quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

What's The Ugliest Part Of Your Body?

Mural de El Mac em Toronto



What's the ugliest
Part of your body?
What's the ugliest
Part of your body?
Some say your nose
Some say your toes
(I think it's your mind)
But I think it's YOUR MIND
(Your mind)
I think it's your mind, woo woo

ALL YOUR CHILDREN ARE POOR
UNFORTUNATE VICTIMS OF
SYSTEMS BEYOND THEIR CONTROL
A PLAGUE UPON YOUR IGNORANCE & THE GRAY
DESPAIR OF YOUR UGLY LIFE

Where did Annie go
When she went to town?
Who are all those creeps
That she brings around?

ALL YOUR CHILDREN ARE POOR
UNFORTUNATE VICTIMS OF LIES YOU BELIEVE
A PLAGUE UPON YOUR IGNORANCE THAT KEEPS
THE YOUNG FROM THE TRUTH THEY DESERVE . . .
Frank Zappa


terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Primeira vez

Fotografia de Helmut Newton


O que abraça a uma mulher é Adão. A mulher é Eva.
Tudo acontece pela primeira vez.
Jorge Luis Borges



segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Da irrelevância política… — por JB

Comentário de JB a Palimpsesto


Ontem houve um jogo de futebol importante. Uma final de taça. A taça – CTT (não sei se será o epitáfio dessa empresa…).

Não falo do jogo; falo do final do mesmo. Habitual entrega da taça com os jogadores, treinadores…, a passarem na tribuna de honra. Cumprimentos, festejos, abraços.


Fotografia José Coelho — daqui


Eis senão quando vislumbro Tiago Rodrigues entre os presentes na fila de individualidades.

Tiago Rodrigues? Não sabe quem é sr leitor?
Não se preocupe, pois nem jogadores, nem treinadores, nem dirigentes, nem massagista, nem roupeiro, nem…., mostraram a mínima empatia, cumplicidade, satisfação, sei lá…., ao cumprimentarem o mais alto responsável governativo, pelo desporto.
Da irrelevância política…, até no desporto. Palimpsesto para ti também, Tiaguinho!

Na educação, vai-se confirmando a sua irrelevância (e sou simpático…).
Irá cumprir a legislatura pois o seu papel é manter o sector educativo: calmo, calado, tranquilo e entretido. Com a conivência de todos os sindicatos, óbvio!

Aqui se falou de irrelevância política e nunca de irrelevância pessoal.

É a diferença entre um espaço limpo, escorreito e livre (Olho de Gato) e um conselho de opinião (ou lá como se chama) na RTP, subjugado, domado e que faz juízos pessoais sobre Nuno Artur Silva e realiza “um auto de fé” público.

A geringonça não fica bem na fotografia e “Limpa o cesto bem limpo”.

Da irrelevância política dos “três compadres Galambas” da Caranguejola!
JB

Segredo

Fotografia de Dana Trippe



Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de Fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.
Fernando Pinto do Amaral



domingo, 28 de janeiro de 2018

Palimpsesto



Limpa o cesto bem limpo,
mas deixa lá ficar sombra ligeira:
essa primeira sílaba.
Sobre ela
podes encher o cesto com mais sílabas,
e até outras palavras.

Terás assim um cesto
que aos olhos de quem vê
é um cesto só teu,
onde escondeste as coisas
do costume dos cestos: flores, solidões,
rastilhos, bombas.

Foi limpo o cesto
aos olhos de quem vê,
mas tu sabes que não.
Que houve ali um momento de ladrão,
quando nele ficou
a sombra dessa sílaba.

E agora mostras
a toda a gente o cesto,
e não há sombra.
Há só a mão que surge
e pega no teu cesto,
o toma devagar.

