segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Heranças



abandonará a casa
teu pai
com olhos de rico
bolso de pobre
como todo aquele que
pressentindo-a
lhe toma o lugar

quando o dia findar
perseguirás o caminho mais longo
sabê-lo-ás pendente
do ramo mais forte
da penúltima árvore

a última deixá-la-á para ti
Ana Paula Inácio


domingo, 21 de janeiro de 2018

Escrevo o teu lugar nas palmas das mãos

Fotografia Olho de Gato

escrevo o teu lugar nas palmas das mãos
ao longo de muros projecto sombras gestos
o voo de pássaros e corro
pertenço às noites de rios que amas e cantam
que se escondem em poços mais profundos
precipitando-se em direcção ao inverno

sem regresso toco a música que fica
mais perto da distância
a minha partida estava já nos nós dos teus dedos
nos anéis dos teus cabelos

no teu sorrir que fios de música
teceram para que se desperdiçasse
Tatiana Faia


sábado, 20 de janeiro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#178)








Gisela João e o ET








E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado.
Quis falar mas disse "pi",
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho,
disse para me pôr a pau,
pois na terra donde vinha
nem há cheiro de sardinha
quanto mais de bacalhau.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

João Luís Oliva e Júlio Pereira à conversa


#MeToo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Num programa do Canal+ francês, um dos animadores, Laurent Bafie, na brincadeira, levantou um pouco a saia de Nowellnn Leroy e repetiu a graça resvalando a mão no joelho dela. A cantora riu-se muito, pegou-lhe na mão, disse que eram amigos há muito tempo e elogiou-o. De nada valeu. As redes sociais chamaram-no de tudo: «machista», «grande porco», «misógino», «grosseiro», por aí fora.

O actor Adam Sandler pôs a mão no joelho de Claire Foy numa entrevista na BBC. 
Daqui
A actriz emitiu um comunicado a dizer que não se sentiu nada ofendida. De nada valeu. Adam foi chamado de tudo nas redes sociais que, como se sabe, estão sempre a arder com uma indignação qualquer.

Só mais um caso. Em 2002, o político britânico Michael Fallon pôs a mão no joelho da jornalista Julia Hartley-Brewer. Esta mandou-o parar e ele parou. A seguir, pediu desculpas pelo incidente e reconheceu publicamente numa conferência que “tinha ultrapassado as marcas”. Só que agora, quinze anos depois, na sequência do movimento #MeToo, o caso borbulhou outra vez, e ele acabou por se demitir de ministro da defesa. A própria dona do joelho achou “doida” aquela demissão.

2. Tantos casos com joelhos fizeram-me lembrar o filme “O Joelho de Claire”, um dos seis contos morais de Eric Rohmer. A ligação é óbvia e deve ter ocorrido a muitos milhares de pessoas por esse mundo fora. Por exemplo, Paulo Almeida Sande já deu também este salto cinéfilo no Observador.

Vi esta obra-prima da nouvelle vague há mais de trinta anos numa sessão do Cine Clube de Viseu, ainda faltava muito para chegarmos ao neo-puritanismo hipócrita que estamos a viver agora. O protagonista do filme, um diplomata trintão chamado Jerome, passa umas férias fixado no joelho de Claire. Todo o filme é construído à volta dessa obsessão.

Ora, no velho Auditório da Feira de S. Mateus, quando Jerome, finalmente, pôs a mão no joelho de Claire, uma boa parte da assistência pôs-se a bater palmas de aplauso. Eu também.

Maçã

Daqui

… foi-se a turma da apanha…
… amadura a maçã…
… chegando-se ao doce…
…. vermelho…
… naquele ramo lá…
… deslembrada…
… ou…
…  fora do alcance?
Safo
Trad.: Joaquim Brasil Fontes Júnior


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Liberdade*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Janeiro de 2008

Fotografia Olho de Gato
1. António Barreto, na edição de 6 de Janeiro do Público, pôs na mesma frase o nome do primeiro-ministro e a terrível palavra começada por “f”. Escreveu ele: “Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei.”

