizado
não é ouro é só dourado!


O sol assim captado
é sol, mas sol de teatro,
ouro em falsete, luz barata,
e no prego não dá nada,


que o prego não acredita
(senão já estava falido)
nesse ouro sem quilate
que usam a valdevina

e o poeta que se orna
(que orneia, melhor diria)
de luzidias mentiras,
de poética poesia.

Disse pouco do que queria
na parte que antecede.
Se é discursiva, a poesia
também não serve...

Voltando ao adjectivo
(nada tenho contra ele):
é melhor ficar despido,
cosido co'a própria pele,

do que pedir emprestada
a piedosos enchumaços
aquela largura de ombros
que nos faz ginasticados,

quando, em verdade, não temos
mais ginástica do que essa
em que somos atletas
e que se resume apenas

no aguentar alegre
do peso quotidiano
(pode ser que para o ano
a terra nos seja leve).

Tal como do mal o menos
- e nesta regra redijo-
antes quero sóbrios termos
do que fingir que sou rico...
Alexandre O'Neill


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Fungo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Hannah Harendt, no seu livro “Eichmann em Jerusalém”, lembra-nos que o mal “pode invadir tudo e assolar o mundo inteiro (...) porque se espalha como um fungo.”

Está a ser difícil achar um fungicida que atalhe o mal populista. As eleições na Hungria foram uma decepção. As denúncias sobre a corrupção do “Viktador” Orbán e da sua clique não lhe causaram estragos eleitorais nenhuns, antes pelo contrário.

A chegada de um partido populista ao poder não é, em si, uma tragédia. Por vezes, é até bom que as suas receitas simplistas choquem com a realidade. Veja-se o caso do Syriza. Depois de meio ano de desvario que culminou na vigarice do referendo OXI, Tsipras ganhou juízo. O mesmo há-de acontecer em Itália se chegar a haver um governo do Cinco Estrelas.

O populismo só se torna um fungo letal quando, chegado ao poder, tem força para anular os contra-pesos de uma democracia — a independência dos media e dos tribunais. Quando tal acontece, alapam-se, pelo voto não saem, só através da força.

As instituições democráticas norte-americanas parecem estar a resistir bem ao populismo trumpista. Mas na Hungria elas soçobraram ao fungo orbánista. O bando que manda no país está agora a fazer compras sistemáticas de terras, está a virar latifundiário. Os fundos europeus são mafiados assim perante o silêncio cobarde da “Europa”.


Fotografia Olho de Gato
2. António Costa, depois do bruaá feito pelos agentes culturais e da sonsice de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, foi rapar mais algum pilim no fundo das gavetas de Mário Centeno para apoiar as artes. A pergunta que se impõe agora é: como evitar que a parte de leão desse “mais algum” vá ficar, também ela, em Lisboa?

Para que se saiba: a geringonça aumentou as verbas nacionais para apoio à cultura mas cá diminuiu-as fortemente. O ministério quer tirar 130 mil euros por ano à Acert e 93 mil ao Teatro Viriato.

Onde estão os eleitos com os nossos votos capazes de evitar que tal aconteça?

Só um rumor

Fotografia de Patrick Fischer

acredita em mim: é só um rumor
não sei escrever o vento, nem como se nasce outra vez.

nunca soube como se tece no piano a face vazia do tempo.

por favor, não perguntes:
pois eu não sei como germina um poema,
nem quantos dias cabem no teu rosto.

E como se conjuga a cidade e o adeus?

Perguntas, mas eu não sei o que é a morte.
Ricardo Gil Soeiro

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Muito melhor seria

Fotografia de Louis Amal

muito melhor seria
se fosses devir
roldana água
cicatriz caixa de música 
em vez de caixa negra
liga desliga 
pavlov insurpreso
A. Khimm




quarta-feira, 11 de abril de 2018

Zombie*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 11 de Abril de 2008 

Daqui
1. No dia 4 de Abril, o Washington Post trazia um artigo - “Every click you make”, de Peter Whoriskey - que explica como alguns fornecedores de acesso à net processam a informação acerca dos nossos hábitos, das nossas pesquisas, dos nossos mails, dos sites e dos blogues que consultamos. Eles usam sistemas com algoritmos cada vez mais sofisticados para fazerem os perfis de cada cliente. Aquele artigo do Post é um bom ponto de partida para quem quiser aprofundar o tema.

Para melhor compreensão do que está em causa, deixo-lhe só um exemplo do que já é possível com as tecnologias disponíveis: às 17 horas, o cidadão X procura no Google preços de um GPS; às 17H15, o mesmo cidadão, de clique em clique, chega ao site de um jornal português e aparece-lhe, a ele e só a ele, um anúncio da TomTom.

E se toda esta informação, que acaba por saber mais de nós que nós próprios, cai em mãos erradas?

2. Quatro dias depois da manifestação de cem mil professores em Lisboa, o ministério recuou na “avaliação dos professores”. Aprovou um memorando que fala em “processos de avaliação (…) simples”e em “diferentes ritmos e condições para a concretização”; fala, como não podia deixar de ser, da criação de um grupo de trabalho e termina a prometer futuras “compensações” para os avaliadores.