E o olha com olhos de quem lê,
e o limpa muito limpo,
ao teu antigo cesto,
deixando lá no fundo,
disfarçada,
uma segunda sílaba.
Ana Luísa Amaral


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Dor de cotovelo*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. No último domingo, o La Voz de Galicia trazia um artigo cheio de elogios a Portugal. O título — “Portugal, los nórdicos del sur de Europa” — era inspirado numa expressão do nosso presidente da república que oxalá se mantenha em boa saúde e cheio de afectos, especialmente por este interior nada nórdico.

É que, se não for Marcelo, não somos prioridade para ninguém — até as portagens das nossas auto-estradas tiveram um aumento maior do que as do litoral.

Elogios vindos de galegos não surpreendem, eles gostam muito de nós. Mas não foram só eles. Também o Ara, um jornal independentista catalão, numa peça dominical da secção de economia — “El misterí portuguès” — afirma: “Portugal està de moda. El turistes inunden Lisboa i Porto, ja comencen a descobrir la costa alentejana i fins e tot les illes de Madeira i les Açores gràcies a la pluja de vols low cost.”


Fotografia de Gonçalo Rosa da Silva, daqui
Os dois artigos são muito amáveis. Madonna é referida como “el ejemplo más llamativo” que se está a aproveitar da fiscalidade vip para “extranjeros”. Se eles acrescentassem que, por causa dos impostos fofinhos e a luz de Lisboa, também temos cá a Monica Bellucci, então, do lado de lá da fronteira, em vez de bonomia, sopraria o mau vento da inveja.

2. Onde os jornais espanhóis não conseguem esconder a dor de cotovelo é nos triunfos diplomáticos portugueses. Barroso, Guterres, agora Centeno, nomes que os põem a constatar o clássico “el tamaño no importa.”

Fiquemo-nos por três razões explicativas deste sucesso sintetizadas por Javier Martin del Barrio, no El Pais:

(i) a carreira diplomática em Portugal é eficaz e experiente porque, ao contrário de Espanha, não muda quando mudam os governos;

(ii) a “fúria” espanhola começa logo por dizer “no”, enquanto os portugueses, pacientes, respeitosos, avessos à confrontação directa, nunca dizem “não”;

(iii) as elites políticas portuguesas são poliglotas, as espanholas não, e isso acaba por ser decisivo.

Objectos restantes do nosso último encontro

Fotografia de Arielle Bobb-Willis

Objectos restantes do nosso último encontro:
o tubo de tabaco Lucky Strike (seguramente)
e a pontuada consoante «só».
Coisas sem significado que se deixam ficar
como um piropo sem resposta.

Emprestei-me à ideia do erro trágico poder ser belo
rendi-me ao bandido, acomodei-me entre camas
talvez assim nos percamos irremediavelmente.

Mas que farei eu deste lado do muro?

Mover-me na medida da tua distância
para as habituais ratoeiras de estante.
A casa aos baldões porque me deixaste
os explosivos mas não a farmácia
os primeiros socorros e o «Ser e Tempo»
que, quando muito, me alinha um átomo.

Nenhum clássico alternativo ao homem
mudou alguma vez o fuso do mundo.
A malha cai, o gajo escapa
é uma rosa, senhor, de plástico.

Que direi eu deste lado da história?

Que tudo há-de ir para o escuro se até esta luz,
nossa única saúde, foi fechada à perna.

Se pudesse chegar à expressão certa
mentir-te com Deus e Rock & Roll,
perdão, uma pequena elipse,
porque não não foi a flor desse romântico inglês
nem o homem de Porlock mais o paraíso coitado,
quem nos baralhou tão perto de um final feliz.

Foi a noite do teu rosto na noite do meu rosto.

Assim.

Sou até capaz de enunciar as razões
ratazanas da mais afiada prosa roendo
até que o resultado seja outro.
Mas não consigo melhor que isto:
duas beatas tuas encolhidas na cinza.