António Barreto está preocupado com a liberdade. O que tem acontecido depois do 11 de Setembro, de facto, não nos deve deixar descansados. Os estados apertam cada vez mais o controlo dos cidadãos. Dizem-nos que isso é necessário para combater o terrorismo e que “quem não deve, não teme”. Sempre que deixamos que nos vigiem mais a nossa vida por causa desse “quem não deve, não teme”, é mais uma vitória de Bin Laden; mas é justo lembrar que este andar para trás das nossas sociedades abertas não é um exclusivo português.

Um só exemplo deita por terra todos os pressentimentos de António Barreto sobre o líder do governo. José Sócrates aceitou idas quinzenais ao Parlamento com regras muito mais duras para o primeiro-ministro. Sócrates deu, portanto, poder às oposições. Ora, por definição, um fascista não dá poder às oposições.


Numa coisa António Barreto tem razão: precisamos de usar mais a liberdade. E sem medo.


2. Já que ninguém pergunta, pergunto eu:
Caras e caros viseenses, ficam descansados ao saberem que o Hospital de S. Teotónio tem o seu Director Clínico em part-time?

3. Durante os anos em que liderei a oposição autárquica em Viseu, habituei-me a apreciar a intervenção, na Assembleia Municipal, de Jorge Adolfo Marques. Preparado, frontal, sem medo de correr riscos numa altura difícil para o PS, fez muito pela memória e pelo património do concelho. Obrigado, Jorge Adolfo.

O gato, a mosca e o poeta que dorme

Fotografia Olho de Gato


a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato quer ser somente gato
e todo o gato é gato
desde o bigode ao rabo
Pablo Neruda


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Um canto telegráfico

Fotografia Olho de Gato



Este passo encontrado que nos guia entre as mesas
este chegar tão tarde às pontes levadiças
para uma exposição de rosas no nevoeiro
este eterno trabalho de dadores de sangue
é o que mais nos defende do massacre
vá recomecemos
do ocasional gemido do fantasma eriçado
as notas principais:
pendurar numa árvore o rio capitoso de tantas lágrimas
descer de chapéu na cabeça até ao patamar
dizer para sempre aos cabelos da noite
que basta descalçar lentamente um sapato
que basta ter achado atrás do travesseiro o relâmpago azul do contacto com as mãos
ou ter ido seguro por lençois de linho a devastar de arbustos as solidões do teu corpo
do qual recordo ora as mais vivas carícias ora um mar interior de grande obscuridade
feito de todo o mármore do mundo de toda a areia que sobra do mundo erguido para o silêncio que estrutura o dorso de todas as paisagens belas frágeis do mundo
descer depois já a chorar de medo e a tremer de amor todo o lado de cá
chegar de rosto na água a aparecer às janelas
com um capuz no sítio da cabeça

ah um automóvel!

Nós vivemos há muito nesta espécie de caverna bruxa
alta pelo silêncio que nos veste
real pela erosão de um sol peculiar que ilumina o recinto intermitentemente
um sofá que não é para aqui chamado
também podia servir de modelo à ampla descrição do fenómeno a luz
que nos excede e emite nos liberta e sufoca
depois há um que entra a perguntar o que é
e tudo assume um pouco o ar policial
dos cascos em fuga pela realidade fora

Merecemos o nosso passo de bichos de dilúvio
merecemos que nos ceguem todos os dias
merecemos estar sozinhos rodeados de prédios
merecemos ter connosco toda a vontade
fim princípio moleza dos costumes
assassinatos histórias de basílicas
e até porque não dominicais
mas como não gritar à passagem triunfal do Grande Monstro Parado
como sermos bem nós e a localidade
muito bem disfarçada de necessidade
pela subterrânea passagem que é nossa
como não aspirar a um ponto de espírito um ao outro
em que a deflagração cristalize uma rosa ascensional
e como são as palavras para dizer que te amo
fantasma
cidade doida
braço contra as nuvens
alta promessa minha sempre em vão corada