Traduzido para língua de gente, aquele memorando quer dizer que, na “avaliação de professores”, ficou tudo menos a avaliação. Ficou uma palhaçada que vai custar dezenas de milhar de horas de trabalho inútil, a fazer até Julho, e que vai dar “Bom” a todos os avaliados.

As escolas vão ter de fazer uma tarefa estéril só para “salvar a face” à ministra. E, afinal, para quê? Maria de Lurdes Rodrigues, agora, já pouco mais é de que um zombie político.

That was my view

Fotografia de Chang Duong

That was my view
Like the sun gazing back at me, your eyes are looking straight at me
I can feel destiny I can See you But your sins I do not Know
Because like the moon you do not glow
I can see you but I can not feel you

Out of Sight these feelings are so tight will I see you I might
Forever in my mind are my visions of you and hoping you seeing this too
Look at me again
Tell me what you see or feel.

This pain of not seeing you will it heel, the pathway to heaven is not so clear
Like you like a far distant star,
I can not touch the fear of not knowing too much, about you
What did you feel about me, what’s your vision of me, what did you see when you looked at me with a stare you gave no one else
I could feel destiny calling shinning on me, looking at me and no one else only at me you looked at me as though I was he

I looked at you, is my vision of you gone
Like the wind, like the sea, like the moon,
Like the sun, please come back
In my view
Paul Ambrose



terça-feira, 10 de abril de 2018

Por aquí pasa un río

Rio Pavia — Soutulho
Fotografia Olho de Gato

Por aquí pasa un río.
Por aquí tus pisadas
fueron embelleciendo las arenas,
aclarando las aguas,
puliendo los guijarros, perdonando
a las embelesadas
azucenas...
No vas tú por el río:
es el río el que anda
detrás de ti, buscando en ti
el reflejo, mirándose en tu espalda.
Si vas deprisa, el río se apresura.
Si vas despacio, el agua se remansa.
Ángel González


segunda-feira, 9 de abril de 2018

Destra-sinistra

Daqui


Tutti noi ce la prendiamo con la storia
Ma io dico che la colpa è nostra
È evidente che la gente è poco seria
Quando parla di sinistra o destra

Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...

Fare il bagno nella vasca è di destra
Far la doccia invece è di sinistra
Un pacchetto di Marlboro è di destra
Di contrabbando è di sinistra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...
Una bella minestrina è di destra
Il minestrone è sempre di sinistra
Tutti i films che fanno oggi son di destra
Se annoiano son di sinistra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...
Le scarpette da ginnastica o da tennis
Hanno ancora un gusto un po' di destra
Ma portarle tutte sporche e un po' slacciate
È da scemi più che di sinistra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...

I blue-jeans che sono un segno di sinistra
Con la giacca vanno verso destra
Il concerto nello stadio è di sinistra
I prezzi sono un po' di destra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...
I collant son quasi sempre di sinistra
Il reggicalze è più che mai di destra
La pisciata in compagnia è di sinistra
Il cesso è sempre in fondo a destra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...
La piscina bella azzurra e trasparente
È evidente che sia un po' di destra
Mentre i fiumi, tutti i laghi e anche il mare
Sono di merda più che sinistra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...

L'ideologia, l'ideologia
Malgrado tutto credo ancora che ci sia
È la passione, l'ossessione
Della tua diversità
Che al momento dove è andata non si sa
Dove non si sa, dove non si sa

Io direi che il culatello è di destra
La mortadella è di sinistra
Se la cioccolata svizzera è di destra
La Nutella è ancora di sinistra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...
Il pensiero liberale è di destra
Ora è buono anche per la sinistra
Non si sa se la fortuna sia di destra
La sfiga è sempre di sinistra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...
Il saluto vigoroso a pugno chiuso
È un antico gesto di sinistra
Quello un po' degli anni '20, un po' romano
È da stronzi oltre che di destra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...

L'ideologia, l'ideologia
Malgrado tutto credo ancora che ci sia
È il continuare ad affermare
Un pensiero e il suo perché
Con la scusa di un contrasto che non c'è
Se c'è chissà dov'è, se c'é chissà dov'é

Tutto il vecchio moralismo è di sinistra
La mancanza di morale è a destra
Anche il Papa ultimamente
È un po' a sinistra
È il demonio che ora è andato a destra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...
La risposta delle masse è di sinistra
Con un lieve cedimento a destra
Son sicuro che il bastardo è di sinistra
Il figlio di puttana è di destra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...
Una donna emancipata è di sinistra
Riservata è già un po' più di destra
Ma un figone resta sempre un'attrazione
Che va bene per sinistra e destra
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...

Tutti noi ce la prendiamo con la storia
Ma io dico che la colpa è nostra
È evidente che la gente è poco seria
Quando parla di sinistra o destra

Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...
Ma cos'è la destra cos'è la sinistra...

Destra-sinistra
Destra-sinistra
Destra-sinistra
Destra-sinistra
Destra-sinistra
Basta!
Giorgio Gaber