Pertencem-me para sempre esses cadaverzinhos
que fumaste depois de me beijares ao alto
e arrastar a voz a um amo-te
com a força da luz extrema.
Raquel Nobre Guerra


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Cílios



Entre nós a dimensão que importa
é o tamanho dos teus cílios
e como eles se curvam
conforme você ri ou se preocupa

eu estudo tanto cada gesto — cada passo
consulto tudo que eu posso
vejo sinais em tanto — colho indícios
contudo espero o instante

em que algo ou tudo pode sair do lugar
alguém quebrar os dois tornozelos
perder o timing do spaghetti
e o macarrão ficar molenga

ou uma abelha zunindo no cabelo
fascinada pelo açúcar no café
num acesso de vertigem
todo eu é ruidoso

porque eu vivo
e você também
e o que é vivo
se descontrola.
Júlia de Carvalho Hansen


quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Poema vertigem



Eu sou a viagem de ácido
nos barcos da noite
Eu sou o garoto que se masturba
na montanha
Eu sou o tecno pagão
Eu sou o Reich, Ferenczi & Jung
Eu sou o Eterno Retorno
Eu sou o espaço cibernético
Eu sou a floresta virgem
das garotas convulsivas
Eu sou o disco-voador tatuado
Eu sou o garoto e a garota
Casa Grande & Senzala
Eu sou a orgia com o
garoto loiro e sua namorada
de vagina colorida
(ele vestia a calcinha dela
& dançava feito Shiva
no meu corpo)
Eu sou o nómade de Orgónio
Eu sou a Ilha de Veludo
Eu sou a Invenção de Orfeu
Eu sou os olhos pescadores
Eu sou o Tambor do Xamã
(& o Xamã coberto
de peles e andrógino)
Eu sou o beijo de Urânio
de Al Capone
Eu sou uma metralhadora em
estado de graça
Eu sou a pomba-gira do Absoluto
Roberto Piva



terça-feira, 23 de janeiro de 2018

23 de janeiro

Daqui

aprendi com meu filho de dez anos
que a poesia é a descoberta
das coisas apagadas na fita da máquina
de escrever de Sylvia Plath
Ney Ferraz Paiva





segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Heranças



abandonará a casa
teu pai
com olhos de rico
bolso de pobre
como todo aquele que
pressentindo-a
lhe toma o lugar

quando o dia findar
perseguirás o caminho mais longo
sabê-lo-ás pendente
do ramo mais forte
da penúltima árvore

a última deixá-la-á para ti
Ana Paula Inácio


domingo, 21 de janeiro de 2018

Escrevo o teu lugar nas palmas das mãos

Fotografia Olho de Gato

escrevo o teu lugar nas palmas das mãos
ao longo de muros projecto sombras gestos
o voo de pássaros e corro
pertenço às noites de rios que amas e cantam
que se escondem em poços mais profundos
precipitando-se em direcção ao inverno

sem regresso toco a música que fica
mais perto da distância
a minha partida estava já nos nós dos teus dedos
nos anéis dos teus cabelos

no teu sorrir que fios de música
teceram para que se desperdiçasse
Tatiana Faia


sábado, 20 de janeiro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#178)








Gisela João e o ET








E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado.
Quis falar mas disse "pi",
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho,
disse para me pôr a pau,
pois na terra donde vinha
nem há cheiro de sardinha
quanto mais de bacalhau.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

João Luís Oliva e Júlio Pereira à conversa


#MeToo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Num programa do Canal+ francês, um dos animadores, Laurent Bafie, na brincadeira, levantou um pouco a saia de Nowellnn Leroy e repetiu a graça resvalando a mão no joelho dela. A cantora riu-se muito, pegou-lhe na mão, disse que eram amigos há muito tempo e elogiou-o. De nada valeu. As redes sociais chamaram-no de tudo: «machista», «grande porco», «misógino», «grosseiro», por aí fora.