Apetece contar uma história tão estranha que as pessoas saiam aos tropeções de casa
apetece anunciar com voz fanhosa
cronologicamente cruelmente
todas as horas do pasmo
todos os dias do calendário do medo
todas as terças-feiras da angústia de haver rosas
todo o fumo e toda a raiva de um relógio de sol
Tomaram-nos o pulso e ficámos febris
com o amor que não há a inundar-nos a cara
este amor não esquece este amor
não se esquece há um rato
na tua camisa o céu brilha o céu está
os amantes retomam os seus quartos
num plácido e extenuante recolhimento gráfico
mas não basta encostarmo-nos à parede
para que tudo ressurja e vestir de novo as fardas
a imaginação ainda não é
para servir de pedreiro A Imaginação
as radiosas salas superiores
através da cidade nos jardins nas gárgulas
abre-se o leque das mil cenas celestes
com o homem na ponte cor de rosa velho
as mãos na água a cabeça no mar

Onde é esta partilha este verdete
esta limalha que nos sobem à boca
onde é esta verdade que empurra as estrelas
para intranspossíveis mundos transportadores
uma última vez despedaçados amemos
amemos a nossa pedra o nosso olhar de mil cores
o mármore sem remédio das figuras bloqueadas
como são as crianças e os gigantes
uma última vez e mais estranhos
mais desertos de enigmas mais atrozmente firmes
sob a opulenta folhagem dos soluços

Dir-te-ei que os meus dias foram os teus dias o teu leito o meu leito este corpo este mar
dir-te-ei que há uma rosa oculta num jardim e que ela é ma e outra como nós fomos
estas pétalas são os teus olhos fechados
são as ondas por onde sopra o vento e nasce a cor da aurra e o grito gelado das coisas

Dir-te-ei foi agora
cintilante mortal cortado a fogo
e breve
rigoroso

Na sombra repousante
os teus olhos os teus
vãos pensamentos
como um leito avançando sem suporte
ou um navio perdido do dono

Tu partirás primeiro de lado contracenando
e arrastando contigo toda a paisagem
vejo uma águia assustadoramente voando alto
na retina
do vento
vejo o que foi permitido: tocar o horizonte

Amanheceremos fantasmas doutro teatro de sombras
seguiremos imóveis caindo por distracção
de amarra para amarra tomaremos o eléctrico
para o fundo da Terra cidade lúcida e quente
a aí expostos de novo sempre à fúria de curiosos engenhos destruidores
interceptaremos outra vez a vida
digo-te sim faremos girar a Terra
com o polegar nos polos canto telegráfico só captável pelo ar do Karakorum, entre os gelos gigantes do Tibete
e o indicador nos céus realizando o futuro da harmonia
para além de uma lágrima de um adeus com os olhos
numa estação sombria vomitando morte

Dito isto fica um grande espaço vazio
onde o homem está só não já de corpo ou de espírito
mas de todo o murmúrio e todo o espasmo
e então sim contra os vidros
o amor soluça tempestade
deuses cegos assomam às janelas e tombam
sobre o odioso chão que ladra e ladra
uma aurora de cães afivela o teu pulso
e a cobardia responde à cobardia
como a coragem responde à coragem

Um pouco de certo modo por toda a parte
há homens desmaiados ou simplesmente mortos

O AMOR REDIME O MUNDO diziam eles

mas onde está o mundo senão aqui?
Mário Cesariny



terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Com unhas e dentes

Fotografia Olho de Gato

Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.
Luís Filipe Parrado



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Etereidad



Y se queda uno con la esperanza,
colgando de su delgado hilo
de tantas cosas colgando,
de tantas esperanzas deshaciéndose,
con tanto temor oculto,
con tantos olvidos como caben
en un instante, tantos olvidos
vividos y padecidos,
como para llenar una estrella.
Y esa mujer que llegó hoy con su misterio,
con su etereidad, que lo hace posible,
que la define y la sostiene
y ha dejado la casa
llena de su misterio.
José Antonio Muñoz Rojas


domingo, 14 de janeiro de 2018

Liberdade de expressão



Há um ano, Luaty Vieira esteve em Viseu num debate sobre liberdade de expressão.

