quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A infelicidade engorda


Fotografia Olho de Gato



Wedding march
Felix Mendelssohn


A infelicidade engorda mais
do que vinte tabletes
de chocolate Regina.
Mesmo partida aos quadrados
e embrulhada em prata
para disfarçar,
tem mais calorias. É um veneno,
a infelicidade. Matou uns quantos
pelo caminho e mesmo assim
tem prosseguido ao longo dos séculos
engolindo sulcos de tempo e
lamelas de comprimidos.


Infelicidade, por seres minha,
tenho-te algum respeito.
Gostava de mandar-te para. Mas
é tão longe que, temo,
sentir-me-ia sem ti só
e, pior, infeliz.


Sigo.
De braço dado contigo.
Primeiro, pelo adro fora.
Depois, pelo jardim fora.
Qual paraíso.
Não, isso não chega: sigo contigo
pelo universo; cubro
chineses, paquistaneses, neozelandeses
com o teu manto diáfano
de choro.
E é sempre contigo,
minha puta, que partilho
a bandeja das recordações;
é sempre a ti, minha puta fiel,
que digo, num sorriso minúsculo e muito tímido:
hoje o lanche é chocolates.
Come chocolates, pequena.


Porque, sabes?,
querer ser feliz não é pecado. Mas
infelizmente já passou o prazo.

Inês Fonseca Santos


1 comentário:

  1. A infelicidade engorda o Estado!

    Mil e uma desculpas, não tenho rigorosamente nenhuma intenção de ser o “comentador de serviço”, mas há coisas que me “fazem saltar a tampa”. Não consigo calar!

    Mensagem amiga diz-me que o Sr Gato teve a sensibilidade de comentar o facto do governo (já começa a ser desgoverno…) ter terminado com o pagamento do subsídio de Natal em duodécimos. Essa atitude significou um corte no valor mensal das reformas,ponto!

    Mas pior, é de uma grande insensibilidade social pois está visto que este srs não convivem com idosos que vivem e lutam com pensões longe das dos políticos reformados.
    Um reformado e idoso, a maioria, luta com a farmácia, a edp, a água, o imi, o gás, a mercearia e a casa dos produtos agrícolas. Luta, na configuração física e no formato de sobrevivente. A maioria dos nossos idosos voltou ao “esquema do envelope” para distribuir a magra pensão ao longo do mês. E, neste contexto, continuar a receber o duodécimo era fundamental!

    Indiferença, desprendimento, desinteresse social pelos reformados.

    Estiveram mal, muito mal.

    Hoje, tal como ontem, partilho integralmente das palavras do Sr Gato:
    “Não podiam ter estado quietos?
    Ou ter dado a opção de continuar com os duodécimos?”


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