O actor Adam Sandler pôs a mão no joelho de Claire Foy numa entrevista na BBC. 
Daqui
A actriz emitiu um comunicado a dizer que não se sentiu nada ofendida. De nada valeu. Adam foi chamado de tudo nas redes sociais que, como se sabe, estão sempre a arder com uma indignação qualquer.

Só mais um caso. Em 2002, o político britânico Michael Fallon pôs a mão no joelho da jornalista Julia Hartley-Brewer. Esta mandou-o parar e ele parou. A seguir, pediu desculpas pelo incidente e reconheceu publicamente numa conferência que “tinha ultrapassado as marcas”. Só que agora, quinze anos depois, na sequência do movimento #MeToo, o caso borbulhou outra vez, e ele acabou por se demitir de ministro da defesa. A própria dona do joelho achou “doida” aquela demissão.

2. Tantos casos com joelhos fizeram-me lembrar o filme “O Joelho de Claire”, um dos seis contos morais de Eric Rohmer. A ligação é óbvia e deve ter ocorrido a muitos milhares de pessoas por esse mundo fora. Por exemplo, Paulo Almeida Sande já deu também este salto cinéfilo no Observador.

Vi esta obra-prima da nouvelle vague há mais de trinta anos numa sessão do Cine Clube de Viseu, ainda faltava muito para chegarmos ao neo-puritanismo hipócrita que estamos a viver agora. O protagonista do filme, um diplomata trintão chamado Jerome, passa umas férias fixado no joelho de Claire. Todo o filme é construído à volta dessa obsessão.

Ora, no velho Auditório da Feira de S. Mateus, quando Jerome, finalmente, pôs a mão no joelho de Claire, uma boa parte da assistência pôs-se a bater palmas de aplauso. Eu também.

Maçã

Daqui

… foi-se a turma da apanha…
… amadura a maçã…
… chegando-se ao doce…
…. vermelho…
… naquele ramo lá…
… deslembrada…
… ou…
…  fora do alcance?
Safo
Trad.: Joaquim Brasil Fontes Júnior


quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Liberdade*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Janeiro de 2008

Fotografia Olho de Gato
1. António Barreto, na edição de 6 de Janeiro do Público, pôs na mesma frase o nome do primeiro-ministro e a terrível palavra começada por “f”. Escreveu ele: “Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei.”

António Barreto está preocupado com a liberdade. O que tem acontecido depois do 11 de Setembro, de facto, não nos deve deixar descansados. Os estados apertam cada vez mais o controlo dos cidadãos. Dizem-nos que isso é necessário para combater o terrorismo e que “quem não deve, não teme”. Sempre que deixamos que nos vigiem mais a nossa vida por causa desse “quem não deve, não teme”, é mais uma vitória de Bin Laden; mas é justo lembrar que este andar para trás das nossas sociedades abertas não é um exclusivo português.

Um só exemplo deita por terra todos os pressentimentos de António Barreto sobre o líder do governo. José Sócrates aceitou idas quinzenais ao Parlamento com regras muito mais duras para o primeiro-ministro. Sócrates deu, portanto, poder às oposições. Ora, por definição, um fascista não dá poder às oposições.


Numa coisa António Barreto tem razão: precisamos de usar mais a liberdade. E sem medo.


2. Já que ninguém pergunta, pergunto eu:
Caras e caros viseenses, ficam descansados ao saberem que o Hospital de S. Teotónio tem o seu Director Clínico em part-time?

3. Durante os anos em que liderei a oposição autárquica em Viseu, habituei-me a apreciar a intervenção, na Assembleia Municipal, de Jorge Adolfo Marques. Preparado, frontal, sem medo de correr riscos numa altura difícil para o PS, fez muito pela memória e pelo património do concelho. Obrigado, Jorge Adolfo.