Grande homem, grande causa.

Em Luanda, as coisas estão melhores em matéria de liberdade de expressão.

Em Portugal, não. Estão piores:

— temos a turba do politicamente correcto sempre pronta a linchar quem tem o azar de não dizer as palavras que esses chuis da linguagem acham certas;

— temos o "lápis azul" da CIG a atacar livrinhos para crianças e a usar o poder e o dinheiro do estado para perseguir judicialmente pessoas com opiniões parvas como se a liberdade de expressão não fosse mesmo para poder haver opiniões parvas.

Violência urbana (#33)

No excepcional Carmo'81


Suave como el peligro

Sessão fotográfica para a Playboy, em 1973



Suave como el peligro atravesaste un día
con tu mano imposible la frágil medianoche
y tu mano valía mi vida, y muchas vidas
y tus labios casi mudos decían lo que era el pensamiento.
Pasé una noche a ti pegado como a un árbol de vida
porque eras suave como el peligro,
como el peligro de vivir de nuevo.
Leopoldo Maria Panero


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Ser profissional não é ter apoios, é ter mercado

Hoje no Jornal do Centro:


FB*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


O Facebook foi criado em 2004 e atingiu o seu primeiro milhar de milhão de utilizadores em 2012, com 55% deles a usarem-no diariamente. E ainda não parou de crescer: agora já há mais de dois milhares de milhões de “feicebuqueiros” e 66% deles vão lá todos os dias.

Nenhum invento, nenhuma realização, nenhuma ideia, nada teve uma propagação tão rápida e avassaladora na história da humanidade como esta rede social.

O FB é um grande negócio que, depois de alguns anos em afinações, se tornou uma máquina de fazer dinheiro. Os lucros depois de impostos têm aumentado brutalmente: 2,9 mil milhões de dólares em 2014; 3,7 em 2015; 10,2 em 2016; e as projecções para 2017 apontam para um lucro líquido acima dos 16 mil milhões de dólares. Nos últimos três anos, os lucros mais que quadriplicaram.

Mas, ao fim e ao cabo, que raio de produto vende o FB? A resposta é curta e grossa e está logo no título de uma longa recensão de John Lancaster no London Review of Books: “You Are The Product”. É mesmo isso: nós somos o produto do FB, Mark Zuckerberg vende-nos aos anunciantes.

E, há uns anos, o New York Times fez as contas. A rede social ainda só tinha metade dos utilizadores que tem agora e, por dia, já lá eram gastos 39757 anos colectivos de trabalho à borla. É informação fornecida por nós que, depois de devidamente tratada pelos algoritmos da rede social, serve para vender aos anunciantes em publicidade personalizada.

Mark Zuckerberg
Ao FB não interessa nada o conteúdo, se se trata de vídeos de gatinhos, memes com corações a sangrar ou notícias falsas. Ele limita-se a fazer o perfil de cada utilizador a partir da sua actividade na rede e a definir o público-alvo para cada anúncio.

Zuckerberg, no início deste ano, disse que ia tentar proteger o FB do “abuso, do ódio e da interferência dos estados” para que o tempo gasto nele “seja bem gasto.”

Ele tem esse poder. Mas será que tem mesmo vontade de perturbar a actividade poedeira desta galinha de ovos de ouro?