O gato, a mosca e o poeta que dorme

Fotografia Olho de Gato


a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato quer ser somente gato
e todo o gato é gato
desde o bigode ao rabo
Pablo Neruda


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Um canto telegráfico

Fotografia Olho de Gato



Este passo encontrado que nos guia entre as mesas
este chegar tão tarde às pontes levadiças
para uma exposição de rosas no nevoeiro
este eterno trabalho de dadores de sangue
é o que mais nos defende do massacre
vá recomecemos
do ocasional gemido do fantasma eriçado
as notas principais:
pendurar numa árvore o rio capitoso de tantas lágrimas
descer de chapéu na cabeça até ao patamar
dizer para sempre aos cabelos da noite
que basta descalçar lentamente um sapato
que basta ter achado atrás do travesseiro o relâmpago azul do contacto com as mãos
ou ter ido seguro por lençois de linho a devastar de arbustos as solidões do teu corpo
do qual recordo ora as mais vivas carícias ora um mar interior de grande obscuridade
feito de todo o mármore do mundo de toda a areia que sobra do mundo erguido para o silêncio que estrutura o dorso de todas as paisagens belas frágeis do mundo
descer depois já a chorar de medo e a tremer de amor todo o lado de cá
chegar de rosto na água a aparecer às janelas
com um capuz no sítio da cabeça

ah um automóvel!

Nós vivemos há muito nesta espécie de caverna bruxa
alta pelo silêncio que nos veste
real pela erosão de um sol peculiar que ilumina o recinto intermitentemente
um sofá que não é para aqui chamado
também podia servir de modelo à ampla descrição do fenómeno a luz
que nos excede e emite nos liberta e sufoca
depois há um que entra a perguntar o que é
e tudo assume um pouco o ar policial
dos cascos em fuga pela realidade fora

Merecemos o nosso passo de bichos de dilúvio
merecemos que nos ceguem todos os dias
merecemos estar sozinhos rodeados de prédios
merecemos ter connosco toda a vontade
fim princípio moleza dos costumes
assassinatos histórias de basílicas
e até porque não dominicais
mas como não gritar à passagem triunfal do Grande Monstro Parado
como sermos bem nós e a localidade
muito bem disfarçada de necessidade
pela subterrânea passagem que é nossa
como não aspirar a um ponto de espírito um ao outro
em que a deflagração cristalize uma rosa ascensional
e como são as palavras para dizer que te amo
fantasma
cidade doida
braço contra as nuvens
alta promessa minha sempre em vão corada

Apetece contar uma história tão estranha que as pessoas saiam aos tropeções de casa
apetece anunciar com voz fanhosa
cronologicamente cruelmente
todas as horas do pasmo
todos os dias do calendário do medo
todas as terças-feiras da angústia de haver rosas
todo o fumo e toda a raiva de um relógio de sol
Tomaram-nos o pulso e ficámos febris
com o amor que não há a inundar-nos a cara
este amor não esquece este amor
não se esquece há um rato
na tua camisa o céu brilha o céu está
os amantes retomam os seus quartos
num plácido e extenuante recolhimento gráfico
mas não basta encostarmo-nos à parede
para que tudo ressurja e vestir de novo as fardas
a imaginação ainda não é
para servir de pedreiro A Imaginação
as radiosas salas superiores
através da cidade nos jardins nas gárgulas
abre-se o leque das mil cenas celestes
com o homem na ponte cor de rosa velho
as mãos na água a cabeça no mar

Onde é esta partilha este verdete
esta limalha que nos sobem à boca
onde é esta verdade que empurra as estrelas
para intranspossíveis mundos transportadores
uma última vez despedaçados amemos
amemos a nossa pedra o nosso olhar de mil cores
o mármore sem remédio das figuras bloqueadas
como são as crianças e os gigantes
uma última vez e mais estranhos
mais desertos de enigmas mais atrozmente firmes
sob a opulenta folhagem dos soluços

Dir-te-ei que os meus dias foram os teus dias o teu leito o meu leito este corpo este mar
dir-te-ei que há uma rosa oculta num jardim e que ela é ma e outra como nós fomos
estas pétalas são os teus olhos fechados
são as ondas por onde sopra o vento e nasce a cor da aurra e o grito gelado das coisas

Dir-te-ei foi agora
cintilante mortal cortado a fogo
e breve
rigoroso

Na sombra repousante
os teus olhos os teus
vãos pensamentos
como um leito avançando sem suporte
ou um navio perdido do dono

Tu partirás primeiro de lado contracenando
e arrastando contigo toda a paisagem
vejo uma águia assustadoramente voando alto
na retina
do vento
vejo o que foi permitido: tocar o horizonte

Amanheceremos fantasmas doutro teatro de sombras
seguiremos imóveis caindo por distracção
de amarra para amarra tomaremos o eléctrico
para o fundo da Terra cidade lúcida e quente
a aí expostos de novo sempre à fúria de curiosos engenhos destruidores
interceptaremos outra vez a vida
digo-te sim faremos girar a Terra
com o polegar nos polos canto telegráfico só captável pelo ar do Karakorum, entre os gelos gigantes do Tibete
e o indicador nos céus realizando o futuro da harmonia
para além de uma lágrima de um adeus com os olhos
numa estação sombria vomitando morte

Dito isto fica um grande espaço vazio
onde o homem está só não já de corpo ou de espírito
mas de todo o murmúrio e todo o espasmo
e então sim contra os vidros
o amor soluça tempestade
deuses cegos assomam às janelas e tombam
sobre o odioso chão que ladra e ladra
uma aurora de cães afivela o teu pulso
e a cobardia responde à cobardia
como a coragem responde à coragem

Um pouco de certo modo por toda a parte
há homens desmaiados ou simplesmente mortos

O AMOR REDIME O MUNDO diziam eles

mas onde está o mundo senão aqui?
Mário Cesariny



terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Com unhas e dentes

Fotografia Olho de Gato

Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces.
Luís Filipe Parrado



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Etereidad



Y se queda uno con la esperanza,
colgando de su delgado hilo
de tantas cosas colgando,
de tantas esperanzas deshaciéndose,
con tanto temor oculto,
con tantos olvidos como caben
en un instante, tantos olvidos
vividos y padecidos,
como para llenar una estrella.
Y esa mujer que llegó hoy con su misterio,
con su etereidad, que lo hace posible,
que la define y la sostiene
y ha dejado la casa
llena de su misterio.
José Antonio Muñoz Rojas


domingo, 14 de janeiro de 2018

Liberdade de expressão



Há um ano, Luaty Vieira esteve em Viseu num debate sobre liberdade de expressão.

Grande homem, grande causa.

Em Luanda, as coisas estão melhores em matéria de liberdade de expressão.

Em Portugal, não. Estão piores:

— temos a turba do politicamente correcto sempre pronta a linchar quem tem o azar de não dizer as palavras que esses chuis da linguagem acham certas;

— temos o "lápis azul" da CIG a atacar livrinhos para crianças e a usar o poder e o dinheiro do estado para perseguir judicialmente pessoas com opiniões parvas como se a liberdade de expressão não fosse mesmo para poder haver opiniões parvas.

Violência urbana (#33)

No excepcional Carmo'81


Suave como el peligro

Sessão fotográfica para a Playboy, em 1973



Suave como el peligro atravesaste un día
con tu mano imposible la frágil medianoche
y tu mano valía mi vida, y muchas vidas
y tus labios casi mudos decían lo que era el pensamiento.
Pasé una noche a ti pegado como a un árbol de vida
porque eras suave como el peligro,
como el peligro de vivir de nuevo.
Leopoldo Maria Panero


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Ser profissional não é ter apoios, é ter mercado

Hoje no Jornal do Centro:


FB*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


O Facebook foi criado em 2004 e atingiu o seu primeiro milhar de milhão de utilizadores em 2012, com 55% deles a usarem-no diariamente. E ainda não parou de crescer: agora já há mais de dois milhares de milhões de “feicebuqueiros” e 66% deles vão lá todos os dias.