Still life with cat

Fotografia Olho de Gato


Passa uma musiquinha triste
na rádio. A gata dorme — o aconchego
da melodia casa vazia
uma cesta e o girassol amarelo
é quanto lhe basta para ser feliz.
Eu não me contento com tão pouco,
um girassol amarelo a musiquinha
uma cesta, tem mais do que eu
a gata, não espera nada e tem
me a mim também.
Soledade Santos




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Catapulta

Fotografia de Bharat Sikka

Na sanita, sangue e merda. Ponto de fuga. A dimensão. A imensidão. A escolha. O fumo. O copo. A cama a ferver. O gato. O gin sempre cheio. A rosa negra embalsamada. O prazo de validade. A tua boca. A tatuagem no bolso para qualquer imprevisto. A cruz de Cristo. Este cardeal. Caravela. As veias, as mãos. Não tenho ar. O pulso. A pulsão. A distância tão fácil de. Garganta. Nó. O carro. A viagem. Deixar-te à deriva. Desejo. Queda. Vai embora. Volta. Pára. Poder nunca mais. Uma fábrica de fumo verde. A rosa negra. O quarto no castelo. A praia. O cheiro do Sul. Não aguento. Raquel, Rita, Mário, Mãe. O meu Pai tão lá no alto por ser tão maior. Mana. Os brincos. Fada. Agulhas certeiras. Hospital. Tu. A tua boca. As tuas ancas. O volume nas calças. Playlist. Mãe, não me abraces assim. Sou a filha inglória.


Intermitências.


Não consigo respirar. Quero uma outra cicatriz. Quero que a minha bola de sabão se perca. Quero um banho num outro mar. Não tenho ar. Tenho sempre o mesmo lápis. A morte vem enfeitada — preparar o coração em Lótus. Derreter. Guiar. Trespassar. As coisas são invisíveis. As nuvens são um avião. Tremble like a flower. Raquel. Respira, Raquel, respira. O tempo aprazado. Da rosa fixa. A rosa negra fixa. Violenta. Tanto barulho! Não aguento. Eu retiro-me. Ostra.


Poder dizer a verdade. Poder não andar com carteira. Poder ser automática.


Milhões, Pedro, milhões. O volume nas calças. A boca. Milhões.


Dever não sentir nada. Amo-te. Vai embora. Volta. Pára. Não me escrevas. Não me digas absolutamente nada. Não digas que gostas. Volta. O teu corpo é o meu corpo. Hóstia. Toda.


Estou salva. Não tenho medo. Vagabunda. Tréguas. O meu seio direito. Dizer que se foda. Inclinar-me. Sem casa. Debruçar-me. Não cair. Cair verticalmente no vício.


Dói-me. Tenho dores brancas.


I should kill myself. É vazio. É vasto. Young Gods. Ministry. Vicious, you hit me with a flower. Fogo. Não posso tocar em nada.


Não ofereças as tuas mãos a ninguém, Anita.


Não cumpri a lista. Não dei nada. Concha. Não aguento. Butterfly drowned in wine. Give me some room.


Sweet Jane e alivia.


Sempre o mesmo lápis, faz cair a pele dos meus dedos. Treinar a esquerda. Incapaz da direita. Tenho dores tão brancas. Tão brancas.


Ambitudo. Politudo. Serpente. Cristal.


Limpar e depois sujar. Depois, sujar de novo.


Ederlezi. Há pessoas que são laranjas no chão.


I’m falling. I’m falling.


Arranhar devagarinho.


Temer um pouco.


Atirar a pedra.


The big beat.
Patrícia Baltazar





quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ideias



Eu não sei de quem foi a ideia [do negócio da Santa Casa / Montepio] mas tenho pena de que não tenha sido minha, porque é boa.”
António Costa, 9.1.2018

A infelicidade engorda


Fotografia Olho de Gato



Wedding march
Felix Mendelssohn


A infelicidade engorda mais
do que vinte tabletes
de chocolate Regina.
Mesmo partida aos quadrados
e embrulhada em prata
para disfarçar,
tem mais calorias. É um veneno,
a infelicidade. Matou uns quantos
pelo caminho e mesmo assim
tem prosseguido ao longo dos séculos
engolindo sulcos de tempo e
lamelas de comprimidos.


Infelicidade, por seres minha,
tenho-te algum respeito.
Gostava de mandar-te para. Mas
é tão longe que, temo,
sentir-me-ia sem ti só
e, pior, infeliz.


Sigo.
De braço dado contigo.
Primeiro, pelo adro fora.
Depois, pelo jardim fora.
Qual paraíso.
Não, isso não chega: sigo contigo
pelo universo; cubro
chineses, paquistaneses, neozelandeses
com o teu manto diáfano
de choro.
E é sempre contigo,
minha puta, que partilho
a bandeja das recordações;
é sempre a ti, minha puta fiel,
que digo, num sorriso minúsculo e muito tímido:
hoje o lanche é chocolates.
Come chocolates, pequena.


Porque, sabes?,
querer ser feliz não é pecado. Mas
infelizmente já passou o prazo.

Inês Fonseca Santos


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Preferia não saber das ruas

Fotografia Olho de Gato



Preferia não saber das ruas
onde posso desfazer-me do desejo.
Ir ao encontro das estátuas
para me refazer do medo.

A noite é pequena e cabe
num gesto atirado ao ar
quando se parte sem olhar para trás,
nem necessidade de confirmar amor algum.

Tirei tudo dos bolsos.
Toquei o rosto para sentir a temperatura.
Não estou morta nem vou morrer.

De regresso a casa, a única certeza:
que a manhã virá para reflectir a palidez,
a habitual dificuldade em existir cedo.
Marta Chaves



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Teia

Daqui



A teia, não
mágica
mas arma, armadilha

a teia, não
morta
mas sensitiva, vivente

a teia, não
arte
mas trabalho, tensa

a teia, não
virgem
mas intensamente
prenhe:

no
centro
a aranha espera.
Orides Fontela


domingo, 7 de janeiro de 2018

Indícios

Fotografia de Lasse Kusk


nunca mastiguei tanto presságio

nem teu sexo ergueu tão alto
a hóstia viva
que trago nas virilhas

teu ventre nunca anunciou tão tarde
outra colheita

como agora
sombra vestígio de sombra
sangrentos estilhaços de hora
Cândido Rolim


sábado, 6 de janeiro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#176)

Et nunca manet in te*

Heaven (2017), escultura da feminista turca CANAN 

Meu amor,
a casa está tão sozinha que
os pássaros vêm morrer lá dentro.
Nada mudou, mas falta
a mão para acariciar o gato
e acolher a ninhada secreta,
o sorriso que enchia o tanque
e fazia crescer a horta.

Já ninguém apanha as laranjas mais altas
ou usa a sombra da nogueira.
E até os ciprestes se tornaram redundantes
ao ponto de os abatermos:
a ausência diz-se melhor no esplendor
inútil das rosas sem esse olhar,
nas papoilas raras que duram
o tempo de uma fotografia.

Um dia, deixaremos também uma casa assim,
casulo abandonado a sobreviver-nos.
Um de nós escutará as asas ansiosas
na chaminé, antes de pousar o livro
e amparar o último pássaro.
Só parecerá menos triste
porque não teremos, então,
nada mais a perder.
Inês Dias



* Há um texto homónimo de André Gide escrito em 1951 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Ano novo

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Na primeira crónica do ano é bom recordar mais uma vez que uso e pratico o método de Norberto Bobbio: devemos escolher uma parte, depois dessa escolha feita há que exercer o juízo crítico com severidade, especialmente com a nossa parte.

As unhas do Olho de Gato têm atingido metodicamente tanto socratistas, como passistas ou geringoncistas — os de Lisboa e os locais —, especialmente quando eles põem em causa a liberdade.

Isso é cada vez mais raro nos media. Vivemos num tempo em que os ditos “fazedores de opinião” já nem se preocupam em fingir independência, têm medo da solidão que esta implica e já só falam para a sua tribo.

Tribo essa que, por sua vez, só lê e só pensa aquilo que é a favor do seu clã ou aquilo que é a desfavor do clã adversário, numa cavalgada sectária que é depois partilhada aos uivos nas redes sociais, tornando cada vez mais crispada a nossa vida em comum.

2. Este novo ano tem três fins-de-semana prolongados e três pontes, dizem os jornais.

O que eles não dizem é que o dia dos namorados calha na quarta-feira de cinzas e que a Páscoa é no dia das mentiras.