Nenhum invento, nenhuma realização, nenhuma ideia, nada teve uma propagação tão rápida e avassaladora na história da humanidade como esta rede social.

O FB é um grande negócio que, depois de alguns anos em afinações, se tornou uma máquina de fazer dinheiro. Os lucros depois de impostos têm aumentado brutalmente: 2,9 mil milhões de dólares em 2014; 3,7 em 2015; 10,2 em 2016; e as projecções para 2017 apontam para um lucro líquido acima dos 16 mil milhões de dólares. Nos últimos três anos, os lucros mais que quadriplicaram.

Mas, ao fim e ao cabo, que raio de produto vende o FB? A resposta é curta e grossa e está logo no título de uma longa recensão de John Lancaster no London Review of Books: “You Are The Product”. É mesmo isso: nós somos o produto do FB, Mark Zuckerberg vende-nos aos anunciantes.

E, há uns anos, o New York Times fez as contas. A rede social ainda só tinha metade dos utilizadores que tem agora e, por dia, já lá eram gastos 39757 anos colectivos de trabalho à borla. É informação fornecida por nós que, depois de devidamente tratada pelos algoritmos da rede social, serve para vender aos anunciantes em publicidade personalizada.

Mark Zuckerberg
Ao FB não interessa nada o conteúdo, se se trata de vídeos de gatinhos, memes com corações a sangrar ou notícias falsas. Ele limita-se a fazer o perfil de cada utilizador a partir da sua actividade na rede e a definir o público-alvo para cada anúncio.

Zuckerberg, no início deste ano, disse que ia tentar proteger o FB do “abuso, do ódio e da interferência dos estados” para que o tempo gasto nele “seja bem gasto.”

Ele tem esse poder. Mas será que tem mesmo vontade de perturbar a actividade poedeira desta galinha de ovos de ouro?

Still life with cat

Fotografia Olho de Gato


Passa uma musiquinha triste
na rádio. A gata dorme — o aconchego
da melodia casa vazia
uma cesta e o girassol amarelo
é quanto lhe basta para ser feliz.
Eu não me contento com tão pouco,
um girassol amarelo a musiquinha
uma cesta, tem mais do que eu
a gata, não espera nada e tem
me a mim também.
Soledade Santos




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Catapulta

Fotografia de Bharat Sikka

Na sanita, sangue e merda. Ponto de fuga. A dimensão. A imensidão. A escolha. O fumo. O copo. A cama a ferver. O gato. O gin sempre cheio. A rosa negra embalsamada. O prazo de validade. A tua boca. A tatuagem no bolso para qualquer imprevisto. A cruz de Cristo. Este cardeal. Caravela. As veias, as mãos. Não tenho ar. O pulso. A pulsão. A distância tão fácil de. Garganta. Nó. O carro. A viagem. Deixar-te à deriva. Desejo. Queda. Vai embora. Volta. Pára. Poder nunca mais. Uma fábrica de fumo verde. A rosa negra. O quarto no castelo. A praia. O cheiro do Sul. Não aguento. Raquel, Rita, Mário, Mãe. O meu Pai tão lá no alto por ser tão maior. Mana. Os brincos. Fada. Agulhas certeiras. Hospital. Tu. A tua boca. As tuas ancas. O volume nas calças. Playlist. Mãe, não me abraces assim. Sou a filha inglória.


Intermitências.


Não consigo respirar. Quero uma outra cicatriz. Quero que a minha bola de sabão se perca. Quero um banho num outro mar. Não tenho ar. Tenho sempre o mesmo lápis. A morte vem enfeitada — preparar o coração em Lótus. Derreter. Guiar. Trespassar. As coisas são invisíveis. As nuvens são um avião. Tremble like a flower. Raquel. Respira, Raquel, respira. O tempo aprazado. Da rosa fixa. A rosa negra fixa. Violenta. Tanto barulho! Não aguento. Eu retiro-me. Ostra.


Poder dizer a verdade. Poder não andar com carteira. Poder ser automática.


Milhões, Pedro, milhões. O volume nas calças. A boca. Milhões.


Dever não sentir nada. Amo-te. Vai embora. Volta. Pára. Não me escrevas. Não me digas absolutamente nada. Não digas que gostas. Volta. O teu corpo é o meu corpo. Hóstia. Toda.


Estou salva. Não tenho medo. Vagabunda. Tréguas. O meu seio direito. Dizer que se foda. Inclinar-me. Sem casa. Debruçar-me. Não cair. Cair verticalmente no vício.


Dói-me. Tenho dores brancas.


I should kill myself. É vazio. É vasto. Young Gods. Ministry. Vicious, you hit me with a flower. Fogo. Não posso tocar em nada.


Não ofereças as tuas mãos a ninguém, Anita.


Não cumpri a lista. Não dei nada. Concha. Não aguento. Butterfly drowned in wine. Give me some room.


Sweet Jane e alivia.


Sempre o mesmo lápis, faz cair a pele dos meus dedos. Treinar a esquerda. Incapaz da direita. Tenho dores tão brancas. Tão brancas.


Ambitudo. Politudo. Serpente. Cristal.


Limpar e depois sujar. Depois, sujar de novo.


Ederlezi. Há pessoas que são laranjas no chão.


I’m falling. I’m falling.


Arranhar devagarinho.


Temer um pouco.


Atirar a pedra.


The big beat.
Patrícia Baltazar





quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ideias



Eu não sei de quem foi a ideia [do negócio da Santa Casa / Montepio] mas tenho pena de que não tenha sido minha, porque é boa.”
António Costa, 9.1.2018

A infelicidade engorda


Fotografia Olho de Gato



Wedding march
Felix Mendelssohn


A infelicidade engorda mais
do que vinte tabletes
de chocolate Regina.
Mesmo partida aos quadrados
e embrulhada em prata
para disfarçar,
tem mais calorias. É um veneno,
a infelicidade. Matou uns quantos
pelo caminho e mesmo assim
tem prosseguido ao longo dos séculos
engolindo sulcos de tempo e
lamelas de comprimidos.


Infelicidade, por seres minha,
tenho-te algum respeito.
Gostava de mandar-te para. Mas
é tão longe que, temo,
sentir-me-ia sem ti só
e, pior, infeliz.


Sigo.
De braço dado contigo.
Primeiro, pelo adro fora.
Depois, pelo jardim fora.
Qual paraíso.
Não, isso não chega: sigo contigo
pelo universo; cubro
chineses, paquistaneses, neozelandeses
com o teu manto diáfano
de choro.
E é sempre contigo,
minha puta, que partilho
a bandeja das recordações;
é sempre a ti, minha puta fiel,
que digo, num sorriso minúsculo e muito tímido:
hoje o lanche é chocolates.
Come chocolates, pequena.


Porque, sabes?,
querer ser feliz não é pecado. Mas
infelizmente já passou o prazo.

Inês Fonseca Santos


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Preferia não saber das ruas

Fotografia Olho de Gato



Preferia não saber das ruas
onde posso desfazer-me do desejo.
Ir ao encontro das estátuas
para me refazer do medo.

A noite é pequena e cabe
num gesto atirado ao ar
quando se parte sem olhar para trás,
nem necessidade de confirmar amor algum.

Tirei tudo dos bolsos.
Toquei o rosto para sentir a temperatura.
Não estou morta nem vou morrer.

De regresso a casa, a única certeza:
que a manhã virá para reflectir a palidez,
a habitual dificuldade em existir cedo.
Marta Chaves