3. Os partidos reuniram-se durante meses para arranjar uma nova lei de financiamento para si próprios, num processo secreto sem actas nem registos de espécie nenhuma.

Tudo já foi dito sobre esta opacidade devidamente vetada esta semana pelo presidente da república. Contudo, depois deste episódio, importa perguntar: quantas vezes esta pouca-vergonha já terá sido usada pelo cartel partidário no passado?

4. Ano novo, vida nova. Borbulha água de novo nos nossos montes ainda negros dos incêndios mas já com algum verde. Postes novos substituem os que arderam.

De Lisboa não se espere muito. Nem depois da tragédia, nem com um orçamento de vacas gordas que deu de mamar a todos os lóbis, nem assim foi aprovada uma fiscalidade mais favorável para as pessoas e as empresas do interior.

Para nos reerguermos contemos, acima de tudo, com a nossa força.

Propriedade

Fotografia de Raghubir Singh

como artifícios temos apenas as asperezas

a corpulência cabível em pavios desfigurados
ou os 28 dias necessários
para que se cure
o concreto

carregamos
nas extremidades fissuras
irreparáveis
e, nos olhos,
a cor mirabolante dos abatedouros

mesmo assim

as corredeiras
as sirenes os personagens
estão ao seu dispor

e ainda esse aguaceiro

onde o entreaberto é uma doçura
de tão fundo
Juliana Krapp


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Balanços*

*Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Janeiro de 2008

1. Acabo de folhear todas as edições do Jornal do Centro de 2007. Confesso que me demorei mais nas minhas 26 crónicas. O meu balanço é claro: o Olho de Gato podia e devia ter tido mais unhas. O Jornal do Centro também.

Fotografia Olho de Gato
2. É importante olhar-se com mais atenção para as Assembleias Municipais que, com a nova lei das autarquias, vão ter um papel muito mais importante nos governos municipais. Infelizmente, a primeira metade do mandato da actual Assembleia Municipal de Viseu foi muito murcha.

O PSD não se renova. Ora fala Mota Faria e, depois, António Vicente, ora fala António Vicente e, depois, Mota Faria; ouvem-se uns Presidentes de Junta avulsos; é um coro grego em culto à personalidade de Fernando Ruas; para mal de Viseu, as palavras do Presidente da Câmara já não conseguem o impacto nacional que tinham antes do episódio das pedradas.

No PS pontifica o economês de João Cruz que recita o mesmo discurso insulso há mais de dez anos. Correia de Campos, metodicamente, mistura os papéis de ministro e de deputado municipal. Primeiro anulou a construção, já concursada, de um Centro de Saúde magnífico, junto ao Continente; agora fala nuns contentores para servirem de Unidades de Saúde Familiar.

O Bloco de Esquerda é incapaz de dizer algo que se oiça cá fora, é incapaz de uma ruptura: nem sequer foi capaz de quebrar a unanimidade nas Moções patéticas sobre a defunta Universidade de Viseu.

Da acção do CDS na Assembleia Municipal também não chegam ecos à imprensa.

3. Como se sabe, quando fraqueja a política, medram os interesses.

Portugal precisa de alma. Viseu ainda mais.

Um bom 2008.

E às vezes dou por mim



Espero-te
Como quem espera o futuro
Sem ciência, só por adivinhação
Não sei se és tu quem procuro
Mas é tarde pra tudo
Tarda-me o coração

Tenho-te nesta ideia que fiz de dois
Um qualquer a mim já não me dobra
E entre um sim e um pois
Tu não matas nem móis
E o meu corpo já sobra

E às vezes dou por mim
Quando ninguém está a ver
Será que é por tanto querer
Que ninguém me quer
Sozinha na moldura
Na casa dos meus pais
Dizem que estou madura
E eu não quero esperar mais

Deixa que esta noite nos leve
Ai de mim, se não for agora
Que a razão só me pede
Que mate esta sede
E encerre a demora

Não sou eu, é o tempo que atraso
Que me arrasta aos tombos pelo chão
Eu só quero inquilino
Que pague no prazo
Esta solidão

E às vezes dou por mim
A queimar as janelas
Se ninguém me quer assim
Amo os maridos delas
Que me acusem de pecados
Que me chamem nomes feios
De solteiros encalhados
Tenho eu os bolsos cheios

E às vezes dou por mim
E às vezes dou por mim
E às vezes dou por mim.
André Henriques


quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A Dream Of Water

Fotografia Olho de Gato



There were those who didn't run
There were those who couldn't take it
There were those who stayed in the city
What was it? Where did it go?
There were those who laid their bodies down
There were those who took our knifes
There were those who kissed the grey skies
There were those who only knew only the sound of their own voices
There were those who knew the rules
There were those who freed their bodies
There were those who couldn't take it
There were others on their own
What was it? What was it?
There were strangers and conmen
There were those who lived in the cross space
There were people lighting candles
There were people going crazy
There were those who walked the beach
What war is that? What war is that?
What time could this be?
There were those who didn't run
There were those who couldn't take it
There were those who stayed in the city
What was it? Where did it go?
There were those who laid their bodies down
There were those who took our knifes
There were those who kissed the grey skies
There were those who only knew only the sound of their own voices
There were those who knew the rules
There were those who freed their bodies
There were those who couldn't take it
There were others on their own
What was it? What was it?
There were strangers and conmen
There were those who lived in the cross space
There were people lighting candles
There were people going crazy
There were those who walked the beach
What war is that? What war is that?
What time could this be?
Laurie Anderson


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Digam que foi mentira

Fotografia Olho de Gato



Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum
Ruy Belo





segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Pode alguém ser quem não é? — pergunta JB*

* Comentário de JB em "Bom 2018!"

Bom dia, semana e ano.

Da série — “No tempo em que” havia músicos a fazer intervenção política.
Hoje: Sérgio Godinho e uma eterna questão….

Horas breves de meu contentamento.



Este disco entrou em casa pela mão do meu irmão P. e nunca mais deixou de rodar, fosse em gira disco mono ou stereo. Todos tínhamos uma atenção (devoção?) por este disco. As palavras, os sons, a mensagem, tudo foi novidade.
Neste LP, muitas letras me marcaram mas esta foi uma interrogação crucial para um jovem de 17 anos: “Pode alguém ser livre / se outro alguém não é / a corda dum outro / serve-me no pé / nos dois punhos, nas mãos / no pescoço, diz-me: / Pode alguém ser quem não é?”, e que continuou a marcar o meu percurso.

Olhando para o presente, considero que esta legislatura, no âmago, tem sido um NIM! Um Grande e Enganador NIM!

Ao acaso, e sem vasculhar muito no baú das memórias, uma discussão que fez os parceiros de geringonça “perder as estribeiras”, na época do (des)governo Passos “Tecnoforma” Coelho e do outro reacionário que o acompanhava, foi a nova lei das Fundações. O que disseram, o que escreveram… e agora? Agora não é prioritário, camarada…. Pois!

E como conseguem ter a desfaçatez de congeminar uma bomba ao retardador que vai ser a entrada da Santa Casa Misericórdia de Lisboa no Montepio?

Apenas dois exemplos do que continuam a ser interrogações sem resposta.

Assim, num ano decisivo, para o governo e para os partidos que o apoiam, deixo a pergunta aos senhores da coligação: decididamente quando vão começar a “dizer alguma coisa de esquerda”?

Daqui

Ó Costa, Jerónimo e Catarina - “Pode Alguém Ser Quem Não É?”




Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredão
"tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem"

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?



Seja um bom agoiro
ou seja um bom presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

"Por cá me governo"
escreveu-me então
"aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d´Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar".


Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Mar a vir à praia
frente ao paredão
"tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem"

Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a corda dum outro
serve-me no pé
nos dois punhos, nas mãos
no pescoço, diz-me:
Pode alguém ser quem não é?

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?